Novo filme de Jia Zhang-Ke explora a moda para falar da China

'Useless' é dividido em 3 partes e leva o espectador das fábricas na China até os desfiles de moda em Paris

Silvia Aloisi, da Reuters,

07 de setembro de 2003 | 13h46

O diretor chinês Jia Zhang-Ke, vencedor do Festival de Veneza no ano passado, está de volta com um documentário sobre a crescente indústria da moda na China e as mudanças sociais que ela reflete. Analisando o trabalho da jovem estilista chinesa Ma Ke, o diretor usa as roupas e como são produzidas para descrever o impacto que o tumultuado desenvolvimento econômico chinês está tendo sobre a população do país.É um tema familiar para Jia, que no ano passado recebeu o Leão de Ouro de melhor filme em Veneza por Em Busca da Vida (Still Life), sobre as vidas de pessoas comuns afetadas pela barragem gigante das Três Gargantas na China.Useless, que está sendo exibido fora da competição principal em Veneza, é dividido em três partes e leva o espectador desde as fábricas deprimentes de roupas em Guangzhou, no sul da China, até os glamurosos desfiles de moda em Paris. Em Guangzhou, parte de uma área que se tornou uma das maiores regiões manufatureiras do mundo, fileiras de operários trabalham dia e noite em máquinas de costura.Alguns dos vestidos que produzem são os criados por Ma Ke, mas a estilista também está procurando afastar-se da produção industrial e das roupas anônimas, para produzir vestidos mais únicos, feitos à mão.Jia a acompanhou a Paris, onde no início do ano a estilista apresentou a nova linha Useless, que dá nome ao filme - peças que Ma Ke cobre de sujeira para lhes conferir uma aparência natural e autêntica.De volta à China, o diretor mostra a expansão do consumo de massas, com jovens mulheres lotando lojas de estilistas ocidentais para comprar o máximo em termos de símbolos de status: uma bolsa da Louis Vuitton ou Prada.A terceira parte do documentário leva o diretor a sua província natal, Shanxi, onde os pequenos alfaiates estão fechando suas barracas e indo trabalhar nas minas, expulsos do mercado pela mão-de-obra barata empregada nas fábricas de roupas."Antes do filme eu não sabia nada sobre moda, mas através da moda pude compreender muitas coisas sobre meu país e sua sociedade," disse Jia à Reuters em entrevista após a exibição de Useless para a imprensa. Ele disse que quer que o filme mostre as contradições de seu país e a crescente disparidade entre ricos e pobres movida pelo boom econômico.O produtor do documentário disse que espera que Useless seja distribuído em pelo menos dez cidades chinesas. "Todos os anos são produzidos 300 filmes na China, mas menos de 20 chegam ao mercado," disse Jia. "Meu filme do ano passado chegou a 20 cidades. Foi um sucesso para mim."

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