Novo Saramago une presente à tradição

É possível amar José Saramago eseus livros, é possível odiá-los. Difícil mesmo é negá-los. Jápopular antes de ser o primeiro autor de língua portuguesa areceber o mais importante prêmio da literatura mundial, o Nobel,Saramago é notícia relevante e obrigatória toda vez que lança umlivro. Poucos escritores de hoje têm uma voz e um estilo tãopróprios quanto ele. Quando o estilo se combina com o enredo,fica mais fácil apreciá-lo. Quando não, os detratores sentem-seainda mais livres para não ler e não gostar, mas nem assim podemescapar da tarefa de discuti-lo. O Homem Duplicado é uma história bastantecontemporânea, talvez a mais atual escrita por Saramago. Afinal,hoje é possível "produzir", a partir da vontade humana, e nãoapenas do acaso, pessoas idênticas física e geneticamente. Por outro lado, o problema desta "história simples" éque muitas das suas conseqüências já foram pensadas, porque,como o próprio Saramago lembrou nas respostas que enviou àreportagem, se a técnica só agora chegou ao apuro de reproduziro problema em laboratório, a imaginação já o faz desde atradição do mundo clássico. E, aí, a linguagem tortuosa utilizada pelo autor, muitasvezes comparada com o estilo barroco (ou, mais maldosamente, como rococó, como se isso fosse um problema em si), serve apenaspara repetir idéias e imagens, e não para trazer novas. Como exemplo contrário disso, pode-se citar uma passagemde "O Evangelho segundo Jesus Cristo". Nele, José tomaconhecimento de que Herodes decidiu matar as crianças de seureino, para que o futuro rei dos judeus, profetizado, nãoprosperasse. Na fuga, em determinado momento, José poderia teravisado a outros pais da intenção do governante - e, portanto,salvado mais inocentes. Ele, no entanto, não o faz. Passa, então, a sentir culpa e esses caminhos tortuosos do pensamento, sobre o que sedeveria ou se poderia ter feito, enchem boas páginas deliteratura. José, um homem cuja existência é do repertório comumdos cristãos, ganha vida e má-consciência, e esse foi certamenteum dos motivos que levou a obra a ser considerada herética,apesar de sua dívida clara para com a religiosidade. No caminho de Tertuliano, que o leva a ocupar, mesmo quecontra a própria vontade, a vida de seu duplo, as reflexões sãopor demais naturais para que mereçam tantas páginas. Pertencemmais ao senso comum, e não por acaso o Senso Comum é um dospersonagens da obra, fazendo as vezes de "anjo bom", ou deGrilo Falante, contra o "diabo" - ou de coelho e raposa, paracontinuarmos com Pinóquio e deixarmos de lado a religião -, quetenta o personagem a seguir nessa insana busca pelo outro, poracaso também o próprio eu. O fato é que Saramago já fez boa prosa de problemasatuais. A Caverna é uma grande história sobre o fim, cadavez mais radical, do artesanato, uma metáfora também clara paraa arte. O oleiro protagonista, no belo emaranhado construído porSaramago, parece estar sempre buscando caminhos para manter vivoseu conhecimento - ou, por que não, sabedoria, uma palavra maisprecisa, apesar de estar em desuso -, sua existência e suaessência Tudo isso dito, pode parecer que O Homem Duplicado éum romance que talvez o certo fosse ignorar. Não é bem assim:quem é apaixonado por Saramago vai encontrar nele algumas boasqualidades, e a verdade é que a história está bem amarrada, écoerente e prende a atenção. Só não alcança as pretensõessociais e mesmo filosóficas que o autor se propõe em sua obra.Isso faz dele um Saramago menor, que talvez pudesse conteralgumas páginas a menos, mas ainda assim um Saramago legítimo.Serviço - O Homem Duplicado - Romance de José Saramago. Companhia das Letras. 320 págs. R$ 36. Nas livrarias a partir do dia 7.

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