Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Novo gestor do Teatro Municipal de São Paulo defende maior transparência e planejamento estratégico

Para Carlos Gradim, autonomia de gestão da organização social é fundamental, mas não significa ausência de diálogo

Entrevista com

Carlos Gradim

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

04 Dezembro 2017 | 06h05

O Teatro Municipal de São Paulo precisa passar por uma “mudança de cultura”, com novos processos internos e maior transparência, e com um planejamento estratégico a respeito de sua função e relação com a cidade. É esse o norte do trabalho que o Instituto Odeon, organização social responsável pela gestão do espaço, segundo seu presidente Carlos Gradim, vai desenvolver.

+++ Teatro Municipal de São Paulo celebra 130 anos do autor Bache Villa-Lobos

Responsável pela gestão do Museu de Arte do Rio (MAR), o Instituto Odeon assumiu o Municipal em setembro deste ano. Segundo Gradim, em sua primeira entrevista desde então, diagnósticos ainda estão sendo feitos, mas a temporada 2018 já está “90% pronta” e deve incluir quatro óperas (os títulos ainda não foram anunciados, mas o Estado apurou que o primeiro, em março, deverá ser Turandot, de Puccini).

+++ Instituto Casa da Ópera está inabilitado para assumir o Teatro Municipal de São Paulo​

Qual a impressão inicial a respeito do estado em que o Teatro Municipal se encontra?

Ainda estamos em um momento de percepção. Somos conservadores, para atuarmos precisamos nos aprofundar. Não dá para mudar sem compreender o presente. E não paramos, não fechamos as portas enquanto isso. A gente sentiu, de qualquer forma, que não havia processos claros e, na nossa visão de gestão, isso é fundamental, pois estamos lidando com dinheiro público. E queremos criar um planejamento estratégico, uma visão, uma missão, que englobe o passado e o valor simbólico do Municipal. Queremos resgatar esse imaginário pois houve um momento de ruído recentemente. Estamos trabalhando para diagnosticar problemas e criar planos de ação. No MAR, abrimos as portas com um planejamento estratégico pronto. No Municipal, queremos discuti-lo com a sociedade, para entender como ressignificá-lo.

No caso do MAR, vocês montaram uma estrutura do zero, sem os vícios de uma instituição centenária como o Municipal. Além disso, vocês herdaram neste caso um teatro com programação anunciada sem antecedência, uma crise financeira, artistas com redução de salários, dívidas antigas. Como lidar com isso?

Há questões que não se negocia, como a necessidade de processos claros. Se você vai gastar dinheiro com algo, esse dinheiro precisa seguir um fluxo específico, por isso já criamos um sistema financeiro, para entender o caminho desde a ideia até a sua realização. Não somos idiotas. Se algo está dificultando o trabalho, vamos mover montanhas para corrigir isso, mas dentro da lei. Somos transgressores, mas responsáveis. Eu estaria mentindo se dissesse que não há uma cultura arraigada que estamos tentando modificar, não a fórceps e, sim, lidando com a memória de quem já estava aqui. Mas nosso papel é trazer outra visão.

+++ Vencedor do edital do Teatro Municipal teve 'informação privilegiada', diz concorrente​

Em termos de conceito, o Odeon compreende o Municipal como um teatro de ópera? Como estabelecer um diálogo de fato entre a difusão artística e o trabalho pedagógico desenvolvido pelas escolas de música e bailado e pelas orquestras de formação?

É o que queremos responder com o planejamento estratégico. Se há dúvidas, é porque não houve clareza na concepção. E a ausência de planejamento deixa espaço para que se crie achismos sujeitos a gostos específicos. Olhando de fora, entendemos que a vocação primeira é a de um teatro de ópera, mas ele dialoga com outras vertentes da área cultural, tem o Balé da Cidade, por exemplo.

Queremos ter uma resposta a respeito da missão do teatro, sobre para que ele existe. Vamos experimentar o Municipal de novo em todas as suas possibilidades, entendendo que um espaço público é um espaço para todos. Nesse sentido, a educação faz parte do nosso DNA e nos interessa aprofundar de modo racional e qualitativo a relação com as escolas.

+++ Gestão Doria corta salários de artistas do Teatro Municipal​

O teatro hoje tem um conselho artístico. Está descartada a ideia de um diretor artístico?

Descartada não está. Mas entendemos que precisamos maturar, descobrir a nossa missão antes. Estamos saltando etapas, montando uma programação 2018 sem ter o planejamento estratégico. É um momento de transição entre onde estávamos e para onde queremos ir e é preciso, nessa hora, ter muita responsabilidade. A programação está 90% fechada, teremos quatro óperas e mais todo o resto.

