Novo desafio de Karabtchevsky

Maestro estreia amanhã como diretor artístico do Municipal do Rio e defende diálogo da ópera com a vida cultural

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2013 | 02h13

O maestro Isaac Karabtchevsky faz amanhã sua estreia como diretor artístico do Teatro Municipal do Rio. Escolheu para a ocasião a ópera Aida, de Verdi - em uma montagem, acredita, capaz de mostrar aquilo que lhe parece fundamental neste momento. "A função de um diretor artístico é, antes de mais nada, mostrar que a ópera é uma forma de arte viva, que pode dialogar com a cultura de uma maneira ampla e dinâmica", diz. Neste caminho, há desafios - e não são poucos. O maestro defende, por exemplo, a realização de concursos para completar os quadros artísticos do teatro; e uma nova política de investimento, não pautada pelo acaso. "A angústia, neste momento, é pensar que dois anos não serão suficientes", confessa.

O conto da ida de Karabtchevsky para a direção do Municipal carioca não deixa de ser uma narrativa de retorno à casa - se como casa entendermos o repertório operístico. O gênero sempre foi um dos pilares da carreira do maestro. Foi regente convidado de casas de óperas na Áustria, Alemanha, Estados Unidos; de 1995 a 2001, dirigiu o Teatro La Fenice, de Veneza. No Brasil, porém, desde que deixou a direção do Municipal de São Paulo, no começo dos anos 2000, seus postos estiveram ligados sempre à música de concerto - Sinfônica de Porto Alegre (2003 a 2010), Petrobrás Sinfônica (desde 2003) e Sinfônica de Heliópolis (desde 2011). "Para mim, aos 78 anos, foi um presente o convite para dirigir o Municipal e tentar colocar em prática aqui projetos que desenvolvi tanto em Veneza como em São Paulo", diz.

Nos dois teatros, a gestão de Karabtchevsky foi pautada pela diversificação do repertório, em especial com uma abertura em direção à produção do século 20. Em São Paulo, porém, o desenvolvimento artístico conviveu com a sombra do caos administrativo - e as limitações que ele impõe àquilo que é feito sobre o palco. "O formato ideal para um teatro de ópera é aquele que te permite trabalhar com antecedência. Os melhores cantores, os músicos convidados, você só consegue trazê-los se puder programar as óperas com tempo e calma. Se você não consegue fazer isso, então cai de volta ao improviso que acomete a ópera na América Latina, com raríssimas exceções."

Se a fórmula é conhecida, por que então é complicado colocá-la em prática? "Um dos entraves é estar dentro de uma antiga tradição no que diz respeito ao repasse de verbas de órgãos públicos. Para programar com antecedência, é preciso saber com quanto dinheiro você vai poder contar, esse não pode ser um processo aleatório, o repasse de verbas não pode ser casualista, não pode ser fruto do acaso." Karabtchevsky acredita que há um interesse real de mudança nesse sentido e cita a aprovação, por parte do governo (no Rio, o Municipal é mantido pelo Estado e não pela prefeitura), dos concursos que vão preencher as vagas em aberto da orquestra, antiga reivindicação dos artistas que hoje compõem os quadros do teatro. "O objetivo em torno do qual estamos todos trabalhando é criar uma estrutura de conteúdo cultural, quer dizer, que nos dê as condições para dar relevância ao que o teatro está produzindo, que nos permita ousar. A montagem de uma ópera é um processo criativo, que envolve diferentes artistas e áreas. Uma casa de ópera não é um universo isolado, ele pode e deve refletir as contradições de uma sociedade."

Minimalista. A escolha de Aida para abrir a temporada, ele explica, se relaciona com esse objetivo. "Este é um ano de comemorações importantes, temos os bicentenários de Verdi e Wagner, o centenário de Benjamin Britten. E um teatro como o Municipal não pode abrir mão de dialogar com esses autores neste momento. Mas, como fazê-lo? Já vimos muitas montagens extravagantes de Aida, mas com elencos sofríveis. Aqui, invertemos a lógica. Fomos atrás de cantores que pudessem fazer jus à partitura e demos muita sorte, porque encontramos grandes nomes, como a soprano Fiorenza Cedolins, disponíveis, mesmo fazendo convites assim em cima da hora. E, na hora de pensar o caráter da montagem, optei por outro caminho. Uma Aida mais conceitual e menos barroca, que aposta na poesia e não na opulência. Daí o convite para Hélio Eichbauer, com quem trabalhei em São Paulo no início dos anos 80, quando fiz o Wozzeck, de Alban Berg."

A temporada deste ano, montada em dois meses, terá também A Valquíria, de Wagner, montagem estreada em 2011 no Municipal de São Paulo. "Temos que valorizar produções que foram bem-sucedidas em outros palcos. Já conversei com o Neschling (diretor do Municipal paulista) e estamos de total acordo sobre isso." No segundo semestre, estão previstas récitas de Billy Budd, de Britten, (produção do Teatro Municipal de Santiago) e a dobradinha Erwartung, de Schoenberg, e Suor Angelica, de Puccini, "dois olhares sobre o universo feminino". "Faltam apenas algumas confirmações de elenco para podermos anunciar."

O maestro também já faz planos para 2014. Quer encenar Wozzeck e comemorar os 150 anos de Richard Strauss com Capriccio. "Programar um palco como o Municipal é um desafio. É preciso saber dialogar com a tradição, recuperando os grandes títulos e apresentando montagens de alto nível para eles. Mas é possível fazer isso com ousadia, apostando em novas leituras. Da mesma forma, é fundamental trazer para a programação títulos novos, que sejam instigantes tanto para o público quanto para os artistas da casa, que precisam ser desafiados. Não podemos nos acomodar com o que a indústria cultural nos pede. Isso seria um erro."

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