Novo romance de Saramago será sobre indústria do armamento

Escritor portugês questiona por que não há greves no setor e afirma que o fascismo ainda não acabou

Efe,

02 de novembro de 2009 | 17h45

O escritor português José Saramago revelou nesta segunda-feira, 2, que seu próximo romance, que já começou a escrever, não será sobre o Corão, mas sobre algo tão importante como todos os livros sagrados do mundo: a ausência de greves na indústria do armamento.

 

"Por que não há greves na indústria do armamento?", questionou Saramago ao apresentar seu romance, "Caim", na Casa da América de Madri e revelar o segredo que costuma guardar até o final sobre o livro que tem em andamento em cada ocasião.

 

A greve à qual se refere o Nobel de Literatura não é movida pelos trabalhadores em busca de melhores salários, mas a qual os trabalhadores (na maioria engenheiros) parem de construir armas pelo simples fato de as mesmas servirem para matar as pessoas. "Esse é o tema: as armas, quem as faz, quem as trafica. Estão por todas as partes. A televisão mostra continuamente cenas de violência com as quais fica claro que a vida não tem nenhuma importância", explicou o escritor.

 

O assunto surgiu a partir da pergunta de um jornalista colombiano que questionou: por que em seu país, de tradição esquerdista, a luta armada levou a ascensão da extrema-direita? Sem referir-se concretamente à Colômbia, Saramago admitiu a dificuldade de saber hoje em dia onde está a esquerda, a extrema-direita e o fascismo, que não acabou. "Tudo se mistura e é corruptível. Se à extrema-direita gosta de aproveitar-se da luta armada, está na natureza das coisas".

 

O escritor demonstrou preocupação "com o desvio de rota dos movimentos de esquerda e acredita que a palavra mais importante deveria estar na ponta da língua de todos, um simples não, algo tão pequeno e que tanto compromete". Falar em extrema-direita lembra o fascismo, embora Saramago tenha repugnância pelo termo. "Mas está aí, esperando na porta, e Itália é um caso claríssimo".

 

Saramago impregnou seu romance "Caim" de ironia e bom humor, e salpicou suas intervenções, quando perguntou o que fez Deus antes de criar o universo: "não consta, e era uma eternidade". Depois "decidiu criar o Universo, o fez em seis dias e, ao sétimo, descansou. E segue descansando até agora", brincou o escritor.

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