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Novas Inquisições (II)

O feminismo corre o perigo de se perverter se optar por uma linha fanática e intransigente

Maria Vargas Llosa, O Estado de S. Paulo

18 de junho de 2019 | 02h00

Em sincronia com a abertura do 3.º Prêmio Bienal de Romance que leva meu nome em Guadalajara, México, no dia 27 de maio, circulou na Espanha e América Latina um manifesto assinado por mais de uma centena de escritores acusando-nos de “machistas” devido ao escasso número de escritoras convidadas a participar.

O texto falseava alguns números. Dizia que participariam dos painéis 13 homens e apenas 3 mulheres. Na verdade, as participantes foram sete, e seu desempenho excelente, a julgar pelos aplausos que mereceram dos 900 estudantes de quase todo o México convidados pela Feira do Livro de Guadalajara (à qual aproveito para agradecer pela boa organização do evento). O manifesto, ao mesmo tempo, silenciou sobre o fato de que oito escritoras que haviam sido convidadas não compareceram, apresentando justificativas diversas. Sua presença teria contribuído sem dúvida para tornar mais proporcional a presença feminina. Mas o mais extraordinário é que três das convidadas que não puderam comparecer assinaram o manifesto, que nos acusava de “discriminar” e “invisibilizar” (sic) as mulheres.

Gostaria de discutir o espírito que inspirou o documento, o qual, acredito, em lugar de apoiar a muito justificada defesa da mulher contra as limitações de que é vítima e contra a violência de gênero, prejudica essa batalha indispensável de nosso tempo, introduzindo nela um fanatismo sectário que se torna contraproducente para os fins que pretende alcançar.

Não se trata de uma guerra entre homens e mulheres na qual estas lutam por sua sobrevivência. Trata-se de corrigir uma injustiça secular e pôr fim a postergações e ultrajes de que continua sendo vítima metade da humanidade, por culpa da religião, dos preconceitos e de maus costumes ancestrais. Não é uma batalha das mulheres contra os homens, mas de todos os homens e mulheres conscientes e responsáveis contra as minorias (às vezes, maiorias) que a isso se opõem.

O objetivo é estabelecer de fato uma igualdade que não apenas reconheça a lei (como ocorre no mundo ocidental), mas que se reflita na vida cotidiana e no emprego, no qual existe ainda uma discriminação flagrante e raras vezes é respeitado o princípio do trabalho igual/ salário igual entre homens e mulheres.

Provavelmente é no campo intelectual que existe maior mobilização a favor desse combate à desigualdade. Não há dúvida de que a literatura contribuiu de maneira decisiva para denunciar essa injustiça e estimular ações para combatê-la. É por isso que um manifesto como o que estou comentando se torna nulo, desorientado e absurdo com sua proposta de igualdade paritária e aritmética para restaurar no campo das letras os direitos da mulher. A se acreditar no manifesto, bastaria que houvesse idêntica representação numérica em todas as conferências literárias para que se alcançasse a igualdade.

Haja besteira! O único critério aceitável nesse campo é o da qualidade, não da quantidade. Nada seria tão ofensivo e discriminatório com as mulheres do que serem convidadas para as conferências como enchimento ou para fazer número, a fim de completar um contingente numérico que fingiria respeitar a igualdade, mas a transformaria numa caricatura.

Em um oportuno comentário sobre o manifesto em questão, Alberto Olmos (em El Confidencial) refuta a suposta discriminação de mulheres no campo editorial, revelando que boa parte das diretorias literárias das melhores publicações espanholas não é de homens, mas de mulheres. E, no que posso julgar pelo que me concerne, a diretora de minha editora, Alfaguara, Pilar Reyes, faz um trabalho que não poderia ser melhorado. Dificilmente alguém me convenceria de que ela, em seu ofício, discrimina as escritoras. Provavelmente se poderia dizer o mesmo de todas suas colegas. Além de tudo, basta consultar as listas de livros mais vendidos para constatar que as mulheres costumam vender muito mais que seus colegas varões.

Não é esse o caminho se se trata de lutar contra a discriminação da mulher e a violência de gênero. Todos os dias ficamos sabendo do assassinato de mulheres pelos companheiros, de estupros coletivos de adolescentes por manadas de brutos idiotizados pelo álcool e drogas, ou que o desemprego e os baixos salários as prejudicam mais do que aos homens, e de mil manifestações mais de uma injustiça radical que clama por ser corrigida. Nada disso mudaria estabelecendo-se cotas paritárias nos certames literários ou artísticos. Na verdade, os desnaturalizaria, destruindo a coisa mais importante (a única coisa importante) que lhes dá sentido e razão de ser: a competência intelectual e estética.

Em seu último artigo em The New York Times, Martín Caparrós se pergunta, a propósito desse tema, se as vítimas de ontem não estariam se transformando nos carrascos de hoje. E conta o caso recente de um escritor que, num encontro literário na Costa Rica, teve de fugir sem fazer a conferência que estava programada porque um comando feminino o ameaçou com um escracho. Acusavam-no de “violência conjugal”, sem lhe dar oportunidade de explicar-se ou defender-se.

O texto de Martín Caparrós termina de uma maneira que vale recordar: “... as causas das mulheres ganharam um poder que nunca haviam tido. É uma alegria e um alívio para – quase – todos, e pode servir para mudar muitas coisas que precisam ser mudadas. Entre elas, para deixar para trás a lógica da massa. Buscar o post #MeToo, para que as decisões que devem ser pensadas e tomadas em consenso por muitos não sejam privilégio de poucos; para definir erros e delitos e decidir os castigos que merecem; para permitir a suas vítimas concretas e potenciais uma generosidade que a situação anterior não permitia. Para recuperar a lei da razão, a razão da lei, a tolerância; para não aplicar a lei do olho por olho, dente por dente; para mudar a sério certas coisas”.

O feminismo corre o perigo de se perverter se optar por uma linha fanática e intransigente da qual há, por desgraça, muitas manifestações recentes, como a de querer revisar a tradição cultural e literária, corrigindo-a de modo a que se adapte ao novo cânone, quer dizer, censurando-a. E substituindo a ânsia de justiça pelo ressentimento e a frustração.

No que me diz respeito, posso assegurar que enquanto a Bienal e o Prêmio de Romance que levam meu nome existirem, não haverá porcentuais aritméticos de homens e mulheres e o único critério com que os participantes continuarão sendo convidados será o da excelência literária.]] / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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