E há orçamento para tanto?

Nosso esforço maior é trazer dinheiro do mercado e, quando a imagem do teatro começar a mudar, isso vai acontecer. O prédio está bem cuidado, o público está aqui, há uma aura muito boa. Se somamos isso a um trabalho sério, com transparência, os aportes virão. Só com o dinheiro da prefeitura, é impossível. Temos uma folha de pagamento de quase 470 pessoas, 277 delas artistas, todas indispensáveis. E queremos trabalhar também parcerias com outros teatros. Essas redes são fundamentais.

+++ Prefeitura muda edital do Teatro Municipal por falta de concorrência​

Teatro foi vítima de corrupção

O Instituto Odeon foi escolhido no final de agosto para gerir o Teatro Municipal pelos próximos cinco anos (e com um orçamento de R$ 577 milhões) após a desclassificação do Instituto Casa da Ópera. A entidade substitui o Instituto Brasileiro de Gestão Cultural (IBGC), que chegou ao teatro em 2013 e tornou-se centro de um escândalo de corrupção que levou ao desvio de cerca de R$ 20 milhões do Municipal. No edital de contratação de nova OS, foi incluída pela prefeitura a cláusula que dá ao município o poder de indicar cargos como o de diretor artístico e regente titular, o que levantou dúvidas sobre a autonomia de gestão.

Relação com prefeitura deve ser de 'tensão saudável'

A relação entre a Secretaria Municipal de Cultura e a organização social responsável pela gestão do Teatro Municipal tem gerado discussões desde o início do ano. Apesar de defender a autonomia da OS, o secretário André Sturm nomeou cargos como o de regente titular e integra o conselho artístico.

Carlos Gradim defende a autonomia como fundamental, mas afirma que ela não significa ausência de diálogo. “Quando um governo começa a interferir de fato? Vivemos isso agora no Rio (o MAR anunciou o desejo de levar ao Rio a exposição Queermuseum, mas a prefeitura do Rio se opôs). Chega um momento em que o poder público exerce uma autoridade que ele de fato tem. Mas ele não pode tapar a minha boca. Eu fui ao Jornal Nacional, falei o que acreditava, que o espaço público de cultura pertence à sociedade e não ao governante. Se é público, é para todos, e não pode estar sujeito às crenças religiosas de um governante que começa a atuar como censor. No Municipal, tem havido diálogo. E se ele for uníssono, perde-se a tensão saudável.”

Questionado sobre se é possível mantê-la “saudável” com a presença do secretário no conselho artístico, Gradim afirma que tem havido “respeito”. “Temos lidado com isso bem. O conselho tem além de mim, da Tatiana Rubin, diretora executiva do teatro, e de André Sturm, o Ismael Ivo, diretor do Balé da Cidade, e Roberto Minczuk, regente da Orquestra Sinfônica Municipal, artistas que nos foram colocados como condição. E que bom, são duas pessoas com personalidade. É um namoro ainda, mas que vai dar casamento. Tanto que já temos a grade do ano que vem pronta. E mesmo o Sturm tem proposto ideais importantes, como a de ter um conceito. A relação está bacana e saudável.”

Ainda assim, essa configuração, independentemente deste caso específico e desses profissionais, não afasta o fantasma de ingerências políticas no processo artístico, abrindo a possibilidade de que pessoas não alinhadas ao projeto acabem integrando a instituição por determinação da prefeitura? “Eu sou, em última análise, o empregador deles. Não gosto de radicalismos, mas no limite eu tomo a decisão final sobre a contratação. No limite, é isso. Eu digo ‘que bom’ porque Ismael Ivo e Roberto Minczuk são duas pessoas muito comprometidas. O Odeon não fará algo em que não acredita. Mas a relação, cada um no seu quadrado, está se construindo bem.”

Gradim defende a ideia de extinção da Fundação Teatro Municipal, proposta por Sturm, com o contrato de gestão passando a ser firmado diretamente entre OS e secretaria. “Não sei como surgiu essa configuração atual, mas em um primeiro momento acho a fundação completamente dispensável. Os órgãos de controle estão no poder público e isso não vai mudar. Um modelo começa a fluir bem quando você tem uma política clara pública e uma OS que faz eco a ela, pactuando direitos e deveres. Se uma instituição cria um modelo e uma visão, nenhuma secretaria pode mudar isso.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.