GNT/ Divulgação
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'Novas Famílias' estreia amanhã no GNT

Programa retrata novos hábitos e estruturas nos grupos familiares dos brasileiros

Roberta Pennafort - O Estado de S. Paulo,

01 de março de 2012 | 10h48

Os gêmeos Mia e Gael têm duas mães, Mariana e Paula, e foram amamentados graças a uma maratona de revezamento organizada por tabelas de Excel. O pequeno Patrick, de 8 anos, nasceu quando o pai, Fernando, já beirava os 60, e coleciona irmãs adultas, cunhados e sobrinhos.

 

 

A grande família de Cristiana e Flávio se formou quando ela chegou com os dois meninos do primeiro casamento e ele, com suas duas meninas. E ainda viria Antônio, ou Tom Tom, para aumentar ainda mais a bagunça.

 

É tudo igual, só muda o endereço. Mas essas histórias de afetos múltiplos e divididos, temperadas por disputas de território, ciúmes justificados e doses beatificantes de paciência mereceram o novo programa da grade do GNT Novas Famílias, que estreia nesta sexta-feira, 2.

 

Estudados pelo IBGE por serem cada vez mais comuns na sociedade brasileira (e mundial), os novos arranjos familiares são o foco do documentarista João Jardim, convocado para dar um toque de “poesia, com a profundidade que o tema merece”, conta a diretora-geral do GNT, Daniela Mignani.

 

O garoto adotado que tem dois pais, a mãe de quatro filhos de três pais diferentes, o marido que cuida do rebento para a mulher trabalhar em outra cidade, o ex-casal que tem guarda compartilhada da filha, que vai e vem dia sim, dia não... São tendências já estabelecidas, diz João - por sua vez, membro de um núcleo tradicional (é casado “há uns dez anos” com Carla Camurati, diretora do Teatro Municipal do Rio, mãe de seu filho Antônio).

 

A todo momento, entre a mesa de jantar, a festinha de aniversário e os jogos de videogame, ele acompanhou com a câmera o percurso dos afetos. “As pessoas são felizes, mas é lógico que aquelas famílias têm outras facetas. Todos posam um pouco no começo, para aparecer bem na televisão. Mas é só uma questão de paciência”, conta.

 

“Focamos mais no amor, senão vira Márcia Goldsmith. São famílias em que talvez seja preciso fazer um esforço maior para se chegar ao entendimento.”

 

Cara de cansado, porém inequivocamente satisfeito com o caminho escolhido, Flávio, que tem em casa idades entre 3 e 18, resume: “Aqui, cada um tem que abrir mão de suas vontades em prol do outro. Mas a vida é assim.”

 

 

Ar de cinema

 

Do superpremiado Janela da Alma a Lixo Extraordinário, que chegou ao Oscar, passando pelo programa da TV Globo Por Toda a Minha Vida, sobre grandes nomes da música brasileira, João Jardim não perdeu o tempo da delicadeza. Em cinco episódios de 30 minutos, Novas Famílias sucede a sua primeira ficção, Amor?, uma investigação da relação entre paixão e violência.

 

O programa não se pretende cor-de-rosa bebê. Tem choro de criança, clichê, implicâncias. Tem cenas comoventes, que passam despercebidas no dia a dia de quem as vive: depois da festa de um ano de Mia e Gael, a mãe Paula acaricia suavemente, quase sem se dar conta do gesto, o antebraço da mãe Mariana. O bem-humorado Fernando, de 66 anos, lembra que o filho não perdoa quando pensam que se trata de seu avô: “Ele é meu pai!!!!”

 

O pai Flávio diz com sinceridade que a cônjuges “com bagagem” não cabe só a conquista do parceiro, mas da prole - e o bom entrosamento entre os filhos pode ser determinante na decisão de se manter o relacionamento. “Foi muito estranho no começo, ninguém falava com ninguém”, conta um de seus enteados, pré-adolescente.

 

Precedidas de meses de pesquisa do tema e dos personagens, as filmagens foram no Rio e em São Paulo. A equipe ficou, em média, três dias em cada casa. Não há maquiagem nem luz de cinema.

 

Não há informações sobre sobrenomes, profissões, contas bancárias, idades. Não importa saber que Flávio é bem-sucedido e que a mãe de quatro filhos de três pais é a atriz Teresa Seiblitz - afinal, “família eh, família ah, almoça junta todo dia, nunca perde essa mania...” (a óbvia música dos Titãs é a da abertura).

 

Além de João, o GNT chamou outros dois nomes do cinema para incrementar sua programação: Joana Mariani, assistente de Heitor Dhalia em À Deriva e O Cheiro do Ralo, e Susanna Lira, dos documentários As Positivas, cujos personagens são mulheres com aids, e Nada Sobre Meu Pai, sobre a ausência paterna. Dele se deriva o programa Dia de Pais, que deve ir ao ar em agosto, mostrando pessoas que jamais experimentaram o vínculo paterno.

 

Ainda não foi filmado, assim como Marias, pensado para outubro. Será um retrato das diferentes Virgens Marias presentes no imaginário de brasileiros, mexicanos, cubanos, peruanos e nicaraguenses, e de mulheres que ganharam esse nome por conta da devoção dos pais.

 

“O fato de esses diretores caminharem na avenida do documentário faz com que eles tragam um olhar profundo, detalhista. A TV precisa disso”, diz a diretora-geral do GNT, Daniela Mignani. “No documentário, as coisas têm um tempo para acontecer; na TV, a tendência é à superficialidade ”, avalia João.

 

No caso de Novas Famílias, como ainda há quem estranhe pais gays ou casais com grande diferença de idade, o canal se cercou de cuidados, para evitar julgamentos. Até por isso a série não tem apresentador.

 

A presença de documentaristas rende bons momentos à TV. O maior deles, Eduardo Coutinho, passou nove anos no Globo Repórter, sempre rodando em 16 milímetros, e logo que se desligou, em 1984, retomou o antigo projeto de Cabra Marcado para Morrer, que viraria marco de sua cinematografia.

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