Novo livro de Paulo Coelho espreita mundo dos famosos

'O Vencedor Está Só' chega às livrarias neste sábado com tiragem de 200 mil exemplares

Ubiratan Brasil,

02 Agosto 2008 | 00h26

Inconformado com o abandono da mulher, industrial russo decide forçar sua volta ao custo de uma série de cinco assassinatos em apenas 24 horas. Para isso, escolhe um dos eventos mais midiáticos do mundo, o Festival de Cinema de Cannes, onde pululam produtores, atores consagrados, candidatas a atriz. Eis o ponto de partida escolhido por Paulo Coelho para compor seu 12º livro, O Vencedor Está Só, agora sob a chancela da Editora Agir (400 páginas, R$ 39,90), que lança hoje uma bem fornida edição: 200 mil exemplares.    Leia o primeiro capítulo de O Vencedor Está Só   "O formato é de romance policial, mas uso a violência para tratar do mundo das celebridades", conta Coelho, que conversou com o Estado por telefone, desde Paris. Com isso, ele oferece um retrato da chamada Superclasse, a elite da elite que define os rumos das pessoas. Intrigado com o poder desses magnatas e ele mesmo uma celebridade, Coelho pretende testemunhar contra a crise de valores de um universo que se alimenta apenas de aparências.   Na introdução, você escreve que, com esse livro, fotografou sua época. Você acreditou, então, que, para retratar o momento atual, o caminho seria um romance policial?   Não, seria retratar o luxo e o glamour. Veja um exemplo: quem pesquisa sites de notícia, como o da CNN, entre os fatos realmente relevantes, encontra algo como "Amy Winehouse deixa clínica". Mesmo que o interesse da pessoa seja outro, certamente ela vai acessar nessa notícia, mesmo que dure pouco. Ou seja, o primeiro clique será em um fato que não mudaria os rumos do mundo, como é o caso, por exemplo, da crise hipotecária dos Estados Unidos. A cultura das celebridades é muito forte e espelha nosso tempo. Tive a certeza disso a partir de uma pesquisa.   Como assim?   Consultaram adolescentes americanos sobre três possibilidades: ser senador dos Estados Unidos, um grande desportista ou assistente pessoal de uma celebridade. O resultado apontou 58 % preferindo ser assessor de alguém famoso. Ou seja, a celebridade preenche uma série de valores que não encontram eco no sistema, que sempre muito conservador. A fama normalmente é rebelde. Eu não me interessava pelos valores dos meus pais, mas sim no que preencheria meu universo, que foram os Beatles. A celebridade preenche esse vazio. Assim, para retratar o meu tempo, acreditei que o melhor seria tratar do mundo das celebridades, que também sempre me intrigou muito.   A idéia surgiu durante o Festival de Cinema de Cannes deste ano, do qual você participou?   Não, isso já me intrigava porque sempre trafeguei nesse universo da Superclasse, termo criado pelo ex-assessor do David Rothkopf sobre as pessoas que hoje controlam o pensamento e têm muita influência na agenda global - entre os brasileiros, além de mim, ele citou o presidente Lula e o ministro Celso Amorim. Ou seja, o culto das celebridades está cada vez mais difundido. Basta ver a diminuição de interesse, por exemplo, por revistas de turismo ou de carros. Por outro lado, crescem as tiragens de publicações luxuosíssimas e também das revistas mais baratas com tiragens gigantescas que tratam do mesmo assunto: celebridades.   E o que uma celebridade como você pensa do assunto?   Sempre me questiono sobre o que estou fazendo de errado por não entender como as coisas funcionam. Por isso, resolvi escrever o livro, que é absolutamente factual. Entre os personagens, 80% deles são inspirados em pessoas reais. Até mesmo o ritual do assassino em série foi construído a partir do relato de detetives e psicólogos. Construí um retrato do meu tempo.   Você temia não estar sendo fiel?   