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Novo HQ faz panorama da ditadura no Brasil

Robson Vilalba esboça em livro os anos de chumbo no País

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2015 | 04h00

Com o livro Notas de um Tempo Silenciado, Robson Vilalba ganhou o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Do que se trata? De um compêndio sociológico sobre os tempos da ditadura? Não. Há pouca sociologia na obra. Mas, por meio de pequenas histórias, que relembram grandes personagens, e um traço incisivo em seus desenhos, Vilalba esboça um panorama agudo dos nossos anos de chumbo por meio de histórias em quadrinhos. 

Parte do material havia sido publicada pelo jornal paranaense Gazeta do Povo na série Pátria Armada, Brasil, que evocou os 50 anos do golpe civil-militar em 2014. Dos treze capítulos constantes do livro, oito fizeram parte da série jornalística. Os outros cinco são inéditos. A leitura da HQ evoca o período terrível da ditadura, e mesmo a situação política instável que a antecedeu. De fato, no primeiro capítulo, No Princípio, as Trevas, ressoa o clima golpista existente no País durante a fase final da presidência de João Goulart. O golpismo, se sabe, está no DNA político brasileiro. 

O estilo do material é fragmentário, com sequências assimétricas e traços fortes, quase expressionistas em determinadas passagens. A inspiração? “Tomei como referência os consagrados Joe Sacco e Art Spiegelman, que fragmentam suas histórias em pequenos capítulos, conduzindo a narrativa quase como um folhetim”, escreve Vilalba em texto colocado no final da obra. 

O principal valor da publicação é dar voz a personagens reais, que participaram da história violenta daquele tempo, e que ainda estavam relativamente silenciados. Desse modo, surge nas páginas do livro a figura de Sonia Lafoz, estudante de Psicologia, famosa por sua beleza, que aderiu à guerrilha. Sonia militou na VPR (Vanguarda Armada Revolucionária), tendo participado, sob o codinome de Mariana, no famoso assalto ao “cofre do Adhemar”, um dos episódios mais pitorescos da história da luta armada brasileira. Consta que o político paulista Adhemar de Barros (um dos mentores civis do golpe) mantinha na casa da amante no Rio de Janeiro um cofre contendo dinheiro da corrupção. Da famosa “caixinha” engordada com dinheiro de empreiteiras. A ex-amante do político, Ana Capriglione, conhecida como Dr. Rui, abrigava em sua casa o cofre recheado com US$ 2,5 milhão. Sonia participou desta e de outras ações. Quando se descobriu grávida, exilou-se no Chile. Vive hoje em Curitiba. 

Mesma sorte não teve Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, que participou da Guerrilha do Araguaia. Figura mítica de negro hercúleo, Osvaldão estudou Geologia na Checoslováquia e voltou ao Brasil para participar da guerrilha. Mítico entre os moradores, tinha fama de imortal. Assassinado pelas forças do exército, seu corpo jamais foi encontrado. Testemunhas dizem que levou um tiro pelas costas, mas alguns habitantes da região preferem acreditar que ele se transformou em pássaro..., como diz Vilalba num poético último quadrinho dedicado ao guerrilheiro.

Notas de um Tempo Silenciado é fruto de um trabalho de pesquisa e elaboração imagética dos fatos. Sempre que possível, Vilalba entrevistava os personagens que participaram daqueles episódios. Quando conseguiu fazê-lo, sente que seu trabalho foi facilitado. Pelo rumo da conversa, como a que teve com Sonia Lafoz, ia já delineando o formato que teria o episódio e seu possível desfecho. Daí o clima de thriller que perpassa esta série de fatos em particular. E a embocadura de história oral conferida à obra em seu conjunto. Histórias que servem de material aos quadrinhos, seu suporte final. 

Por outro lado, Vilalba procurou destacar aspectos da repressão pouco contemplados, até mesmo pela vasta produção literária e historiográfica sobre o período - em especial a repressão que se abateu sobre negros e indígenas durante a ditadura. Donde capítulos como A Domesticação dos Selvagens e Os Passos da Integração estarem entre os mais impressionantes do livro. No ritmo militar do “Brasil Grande”, indígenas podiam ser estorvos ao desenvolvimento. E, naquela época, empecilhos eram removidos sem qualquer escrúpulo de consciência. 

Uma série de artigos é apresentada à guisa de posfácio do livro. Num deles, a escritora e psicanalista Maria Rita Kehl, integrante da Comissão da Verdade, escreve que “os índios foram... a população mais vitimada pelas políticas de ‘desenvolvimento’ da Amazônia dos governos militares, sobretudo após a década de 1970”. 

Essa, a saga do povo brasileiro rumo à democracia e que encontra no formato dos quadrinhos expressão que talvez a conduza aos mais jovens, que tiveram a sorte de não viver aquela época. Lembrar esses tempos sombrios é sempre pedagógico, e não precisa ser uma obrigação chata. 

NOTAS DE UM TEMPO SILENCIADO

Autor: Robson Vilalba

Editora: Edições BesouroBox (104 págs.; R$ 38)

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