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Novo olhar sobre Lope

Andrucha Waddington fala sobre sua aventura espanhola, filmando a vida de Lope de Vega; o longa estreia hoje

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2011 | 00h00

Veneza, Festival do Rio, Mostra de São Paulo. Andrucha Waddington veio trazendo seu Lope para o convívio brasileiro, mas o filme estreia somente agora, meio ano depois de ganhar os holofotes do Lido. Lope é Dom Lope de Vega, dublê de guerreiro, poeta, dramaturgo e amante. Um personagem integral, que tombou sobre o diretor como um presente. "Estava na Espanha, mostrando Casa de Areia, quando o produtor e roteirista Jordí Gasull me entregou o roteiro do filme, dizendo que gostaria que eu o lesse. Foi uma das noites mais loucas da minha vida. Li e me apaixonei, mas Lope era tão distante de mim. Nunca havia pensado em fazer um filme de época. Eram tantos os desafios. Acho que foi por isso que encarei, mas principalmente por causa da dramaturgia. O drama em Lope é universal. Todo jovem artista vive esse dilema de abrir mão de tudo para se dedicar à sua arte."

Lope é uma coprodução hispano-brasileira. A Conspiração é a parceira brasileira, com a Warner. A produção reúne artistas e técnicos de dois continentes. Muitos espanhóis, claro, mais Selton Mello, Sonia Braga e o diretor de fotografia Ricardo Della Rosa. Andrucha filmou na Espanha e na África, mais exatamente, no Marrocos, onde encontrou a sua Madri do século 16. "Era uma cidade em pleno processo de expansão. Estava recebendo a corte. Metade da cidade era terra arrasada, sobre a qual iam sendo construídos os novos edifícios."

Ele conta que, até por ser neófito em matéria de produções de época, fez um longo trabalho de preparação. "Queria estar com tudo pronto para poder me concentrar na dramaturgia, durante a filmagem." Os problemas, porém, persistiram até a última hora. Os produtores queriam nomes conhecidos no elenco. Ele não gostava de ninguém para o papel do protagonista. Faltando três semanas, Andrucha, em desespero, admitiu para a sua diretora de casting que ainda não tinha um ator. Ela sacou, como ás da manga, o argentino Alberto Ammann.

Andrucha impressionou-se com o rapaz e, se tivesse alguma dúvida, o preparador que lançou Javier Bardem lhe disse que Ammann seria o novo Javier. Andrucha filmou três cenas do ator com cada estrela do filme - Pilar López de Ayala, a Angélica de Manoel de Oliveira, e Leonor Watling. Levou-as aos produtores. "Vou descer para um café. Vocês me chamam depois que tiverem decidido." Não demorou muito e o celular tocou. "Tu eres un hijo de puta", lhe disse Jordí Gasall. O plano de contratar um astro foi por água abaixo. Lope, o filme, marca o lançamento de um novo astro. Alberto tem tudo o que o papel exige. É guapo, intenso, viril e, nas cenas delicadas, revela uma pegada sensível.

O repórter cita dois filmes. Um é Shakespeare Apaixonado, de John Madden. O roteiro de Lope não busca, como o do outro filme, esclarecer o artista por meio da obra, mas ambas também estão intrinsecamente ligadas e não é possível entender a evolução, digamos, "literária", de Lope de Vega sem a informação sobre os percalços de sua trajetória. Andrucha ri. "Shakespeare Apaixonado foi uma referência, mas no sentido inverso. Mostrei o filme aos atores como exemplo do que não queria - uma interpretação farsesca."

O outro filme é um clássico pouco conhecido dos anos 1960. Em 1964, o italiano Ricardo Freda fez O Magnífico Aventureiro, com Brett Halsey, contando a história de Benvenuto Cellini. O desafio do filme era dar conta das complexidade do personagem - escultor, portanto artista, guerreiro, amante. Andrucha promete buscar o filme de Freda, que não conhece. E observa. "O desafio, quando se tenta dar conta de personagens assim, é fazer um filme que percorra muitos gêneros e estilos."

Guerra, aventura, romance, arte. Por que ele acha que o produtor o escolheu para dirigir Lope? "Porque Jordí queria um olhar fresco, não o de alguém que, sentindo o peso de Lope, o tratasse com reverência." E por que ele, Andrucha, quis Sonia Braga como a mãe? "Sonia era um sonho de consumo pessoal. Sempre quis filmar com ela. Enviei o roteiro sabendo que era uma coisa louca, o papel de uma velhinha. Sonia topou no ato. Quando chegou à Espanha, não era mais o mito sexual. Havia incorporado a velhinha que eu queria."

QUEM É

ANDRUCHA WADDINGTON

Irmão do diretor de TV Ricardo Waddington, da diretora (radicada na França) Tatiana Junod e do diretor de TV e marketing Viktor Junod, Andrew (Andrucha) nasceu no Rio, em 1970. Diretor de cinema e publicidade, é um dos sócios da Conspiração Filmes. Fez ficções (Gêmeas, Eu Tu Eles, Casa de Areia) e o documentário Festa de São João. É pai de quatro filhos - Joaquim e Antônio (com Fernanda Torres) e João e Pedro, do primeiro casamento, com Kiki Duarte.

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