Sim. Quando cheguei a Cannes, para o festival deste ano, eu já tinha terminado o romance. E meu medo era não ter contado bem a história. Mas, lá eu me encontrei com minha agente, Mônica, que tinha lido o livro e que garantiu ser um retrato fiel. Isso me deixou mais aliviado.   Há um bom retrato de bastidores.   Sim, mas, para isso, precisei omitir minhas fontes. Porque as relações não funcionam como se acredita, ou seja, você chega com um projeto inovador, empolga um produtor que decide investir. Na realidade, ninguém te dá atenção. Para minha surpresa, quem define o que pode ser sucesso são agências de tendências, que já sabem o que vai acontecer. Pessoas muito bem treinadas que, andando na rua, freqüentando festas, percebem qual vai ser a próxima roupa da moda. Eu senti isso na pele quando era hippie - de repente, nossa forma de se vestir estava em butiques caríssimas. Isso empobreceu o movimento. A diferença é que hoje as tendências mudam com muito mais velocidade. Daí a total inutilidade da crítica nos dias atuais.   Como assim?   A crítica está profundamente arraigada a modelos que aconteceram a há 30, 40 anos. Hoje, ela interessa apenas a uma minoria. A crítica cultural hoje é jurássica. Seria fácil, no meu romance, julgar o culto da celebridade, mas meus personagens são pessoas com sonhos sinceros e que precisam lidar com uma realidade longe da esperada.   O caminho, então, é preocupante?   Sim, mas há saídas. O espírito da rebelião está presente, favorável a mudanças profundas. O mundo tem uma grande capacidade de renovação.   Por que você escolheu o gênero policial para contar a história e não, por exemplo, o de costumes?   Acho que fiz um romance de costumes, embora a violência, que normalmente domina a literatura policial, esteja presente. Na verdade, pretendi mostrar a forma absurda com que o uso da violência é justificado por "causas nobres". Isso é uma barbaridade, mas acontece. A tortura voltou a ser empregada hoje como uma forma de se conseguir uma confissão. Ora, eu fui torturado e me lembro que, em determinado momento, eu disse que assinaria qualquer documento só para acabar com o sofrimento. Confissão arrancada sob tortura não vale nada. Assim, a violência, ao lado do culto ao glamour, é um fio condutor.   E os bastidores do cinema? Você tem se aproximado desse meio, não?   É exatamente aquilo que está no livro. As situações são manipuladas por aqueles escritórios de tendência. Daí a quantidade de filmes sobre o mesmo tema que chegam ao mercado, que só são trocados quando se descobre uma nova tendência. Sobre minha aproximação, é verdade - algumas de minhas obras estão sendo adaptadas. Veronika Decide Morrer já foi filmado e está em fase de edição agora. Quem viu, garante que ficou muito bonito. O Alquimista começa a ser rodado em outubro e Onze Minutos também será filmado neste ano.   E a experiência de convocar as pessoas a apresentar propostas, via YouTube, para a filmagem de A Bruxa de Portobello?   Foi fantástica, uma surpresa maravilhosa porque as pessoas deixaram para o último dia (25 de julho) para se inscrever. Assim, até 20 de julho, só 30 propostas foram apresentadas. Mas, de repente, o número cresceu assustadoramente. E fiquei impressionado com a qualidade dos trabalhos: tem desde desenho animado, passando por apenas filmes narrativos, até aquelas produções que visivelmente custaram muito. Mas cometi um erro de não limitar o tempo de duração. Assim, acredito que a edição final vai resultar em um filme de, pelo menos, três horas, o que vai exigir um bom trabalho de veiculação.   E o que achou da sua biografia escrita pelo Fernando Morais?   Extremamente correta. Continuo arrependido de ter aberto meus diários, mas tudo bem. A única falha do livro está no pouco espaço dedicado à busca espiritual, mas o Fernando não acredita em nada disso. E meus leitores adoraram, o que me confortou, pois eu esperava que perderia muitos fãs.

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