Novo livro de Loredano tem sabor de marcha, soldado, cabeça de papel

Quando o caricaturista e pesquisador Cássio Loredano anunciou há alguns anos que já tinha conseguido localizar cerca de 30 mil desenhos do histórico J. Carlos e que pretendia publicá-los, houve quem se perguntasse em que país ele pretendia fazer isso. O Brasil não é especialmente cioso de sua memória gráfica e visual e, exceto por iniciativa de particulares dedicados, quer mais é que o passado desapareça até o último vestígio. Mas Loredano foi em frente e, depois de bater em várias portas, conseguiu publicar dois primorosos volumes de originais do artista: O Rio de J. Carlos (1998) e Carnaval J. Carlos (1999), ambos pela Lacerda Editores, em colaboração com a Prefeitura do Rio. O terceiro livro sai agora, Lábaro Estrelado, pela Casa da Palavra, uma pequena e valente editora carioca.J. Carlos (1884-1950) foi, talvez, o maior cartunista brasileiro, numa época em que a palavra cartunista ainda não tinha sido transplantada para a língua. Em seu tempo, o nome que se dava era caricaturista - ou, se a caricatura tinha conteúdo político, chargista. Mas ele foi ainda um fabuloso ilustrador, capista, artista gráfico e publicitário. E foi também uma grande prova de que, ao contrário do que se pensa (e preguiçosamente se escreve), o modernismo brasileiro não começou em 1922 e muito menos com a Semana de Arte Moderna. Começou muito antes, na alvorada do 1900, com a turma de caricaturistas (quase todos também dublando como poetas, cronistas, editores de revistas e libretistas de teatro) que, nas duas primeiras décadas do século, circulava pelos cafés e confeitarias do Rio e usava o humor como instrumento de crítica e consciência social.A história do modernismo pré-1922 (nada presunçoso, mas tão criativo, piadista e multidisciplinar quanto este) só agora começa a ser levantada pelos pesquisadores, como Mônica Pimenta Velloso e outros. É nela que entra J. Carlos, aliás José Carlos de Brito e Cunha, que, em 48 anos de atividade profissional, transformou em itens de colecionador milhares de capas e páginas de Fon-fon, Tico-Tico, Careta, Paratodos, Gazeta de Notícias e dezenas de publicações já extintas. É nesse material que Cássio Loredano mergulhou e do qual vem trazendo à tona livros temáticos.O primeiro livro era o J. Carlos das melindrosas; o segundo, o das colombinas; Lábaro Estrelado é o dos uniformes e fardas. É o J. Carlos, digamos, "patriota". Se a palavra soa hoje para lá de demodée, pode-se trocá-la por "nacionalista", mais popular em certos círculos. Compõe-se de desenhos exaltando os símbolos nacionais (bandeira, hino, armas), os setes-de-setembro, a República, o papel do Brasil nas guerras, uma ou outra revolução doméstica e até os escoteiros. O livro não se compara aos dois anteriores, mas talvez os supere em "nostalgia". Tem um delicioso sabor de caderno escolar dos anos 40 e 50 e pode dar aos mais velhos a vontade de sair, de calças curtas e espada de pau, cantando "Marcha, soldado/ Cabeça de papel". Tem também um travo amargo porque, marchando ou não direito, acabamos indo todos para o quartel na ditadura militar (1964-1985).No texto que acompanha os desenhos, o jornalista Luciano Trigo recorda a identificação que, na ditadura do Estado Novo (1937-1945), a educação cívica a muque teve com a estratégia de propaganda de países então sob o fascismo. Na mesma época, Itália, Espanha e Portugal fardaram sua juventude em massa e incutiram-lhe uma noção selvagem de "pátria", que devia embrulhar o estômago dos mais conscientes. Mas, como também lembra Trigo, muitos desenhos de J. Carlos são anteriores a essa estratégia e não podem ser confundidos com ela. O curioso é que o mesmo patriotismo compulsivo foi também uma característica de países democráticos, como a Inglaterra e os EUA, mas, por algum motivo, só o identificamos com Mussolini, Franco e Salazar.J. Carlos não tinha nada a ver com isso. Ele vinha de um tempo em que os símbolos nacionais eram cultuados naturalmente nas grandes datas e se supunha que os valores "patrióticos", aprendidos na escola, acompanhariam o brasileiro vida afora. E foi assim por muito tempo, até que, de fato, as duas longas ditaduras fizeram com que uma nova geração de brasileiros olhasse de esguelha para tais símbolos, identificando-os com os anos em que eles nos foram impostos como obrigatórios. Mas não consta que esse problema seja um privilégio do Brasil: desde 1968, quando a bandeira inglesa começou a ser usada para estampar calcinhas e a americana passou a ser queimada em shows de rock, a perda de prestígio desses símbolos parece ser universal. E, mesmo assim, é relativo: bandeiras nacionais, inclusive a brasileira, continuam a ser freneticamente desfraldadas em Copas do Mundo e Olimpíadas.O Brasil de J. Carlos podia ser "patriótico", ingênuo e idealizado, como os EUA de Norman Rockwell, mas não era acrítico. Mesmo em Lábaro Estrelado, não faltam críticas ao miserê popular e há sempre uma variedade de cores de pele quando ele retrata um grupo de brasileirinhos. Um dos desenhos, inclusive, saúda a queda do Estado Novo e o começo da redemocratização. Desenhos esses que, como sempre, são lindos, embora o tema não se preste aos delírios de imaginação e de cores que J. Carlos obtinha ao explorar o carnaval ou o cotidiano carioca. Mas, também nesse caso, a culpa não é dele: fardas e bandeiras são monótonas visualmente. Talvez por isso, a seus olhos, a República seja sempre uma mulher sensualmente decotada ou com as pernocas de fora.Lábaro Estrelado. Livro de J.Carlos, organizado por Cássio Loredano. Casa da Palavra. 64 págs. R$ 25,00

Agencia Estado,

08 de setembro de 2000 | 21h32

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