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Novo espetáculo do Cena 11 tenta demonstrar que dança e coreografia não são sinônimos

'Carta de Amor ao Inimigo' anuncia nova bifurcação na rota do grupo

Helena Katz, Especial para o 'Estado'

23 de setembro de 2012 | 19h44

Desde o começo ligado com as outras artes e sempre movido pela inquietação que caracteriza os pesquisadores, o Cena 11 foi desenvolvendo, ao longo dos 20 anos que completa em 2013, um jeito próprio de fazer dança. Tendo dedicado bons anos desse percurso a investigar a relação de poder que se instaura onde menos de suspeita, o grupo foi ficando conhecido pelo tipo de queda que inventou, nessa sua busca de dilatar o que entende como risco.

Sediado em Florianópolis, o grupo foi fundado por Alejandro Ahmed, que assina todo o seu repertório, e surgiu como um diferencial, sacudindo a cena do início dos anos 1990, quando estreou sua primeira criação, Respostas sobre Dor (1994), juntando cultura pop e punk. De lá para cá, o Cena 11 jamais parou de arriscar, como cabe a um verdadeiro pesquisador. Em obras como In’perfeito (1997), Violência (2000), Skinnerbox (2005), Pequenas Frestas de Ficção sobre Realidade Insistente (2007) e Embodied Voodoo Game (2009), continuou a distender os limites no corpo, explorou a relação espacial palco-plateia, e fez das tensões produzidas incessantemente pela tecnologia uma espécie de rumor permanente. E esse “tudo” é também temperado por um trânsito transmidiático de história em quadrinhos, videogame, robótica, softwares para vigiar e controlar, etc.

Depois de expandir o conceito de espetáculo no Sim: Ações Integradas de Consentimento para Ocupação e Resistência, agora, na sua mais recente produção, Carta de Amor ao Inimigo, apresentada na semana passada, começa a fazer o mesmo com o assunto mais caro à dança: a coreografia.

As cartas de amor já tinham aparecido no seu repertório, na forma da Ação#01, em 2008, no intercâmbio com a Impure Company (leia-se Hooman Shariff), do qual resultou o Sim. Mas agora, as cartas de amor são outras, vão para o inimigo - esse outro sujeito com o qual se precisa descobrir como lidar. A hipótese do Cena 11 parece ser a de que se faz necessário especializar a prontidão da percepção. Que ela, se bem aguçada, permitirá a nossa sobrevivência.

A habilidade da prontidão é central, nos dizem esta Carta de Amor ao Inimigo. Elas nos revelam que a posição na qual se está é sempre provisória e escapa ao nosso controle, pois depende do que lhe é externo, daquele outro que vai nela interferir. Vai ficando claro que o estar junto é um processo construído no tempo e no espaço, e povoado por interferência sobre as quais não se consegue ter controle. Mesmo quando elas estão previstas, o modo como acontecerão não está, e isso transforma tudo.

Coreografia e dança continuam sendo tratadas como sinônimos, apesar dos vários autores que explicam quais as consequências de se continuar a repetir essa falsa associação (Lepecki, 2006; Poillaude, 2011; etc.). O Cena 11 adentra nessa discussão com Carta de Amor ao Inimigo, sua ocasião de testar se é possível ter prontidão sem responder com o que o corpo já treinou (as frases coreográficas). Ao mesmo tempo, não se trata de improvisação, pois, aqui, o que conta é o curto vínculo entre quem interfere no movimento do outro, e aquele que tem o movimento interferido.

Entre luta e jogo, situação que já vinha sendo testada pelo grupo (Embodied Voodoo Game, 2009), entre coreografia e improvisação, entre obra e acontecimento, Carta de Amor ao Inimigo anuncia uma nova bifurcação na rota do Cena 11. Sendo a dança uma arte que só existe enquanto está sendo feita, o Cena 11 indica estar interessado em testar se o que está sendo feito pode não ser o que se chama de coreografia nem de improvisação. Mas, para levar adiante uma proposta desse nível de dificuldade, só mesmo contando com Adilso Machado, Aline Blasius, Anderson do Carmo, Jussara Belchior, Karin Serafin, Marcos Khann e Mariana Romagnanim no elenco.

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