Novas rimas entre o patético e o poético

Em O Anão e a Ninfeta, Dalton Trevisan retoma a obsessão pelo grotesco em um recorte igualmente seco e lírico

Alcides Villaça, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2011 | 00h00

Mais do mesmo, no caso de Dalton Trevisan, quase sempre é mesmo um pouco mais: a expressão perde o pejorativo para traduzir a obsessão que tem o autor por certos temas e suas incontáveis variações. Situações e personagens semelhantes não param de incorporar novos detalhes do grotesco, do patético e do poético que está em suas vidas, detalhes combinados dos muitos ângulos das frases que só Dalton faz possíveis. Por sorte não tenho que comentar seus 40 e tantos livros de contos: as categorias críticas acabariam logo, e as situações ficcionais continuariam multiplicando-se em vivos detalhes. Mas a tarefa de comentar o recém-publicado O Anão e a Ninfeta leva-me a considerar quanto do "mesmo" se tornou "um pouco mais".

Em busca de alguma crítica já publicada de O Anão e a Ninfeta (só curiosidade, entendem?), livro que acabara de ler e de gostar, digitei o título e não encontrei nenhuma; o que achei foram endereços de sites pornográficos. Imagino que alguns remeteriam ao universo de Dalton, sem ousar constituí-lo, é claro: faltariam sempre a economia e as pontadas do estilo, o humor sofrido, o poder da elipse administrada e o da compaixão se fingindo de falsa. Faltaria a obsessão daquele silêncio que faz o fundo da linguagem do autor, a suprimir a costura usual de uma palavra em outra, de uma frase em outra - ou mesmo de uma paixão em outra. É difícil traduzir o namoro irônico que esse escritor trava com a retórica: ele finge assumi-la com dignidade no patamar mais baixo dos lugares-comuns, mas também parece fingir execrá-la, sendo ambos os fingimentos verdadeiros, como literatura que sublinha as verdades incríveis que a vida faz cotidianas. Desde moço Dalton viu em sua cidade o irredutível realismo de uma ficção já pronta para ser inventada: seus tipos mais carnais e dolorosos passeavam invisíveis pelas ruas, estrelando mil histórias anônimas, entre dramas, farsas e tragédias.

Os contos de O Anão e a Ninfeta processam, uma vez mais, o grotesco, o patético e o poético. Nos filmes de Fellini, os efeitos desse conjunto resultam da profusão de grossos pincéis coloridos transbordando da tela com humor e magia; nos contos de Dalton, é um fino estilete que trabalha em preto e branco, recortando a fórmula específica de cada dor ou prazer. "Ah, se ele pudesse... ah, se elas deixassem umas poucas palavrinhas (de três sílabas), porcas ou não, sopradas ao ouvido na hora certa", diz o narrador do anão e de ninfetas, no conto-título, publicado, com o nome de O Herói Nanico e algumas pequenas alterações, no Estado, em 2009.

Já no belo O Velho Poeta, dos momentos fortes do livro, uma espécie de ambígua mistura entre contrafação e alter ego do autor se encarna num veteraníssimo escritor, contra quem o público se volta, num conveniente estilo: "- Por que não descansa a pena vetusta?" Pois o narrador e a anacrônica personagem ilustre, se não partilham idêntico estilo, repartem já uma nova e ingrata Curitiba, "uma aldeia estrangeira", que já não conseguem reconhecer: "Me sinto mais perto da barata de K do que dos novos poetinhas de Curitiba." Pois há uma repetição impossível até mesmo para o aguerrido Dalton: a cidade não volta no tempo. E haver "novos poetinhas" curitibanos soa como uma contradição em termos nos ouvidos do fiel vampiro.

Ouve-se o tempo mortal, suas passadas cada vez mais graves, seu tom cada vez mais fundo: será este um aspecto muito marcado, em chave algo original, deste novo livro. Em Naná (poema narrativo), como num tríptico de contos aparentemente avulsos (O Colecionador, A Caixeira e Rute, Meu Bem), em A Ninfeta e a Matrona, ou ainda no pesado e edipiano O Caniço Barbudo, o protagonista são as marcas duras do tempo, espelhando a criatura entre os extremos do ontem e do nunca mais, fazendo-a sofrer a consciência da passagem de um polo a outro. Também a morte, é claro, tem forte presença, nem sempre penosa humilhação ou crime hediondo: surge para ser enfrentada pela poesia impossível, poesia que ajuda a fechar os olhos de um morto desde sempre apaixonado: "E sei que morreu pensando em mim". Ou para ser arrastada pela dupla de viúvos que sobrevivem à falta da amada: o companheiro e o cão, atarantados, vagando parceiros pelos vazios da casa fantasmagórica, nessa obra-prima de poesia e delicadeza que é o conto O Rosto Perdido. As sádicas estiletadas, frequentes no Dalton que as acusa na vida, não o deixam despreparado para contornar o sentimental e alcançar seu vizinho, o poético.

Anota o narrador sobre o velhinho acadêmico: "Triste ser um mestre do decassílabo, o virtuoso da rima rica, o derradeiro da espécie. Como porém não lhe admirar a coragem? Na sua idade, solitário pelas ruas - achará na volta o caminho de casa?" Dalton Trevisan, numa irreconhecível Curitiba, continua mestre em sua casa, na teimosa economia de sua arte. A palavra mínima segue recortando o esboço trágico dos gozos mortais e das dores vivas das criaturas para as quais trabalha.

ALCIDES VILLAÇA É PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

O ANÃO E A NINFETA

Autor: Dalton Trevisan

Editora: Record

(160 págs., R$ 34,90)

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