Novo filme de Chabrol, no Eurochannel

Desconfiar sempre das aparências. É a lição número um do cinema de Claude Chabrol, que segue fiel a ela em seu novo filme. Obrigado pelo Chocolate estreou no fim do ano passado na França. É a atração desta segunda-feira do Eurochannel. Passa às 21h30 no canal europeu da TVA, que oferece ao público brasileiro a oportunidade rara de conferir a obra de um artista importantíssimo, mas que nem sempre tem a chance de chegar às salas do País, de tanto que elas são ocupadas pelo produto hollywoodiano. Agora mesmo, Pearl Harbor deve tomar de assalto cerca de 300 salas. Vai ocupar um quinto dos cinemas do Brasil. E para quê? Uma patriotada americana empurrada goela abaixo do público brasileiro, mesmo que, a rigor, Pearl Harbor seja mais impressionante (nas cenas de guerra, na história de amor) que a maioria da produção do gênero.Mas, enfim, o assunto é Chabrol, Obrigado pelo Chocolate. Obrigado por existir, Claude. É assim que ele gosta de ser chamado, estabelecendo uma espécie de intimidade com o interlocutor. Caude onversa pelo telefone, de Paris. Mas ele não está muito bem. Sente-se indisposto e, por isto, avisa que a entrevista terá de ser breve. Dez minutos com Chabrol são melhor que nada e, assim, o repórter trata de aproveitar, da melhor maneira possível, o tempo escasso. Obrigado pelo Chocolate é o 52.º filme do diretor, em pouco mais de 40 anos de carreira, iniciada com Nas Garras do Vício, em 1958. Mais uma vez, Chabrol lança seu olhar sobre a família burguesa. L´Oeil du Malin. O olho do perverso. Foi como Cahiers du Cinéma definiu o autor, na edição especial que lhe dedicou, por acasião do 50.º filme, Negócios à Parte, também com Isabelle Huppert.Também, porque Isabelle divide com Jacques Dutronc as honras de protagonista de Obrigado pelo Chocolate. É o sexto filme de Chabrol com Isabelle e começa quando Jeanne, uma aprendiz de pianista, vai parar na casa de um músico que pode ser seu pai. Ela é recebida de maneira calorosa pela dona da casa, que possui uma fábrica de chocolates. Chama-se Mika e é a personagem de Isabelle. A lista de personagens inclui, ainda, o filho. Forma-se um quarteto cheio de enigmas. A primeira mulher de André, o dono da casa, morreu em circunstâncias misteriosas. Aos poucos, o espectador percebe que, na melhor tradição chabroliana, há algo de podre escondido sob essa aparência de normalidade burguesa.Começa de maneira tão estranha que desconcerta. Os primeiros minutos produzem um sentimento de estranhamento e o espectador pode até pensar que Chabrol perdeu a mão. Tudo é falso, feio e não é isto que se espera de um cineasta da classe de Chabrol. Depois, ele muda o tom e inicia o filme, seu filme, propriamente dito. Por que esse começo tão desconcertante? O espectador brasileiro não tem a referência, mas Chabrol diz que quis iniciar seu filme como se fosse um episódio de uma série televisiva que faz sucesso na França, L´Inspecteur Derrick. E por que isso? "Porque a série é policial, o público está acostumado com ela e, desta maneira, o espectador fica mais ou menos preparado para o que virá."Preparado, pode ser, mas isso não elimina o elemento surpresa proporcionado pelas revelações que encerram o relato. Contado assim, você é capaz de esperar um policial clássico. Não é. Esse começo, o repórter observa, tem algo de Luis Buñuel. "Entendo", corta Chabrol, com a perspicácia de quem, antes de ser cineasta, foi crítico. "Compartilho com Buñuel a certeza de que a representação é a razão de ser da burguesia." Os burgueses, ele explica, vivem da ostentação, da aparência, portanto da representação. É o que ocorre nesta família. A incômoda falsidade do começo cede espaço a uma outra concepção cênica e Obrigado pelo Chocolate reata com a beleza dos grandes filmes de Chabrol nos anos 70.Sim, ele concorda que O Açougueiro e A Mulher Infiel são suas obras-primas, mas a confissão precisa ser arrancada dele. Não é por aquela bobagem que todos os diretores dizem: filmes são como filhos, como escolher entre eles? É porque Chabrol não é do tipo que se debruça sobre o passado. Ele está sempre mais interessado com o presente e o futuro. Se não fosse assim, não seria o mais prolífico autor de sua geração. Costuma ser comparado a Flaubert, a Balzac e a Simenon, escritores que admira e até já filmou (o primeiro e o terceiro). E gosta de usar o grotesco, a fantasia e a manipulação como elementos do jogo de máscaras por trás do qual se escondem seus personagens.Obrigado pelo Chocolate não termina sem que seja revelada a perversão patológica da personagem de Isabelle nem a culpabilidade passiva de Dutronc. São as novas representações do monstro chabroliano, esse personagem, do mal, que percorre a obra do autor. Do mal, sim, mas não um mal chapado, produto do maniqueísmo. A arte de Chabrol é feita de ambigüidades. Ele explica que foi essa lição, mais até do que a noção do espaço, que aprendeu com um de seus mestres, Fritz Lang. M, ele diz, "é a prova definitiva de que um personagem que seria o vilão típico em Hollywood pode ser, na verdade, um anti-herói trágico capaz de arrebatar a platéia." O grito de Peter Lorre na obra-prima de Lang até hoje o persegue. É um dos momentos supremos do desespero existencial e moral na tela.

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