Novo conceito de triângulo

O cineasta alemão Tom Tykwer demonstra mais uma vez que sabe como intrigar o público

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2011 | 03h08

Logo no começo de 3, o novo longa de Tom Tykwer, um dos protagonistas masculinos recebe o diagnóstico de que tem câncer nos testículos e extirpa um. Sua mãe é paciente terminal, sofre de câncer no pâncreas. Ela se mata tomando 39 comprimidos de Valium no terceiro dia, do nono mês e exatamente aos 3 minutos após as 9 horas. Não é mera coincidência. A numerologia é importante para a supersticiosa mãe de Simon e ela vai aparecer - como um anjo - para o filho. A morte também participa dos encontros e desencontros de 3.

Muitos filmes têm abordado a morte neste fim de ano, ou ainda vão abordar, no começo de 2012. Compramos Um Zoológico, de Cameron Crowe; Os Sobreviventes, de Alexander Payne. Mas a morte não é uma personagem mais importante do que o acaso em 3 - Tom Tykwer, a propósito, ama o cinema de Krzysztof Kieslowski e chegou a fazer Heaven, Paraíso, baseado no roteiro do grande diretor polonês. É interessante assinalar que houve, há pouco, Os 3, de Nando Olival, também sobre um triângulo amoroso. O filme de Tykwer, para diferençar, chama-se Triângulo Amoroso no Brasil.

Dois homens e uma mulher - bem antes de Os 3 houve Jules e Jim, Uma Mulher para Dois, e o cult de François Truffaut criou o paradigma para se falar de triângulos num sentido tradicional. Estamos falando de comportamentos, mesmo quando os personagens são subversivos. O caso de 3, Triângulo Amoroso, é diferente. O casal vive junto há 20 anos. Marido e mulher atravessam, por assim dizer, uma fase de marasmo. Ela arranja um amante, ele arranja um amante e o cara que ambos dividem é o mesmo.

O cinema francês já ensaiou contar uma história parecida - em Nettoyage à Sec, de Anne Fontaine, que aqui se chamou, literalmente, Lavagem a Seco. O casal tem uma lavanderia, esse jovem vem trabalhar e mantém relação com os dois, mas o formato é muito mais próximo do Teorema de Pier Paolo Pasolini do que daquilo que Tykwer propõe, ou apresenta. Triângulo Amoroso é especial porque se passa num meio artístico e científico. O marido é engenheiro e trabalha com arte, a mulher dá assistência a crianças e o amante de ambos - não essa história de ir todo o mundo para a cama na mesma hora - é um pesquisador científico. Nesse meio artístico habitado pelos personagens de Tom Tykwer, referências como Herman Hesse, Bob Wilson, Jeff Koons e Spinoza são perfeitamente naturais. O homossexualismo ou, vá lá que seja, o bissexualismo também é natural, mas isso não impede o estranhamento da cena no corredor, quando a mulher fica no meio e olha para o marido e o amante, cada um numa extremidade. É como se naquele momento caísse a ficha para cada vértice do triângulo. Quem são aquelas pessoas? Quem somos nós, eles se interrogam?

Cinema conceitual. O alemão Tykwer deve sua popularidade no circuito de arte a Corra Lola, Corra, filme conceitual (de 1998) sobre mulher que precisa arranjar dinheiro em apenas 20 minutos para salvar o namorado ameaçado por traficantes. Mais que a história, propriamente dita, a forma de narrar torna-se a própria razão de ser, com três possibilidades de desenvolvimento da trama. Depois disso, o diretor fez A Princesa e o Guerreiro, Paraíso - e os dois filmes são como versões opostas da mesma história -, Perfume, Trama Internacional e agora Triângulo Amoroso.

De novo, o estilo visual é sofisticado. As primeiras cenas usam telas múltiplas e Tykwer divide a imagem para ir apresentando seus personagens simultaneamente. O som não é menos importante e o diretor usa um hit de David Bowie, Space Oddity, em que um astronauta se perde no espaço por uma falha técnica em sua nave. Um dos versos da música fala do 'tin car far above the moon' e essa vertigem inebriante muito acima da Lua poderia ser a euforia que o amante desperta em cada integrante do casal, embora talvez seja mais o bebê - a protagonista, Hanna, engravida sem saber exatamente de quem.

Digamos que é bom viajar nas imagens e sons de Triângulo Amoroso. O filme é bonito, os atores são ótimos. Mas a sensação é de superficialidade e, posto que se trata de outro filme conceitual de Tom Tykwer, pode ser que você esbarre justamente no conceito. Ele olha seus personagens como se a lente da câmera fosse um microscópio, mas filosófica e até sociologicamente falando, não é muito fácil aceitar a ideia do diretor - autor - de que seu trio se assemelha às células que compõem o tecido humano (o tecido social, também). As células se dividem, reproduzem, potencializam - e morrem.

Essa metáfora já aparece de alguma forma na tela múltipla do começo, mas é bom não tirar a surpresa do desfecho, que vem embalado em mais música - Debussy. Mesmo na eventualidade de que o espectador venha a considerar Triângulo Amoroso insatisfatório, terá valido a pena se debruçar sobre esses personagens, esse meio humano e social. Tom Tykwer ama ousar - nos temas, na forma. Seu cinema busca uma transparência impossível. O mundo econômico de Trama Internacional é todo de vidro e, apesar disso, tudo se faz às ocultas. É o retrato do mundo atual, em que a transparência só vale para os inimigos. Conceitos, metáforas, nunca é perda de tempo ver o que Tom Tykwer tem para dizer.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.