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Novo romance de Tom Perrota aborda perda e luto através da fantasia

Americano fala de 'Os Deixados Para Trás', que aborda temas que surgiram pós-11 de Setembro

LÚCIA GUIMARÃES / NOVA YORK,

20 Julho 2012 | 18h00

Uma pesquisa de opinião revelou, no ano passado, que mais de 40% dos americanos acreditam numa volta de Jesus à Terra antes de 2050. Não sabemos quantos americanos acreditam no arrebatamento, uma teologia do Juízo Final desenvolvida no século 19. Mas o pregador evangélico Harold Camping desperdiçou fartas doses de atenção pública prevendo que, no dia 21 de maio de 2011 o arrebatamento ia elevar os bons cristãos aos céus e deixar para trás os descrentes.

Essa ideia da sobrevivência como punição é o tema de Os Deixados Para Trás, novo romance de Tom Perrotta, lançado neste sábado, 20, no Brasil. Ele é o autor de Eleição e Pecados Íntimos, os dois transformados em bons filmes, e mais recentemente de A Professora de Abstinência, que o levou a mergulhar no mundo do fervor intransigente que informa Os Deixados Para Trás.

O novo romance começa 3 anos após um arrebatamento diferente do previsto por evangélicos americanos - um evento que faz desaparecer milhões de pessoas de maneira indiscriminada. Como fazer sentido da seleção? Como evitar a chamada "culpa do sobrevivente"? As escolhas dos personagens, do evangélico picareta ao otimista líder cívico, espelham a sociedade americana nesta nova trama do romancista que a revista Time chamou de "o Steinbeck da América suburbana".

Há uma ligação entre a sua escolha de tema e o período em que houve uma safra de livros em torno do ateísmo, de autores como Christopher Hitchens e Richard Dawkins?

É uma boa pergunta, esperei por ela, mas os jornalistas aqui não fizeram esta conexão. Sim, desde o meu romance anterior, A Professora de Abstinência, tento entrar num diálogo entre ateus e crentes. Há esta grande hostilidade entre os dois lados. Fiz o que deve fazer o romancista: imaginar cada lado do debate. Embora eu me alinhe com não religiosos, tenho simpatia pelos que têm fé e quero compreendê-los. Foi um desafio que me impus. Sou um cético e agnóstico mas confesso sentir a ausência da religião na minha vida. E esse tipo de vazio se intensifica quando as pessoas estão sob pressão. Então, decidi fazer a cartografia das reações dos meus personagens sob pressão.

Sua ficção, com o sucesso do romance Eleição, de 1998, que logo virou filme, lhe trouxe uma fama de satirista. Mas, apesar de elementos de sátira em Os Deixados Para Trás, o tom da narrativa é mais sombrio.

Sim, é engraçado, se a sua carreira é duradoura, muitos leitores esperam que você se prenda ao que já conhecem. Quando comecei o romance, esperava encontrar mais caminhos para humor e sátira. Mas o luto dos personagens não me permitiu continuar e tive que acompanhá-los. Eles se encontram no estado de perplexidade de quem sofre uma grande perda. E foi duro para mim me inserir no universo deles.

Embora o luto esteja sempre presente em qualquer época, acha que temos hoje uma cultura de negação do luto? Por exemplo, se morre uma figura conhecida, as pessoas correm para o Twitter para enviar condolências como se isto fosse processar a perda.

Sim, este é um ponto interessante. Nesta cultura de celebridade, as pessoas usam a morte de famosos como catarse porque não se sentem capazes de expressar luto na vida privada. Recentemente houve uma controvérsia que ilustra este dilema. Psiquiatras estão tentando incluir o "distúrbio do luto" no próximo manual de classificação de desordens mentais. A iniciativa provocou protestos. Os críticos se opõem à noção de que há algo patológico com a tristeza pela morte. É a mentalidade do pensamento positivo: o luto como doença e não produto do amor. Como parte da pesquisa para o romance, li memórias de pais que perderam filhos. Um ponto em comum é a queixa de que sofrem pressão, depois de um certo tempo, para retomar a vida, seguir em frente, como se houvesse um prazo de validade externo para a sua dor.

A premissa da história de Os Deixados Para Trás, um arrebatamento que faz desaparecer milhões de pessoas, aponta para a ficção científica. Mas o sr. não toma este caminho.

É intencional. No meu livro, a infraestrutura está intacta, as pessoas continuam a trabalhar. O apocalipse que me interessa é o psicológico, como um trauma coletivo afeta a confiança no futuro e o senso de propósito.

De certa forma, estava explorando o mundo pós-11 de setembro?

Sim, mas o romance não é uma parábola sobre aquele evento. Nos meses seguintes ao 11 de setembro, nós pensávamos: "Nada será como antes." Mas, em 5 anos, o país absorveu o trauma. Eu quis explorar a diferença entre as pessoas que retomam a vida e as outras, que tomam rumos radicais.

A cientologia voltou às manchetes recentemente e os detalhes sobre o culto desafiam a credulidade. Por que os Estados Unidos são um supermercado de crenças?

Para encarar do lado positivo, o etos democrático é profundo neste país, tanto quanto a suspeita da autoridade. A religião, assim como a arte e a política, podem começar de baixo. O fundador da cientologia, Ron L. Hubbard, era parte de literatura pulp, ele começou oferecendo uma alternativa à psicoterapia. E muita gente aderiu porque se sentia melhor. Agora, daí para perseguir dissidentes, isto eu não posso explicar. Os americanos toleram mais o autoritarismo religioso do que o autoritarismo político.

Você está em Los Angeles escrevendo o piloto do que pode se tornar uma série do romance para a HBO. Qual a diferença entre ter um livro transformado em filme e em série de TV?

Para qualquer formato você tem que estar aberto às ideias dos outros. Mas eu me sinto atraído pelo formato da série, que coloca seus personagens sob o impacto de mudanças. Nunca escrevi sequências e adoro a série Rabbit, de John Updike. Há gente que me pergunta se vou escrever outro romance com os personagens de Pecados Íntimos, mais velhos. O desafio do piloto de Os Deixados Para Trás é introduzir o universo do romance.

 

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