Novo filme de Bruno Barreto retrata romance nos anos 50

Tarde em Copacabana. Numa ruazinha transversal à praia, quatro carros dos anos 50 enfileirados junto à calçada chamam a atenção para um prédio de fachada art déco. Quem passa saca o celular para fotografar os automóveis, todos muito bem conservados. Da janela, velhinhas observam o vaivém de técnicos, produtores e figurantes.

AE, Agência Estado

22 de agosto de 2012 | 10h22

O frisson aumenta quando Glória Pires sai de um dos dois trailers camarins estacionados logo adiante. Cabelos em coque, conjunto safári creme e lenço no pescoço, ela está vestida de Lota de Macedo Soares (1910-1967), protagonista, com a poeta norte-americana Elizabeth Bishop (1911-1979), do novo filme de Bruno Barreto, 95% falado em inglês, o idioma entre as duas.

O título atual é "Flores Raras", mas o diretor preferia "A Arte de Perder". Ambos são extraídos de poemas da escritora, que veio ao Brasil a turismo em 1951 para passar poucos dias e acabou vivendo por aqui 15 anos de amor - entre Rio, Petrópolis e Ouro Preto, que viraram locações do filme.

"As pessoas acham que ninguém vai querer ver um filme sobre perda. Espero que consiga convencer os distribuidores", conta Bruno, para quem "Flores Raras" remete a livros de botânica. "Acho que todo mundo lida com perdas. Essa é a questão central do filme, não estamos fazendo uma cinebiografia."

A ideia é fazer com que as fragilidades das duas personagens fiquem nítidas na tela. Quando se conhecem, em Nova York, Lota é a centrada, extrovertida, empreendedora, provedora, controladora. Mas a mulher que projetaria o Parque do Flamengo, obra fundamental na história urbana do Rio, acaba perdendo a saúde (tem uma arteriosclerose precoce), a sanidade e a vida (se mata em 1967, já sem seu amor).

Por outro lado, Elizabeth, alcoólatra, frágil, tímida, de trajetória errante pelo mundo e bagagem familiar pesada (perdeu o pai criança, a mãe foi internada num manicômio), ela, sim, uma suicida em potencial, sobrevive por conseguir lidar melhor com suas dores, na leitura do diretor. É no Brasil, com Lota, que ela vive pela primeira vez na vida uma certa estabilidade emocional e financeira.

"As duas eram de personalidade muito forte e complementar, e tinham uma vida reservada. Lota não usufruiu da celebrização que adquiriu com o Parque do Flamengo, porque, pelo fato de ser homossexual, queria ter a sua privacidade", avalia Glória, que se enterneceu pelo papel quando filmava "O Quatrilho" (1994), de Fábio Barreto, irmão de Bruno. Bastou ler "Flores Raras e Banalíssimas" (Rocco), de Carmen de Oliveira, sobre o casal.

A produtora Lucy Barreto, mãe dos dois, comprou os direitos sobre o livro em 1997. De lá para cá, foram muitas as dificuldades para se conseguir patrocínio. Bruno entrou no projeto em 2004, ao ver a poetisa ser interpretada por sua ex-mulher, Amy Irving, num teatro de Nova York. Era a peça "Um Porto para Elizabeth Bishop", de Marta Góes, sucesso no Brasil com Regina Braga. Ele quer estrear o filme no próximo festival de Berlim, em fevereiro de 2013. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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