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Novo filme de Polanski mostra animal que civilização reprime

Adaptação de peça de sucesso da Broadway, 'Carnage' (Carnificina) conta com Kate Winslet e Jodie Foster no elenco

A.O. SCOTT , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2011 | 03h07

Em termos de ação não acontece muito coisa em Carnage (Carnificina), adaptação ágil de Roman Polanski da peça de Yasmina Reza: as pessoas falam em voz alta; bebe-se uísque; a sobremesa de frutas foi consumida (atenção!) e vomitada. Alguns fatos um pouco mais dramáticos já ocorreram antes de a trama ter início.

Houve uma briga no playground entre dois meninos e um hamster foi tirado de um confortável apartamento e abandonado nas ruas do Brooklin.

Depois de passar algum tempo neste apartamento - aliás, um belo espaço, com vistas que valem milhões de dólares - e que, muito provavelmente, deve ter custado outros milhões - você pode chegar à conclusão de que o pobre animal na realidade foi libertado. Os quatro personagens da peça parecem, ao contrário, incapazes de escapar dali.

São dois casais, pais dos meninos, reunidos para decidir o que fazer quanto ao infeliz incidente envolvendo seus filhos. O casal Longstreet (Jodie Foster e John C. Reilly), cujo filho Zachary ficou ferido, é quem recepciona a outra dupla. Em diversos momentos os visitantes, os Cowans (Christoph Waltz e Kate Winslet) se preparam para sair, mas nem chegam ao elevador e retornam à sala dos Longstreets, como que compelidos pelo feitiço de uma bruxa.

O nome foi tirado de God of Carnage (O Deus da Carnificina), título da peça de Reza encenada na Broadway em 2009, vinda de Paris. Durante os 80 minutos da tensa discussão entre os casais a ideia que fica é de que, por trás daquele comportamento civilizado se oculta um impulso animal insaciável, um princípio de agressividade, sensação que fazemos força, em vão, para eliminar. À medida que os dois casais tentam agir de modo a chegar a uma solução madura e racional do conflito, essa força primitiva se exprime sob várias formas. E aquelas pessoas bonitas começam a ficar agressivas. O espectador, com os olhos se movendo furtivamente pelos cantos da sala junto com a câmera ágil de Polanski, prevê a violência e talvez espere que ela ocorra.

E há uma satisfação ao ver esta forma curiosa de jogo sangrento interpretada por profissionais. Todos os atores se conduzem habilmente, mas sem serem inteiramente convincentes. Como Penelope Longstreet, avatar bem-intencionada e inquieta da hipocrisia liberal, Jodie Foster está espantosamente veemente no papel, e as suas discussões com Alan Cowan, o cínico advogado interpretado por Waltz, são carregadas de veneno. Mas os personagens nunca vão além da caricatura. O sujeito petulante em seu terno e celular. A benfeitora pretensiosa com suas belas receitas e sua arte africana.

    

Junto com seus pares não tão memoráveis - não estou atacando Reilly ou Winslet, apenas apontando um ponto fraco no texto de Reza -, Alan e Penelope são representantes de um tipo social que deveria ser ao mesmo tempo global e local. Eles pertencem a uma classe média alta urbana, cosmopolita, que floresce no mundo desenvolvido. Mas a sátira exige um pouco mais de especificidade, e como o retrato de pais ansiosos, ciosos do seu status social, vivendo no claro-escuro da culpa e do falso moralismo, o filme deixa muito a desejar.

Conheço esse tipo de pessoa. Eu sou uma delas. E embora elas possam muito bem ser os pais de um Zachary ou de um Ethan, a irmã de um Zachary seria muito mais plausivelmente uma Sophia ou uma Emma do que uma Courtney (Courtney? O que é isto, Beverly Hills? Um reality-show? Ora!). Quanto aos casais Cowan ou Longstreet, estariam se chamando pelo primeiro nome desde o início, de modo que aquelas frases "pode me chamar de Penelope", ou "me chame de Alda" nunca surgissem. (Na França um convite para usar o "Tu" em vez do formal "Vous" poderia se inserir num encontro como este, mas não estamos na França). E alguém com as ideias políticas e preocupações multiculturais de Penelope Longstreet de modo nenhum se proclamaria, sem certa ironia, defensora dos "valores ocidentais".

Pode parecer pedante, mas Carnificina em parte tem a ver com o narcisismo das pequenas diferenças - as nuanças da posição social, dos gostos e comportamentos que assumem uma importância desproporcional em bairros fechados - e detalhes camuflados expõem uma debilidade maior do projeto. Como Arte de Yasmina Reza, esta peça consiste em uma ideia superficialmente provocativa lançada sobre uma quase provável situação que descamba para um nonsense articulado.

Não há nenhuma história de ternura ou tensão que envolva os casais. É impossível imaginar que algum deles tem vida além das paredes do apartamento. Pode ser parte da proposta, uma vez que Carnificina, pelo menos formalmente, é um estudo da claustrofobia. O confinamento é marca de Polanski. Não é a primeira vez que ele observa, com uma fascinação mórbida e maliciosa, o comportamento das pessoas em apartamentos - como Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo, Mia Farrow em O Bebê de Rosemary, Adrien Brody em O Pianista - e neste filme ele mais uma vez prova ser o mestre da provocação.

Mas ao enquadrar a peça de Reza dentro das dimensões planas da tela, o diretor a destrói. No teatro, a plateia e os atores ocupam o mesmo espaço, o que significa que os espectadores são cúmplices do ritual de flagelação que ocorre no palco. O espaço cênico já é um mundo em si.

Mas no filme de Polanski estamos continuamente conscientes do mundo além do apartamento dos Longstreets, visível através das janelas. E essa consciência faz com que seu comportamento e suas discussões nos pareçam irreais e triviais.

De qualquer modo, Carnificina não deveria ser na verdade um filme. Mas um jogo de salão. Meu colega Dwight Garner já propôs uma versão mais simples que consistiria de uma leitura da peça por quatro pessoas, que parece mais divertido do que assistir ao filme. Mas a ideia poderia ser ainda mais refinada, para se tornar um brutal amálgama de um jogo de Twister, de charadas e bridge.

Necessitaríamos de uma sobremesa fria de frutas, uma garrafa de um bom uísque, um celular, uma hostilidade reprimida e atitudes vagamente liberais. Vamos jogar! Eu serei o hamster! / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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