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Novo Parrish Art Museum exalta a região que seduziu Pollock

Num terreno à beira de uma rodovia, surge o endereço da melhor arte do East End, sob o mesmo céu que atraiu levas de artistas

LAURA GREENHALGH, WATER MILL, LONG ISLAND, NY,

25 de novembro de 2012 | 02h15

Se for visto meio de lado e a distância, a partir das janelas de um carro que percorra a Montauk Highway, poderá ser confundido com um depósito no meio do campo. Se visto de frente (seria mesmo a frente?) e mais de perto, talvez possa lembrar uma daquelas casinhas de vila de pescador que fizeram a fama inicial dos Hamptons. Ok, nem uma coisa nem outra. Mas são justamente essas falsas capturas do olhar que nos introduzem à ousadia do projeto arquitetônico da nova sede do Parrish Art Museum, em Water Mill, Long Island. Assinado pelo escritório Herzog & de Meuron e inaugurado dias atrás, o projeto do novo Parrish demonstra como arquitetura e arte podem formar uma liga indissociável, renovando as possibilidades de edificação quando se trata de espaços expositivos públicos.

Numa época de extravagâncias arquitetônicas, procurou-se em Water Mill uma simplicidade que contrasta até com a imponência de outros trabalhos da dupla de arquitetos suíços, detentores do Pritzker Prize de 2001. Projetos famosos como o da Tate Modern, em Londres, ou do Estádio Nacional de Beijing, mais conhecido como Ninho do Pássaro, ambos de autoria da grife. "Aqui, o ponto de partida foi o estúdio do artista. Visitamos vários deles nessa região dos Hamptons, estúdios de criadores célebres, que já se foram, e estúdios de quem está produzindo hoje. Procuramos saber como vivem, como trabalham, como se relacionam com o lugar. Essa foi a inspiração em torno da qual trabalhamos", explica o arquiteto Ascan Mergenthaler, sócio sênior do escritório fundado por Jacques Herzog e Pierre de Meuron em 1978.

Não foi um ponto de partida qualquer. A região em questão, os Hamptons, não terá entrado para a história apenas pela quantidade de milionários e celebridades que construiriam casas por lá, mas fundamentalmente por abrigar nomes definitivos da arte, como Jackson Pollock, Willem de Kooning, Roy Liechtenstein, Jane Freilicher, Fairfield Porter, Dan Flavin, John Chamberlain, Donald Sultan e tantos outros. É impressionante a lista dos artistas que montaram ateliês nesse lugar, seduzidos por pradarias, belas praias e uma luminosidade especial. Impressionistas, expressionistas abstratos, gurus do pop, minimalistas, enfim, levas de criadores foram chegando para se refugiar no sossego dessa porção de Long Island, a apenas duas horas de Nova York.

Quando foi fundado em 1897, por obra e graça de um promotor bem-sucedido, Samuel Longstreth Parrish, o museu ainda estaria distante da missão que iria ter no futuro, ou seja, ser uma instituição voltada à arte contemporânea americana produzida a partir da metade do século 19. Parrish, que era quaker, mandou construir em Southampton um austero casarão para abrigar sua coleção de obras renascentistas. Depois, acabou incorporando um museu local e, mais tarde, seus sucessores no board da instituição puderam anexar uma portentosa coleção do pintor impressionista William Merritt Chase (1849-1916), um mestre americano que também viveu e criou nos arredores. Já nos anos 1980, Annie, viúva do pintor realista Farfield Potter, hoje muito mais festejado do que em vida, também resolveria transferir para o Parrish mais de 200 telas do marido. E, assim, o museu foi tomando cada vez mais o rumo dos contemporâneos, com uma coleção de abrangência e importância crescentes. São mais de 2.600 obras e constantes aquisições.

A encomenda do novo Parrish para a firma Herzog & de Meuron nasceu em consequência de uma instituição que já não mais cabia em si mesma. Em 2006, a dupla de arquitetos, também encarregada do projeto de um complexo cultural para São Paulo (leia abaixo), apresentou a primeira proposta ao board, na forma de uma arrojada aglomeração de "estúdios" (30 edificações ao todo), solta numa área de aproximadamente 58 mil m², à beira da rodovia que cruza a cidade de Water Mill. Só que a crise financeira de 2008 fez com que mantenedores e arquitetos revissem o projeto orçado em US$ 80 milhões à época. Da necessidade surgiu a forma final: projetar dois longos pavilhões com cerca de 190 metros de comprimento, conectados por um corredor central, nos quais se sucedem uma sequência de galerias moduláveis, fora os espaços de convívio e a área administrativa. Numa das pontas, fincou-se o Liechtenstein Theater, espaço multiuso com capacidade para 200 pessoas e tecnologia para performances de arte. A empreitada caiu para US$ 26 milhões e três anos de construção. "Nós não poderíamos estar menos orgulhosos", comemorava Terry Sultan, diretora do Parrish, no dia da inauguração. "Este prédio manteve o compromisso de render um tributo ao legado criativo do East End."

O tributo, em termos arquitetônicos, se fez também na utilização de matéria-prima da região, como as madeiras, convocadas a conviver com a solidez das paredes externas, em concreto. Dentro, paredes brancas, tetos também de madeira e chão de cimento liso, propostas simples, de acabamento impecável. E talvez o ponto surpreendente do museu aconteça na iluminação. "Queremos que os visitantes apreciem as obras na luz que seja a mais próxima possível daquela sob a qual os artistas trabalharam", salienta Mergenthaler. A solução encontrada foi dispor claraboias ao longo do teto de duas águas, de tal forma que elas funcionem como painéis que filtram os raios solares de maneira diferente ao longo do dia. A iluminação artificial, também presente, quase não se nota. E não existe um único spot apontado para as peças em exposição. O projeto ainda induz o visitante a aproveitar o lado de fora do museu, que se abre para um campo de vegetação uniforme, bem típica da região. Para essa contemplação foi feito um longo banco de concreto percorrendo toda a fachada externa.

Aberto ao público no último dia 10, aos poucos o acervo do Parrish vai ocupando sua nova casa. Malcom Morley, artista inglês radicado nos Estados Unidos e com estúdio em Long Island pelo menos desde 1983, foi o escolhido para a primeira exposição individual. Explorando as possibilidades do papel em telas e esculturas, Morley domina uma das galerias com Ring of Fire, em que a figura de um motociclista, moldada em tamanho natural, se projeta no ar, cruzando um falso círculo de fogo. Prevê-se que a valiosa coleção de Fairfield Porter, tão criticado em seu tempo por ser figurativo, possa, enfim, ser exibida de forma permanente. São dezenas de trabalhos que passaram anos trancados em reservas técnicas, muitos ainda desconhecidos do público, e que agora poderão vir à luz, cercados de abstratos por todos os lados. Porter, que foi também grande crítico de arte, saberia muito bem aguentar esse tranco.

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