"Novas Diretrizes" sai em defesa da boa narrativa

Há um bom tempo a arte de vanguarda renunciou à pretensão de expressar a integridade da experiência humana. Desde o fim da 2.ª Grande Guerra, quando se tornou conhecida a extensão dos crimes contra a humanidade praticados nos campos de extermínio, a sombra de desesperança baixou sobre a literatura, e em especial sobre o teatro, sob a forma de situações de paralisia da ação dramática e do próprio diálogo. Aquilo era indizível.Não por acaso a peça que Bosco Brasil denominou de "fábula" estabelece uma analogia com esse período crítico para o pensamento ocidental. Os dois personagens que se encontram em um posto aduaneiro na peça Novas Diretrizes em Tempo de Paz são um funcionário da polícia política do Estado Novo e um refugiado polonês tentando obter a permanência no País. A analogia histórica é cândida e instrutiva.Nos estados policiais, os métodos de controle não se distinguem pela criatividade. Em escala menor, as mesmas violências foram cometidas de um e outro lado do Atlântico, pelo nazi-fascismo e pelo seu ambíguo espelho tupiniquim. Na posição de vítima e de carrasco, os dois homens são, no contexto da peça, representações recorrentes e universais da ultrapassagem de uma fronteira humanamente insuportável. Linguagem - Um deles foi torturador obediente como foram oficiais e soldados alemães. O outro sofreu as perdas. Perdeu o mestre querido, a família, os amigos, a profissão e o país. Não há mais lugar para ambos no tempo do pós-guerra. Ainda assim, diz-nos o autor, não há razão para depôr as armas da linguagem. Enquanto há vida, há narrativa.Bem a propósito, no limiar do século 21, o assunto da inutilidade do esforço humano diante do mal volta à tona. A peça de Bosco Brasil, ao que parece, é uma resposta imediata a acontecimentos recentes, embora sua formalização mencione explicitamente a época do Estado Novo.De qualquer forma não se trata de uma obra experimental, avançando no território da linguagem, mas um texto com alguma coisa a dizer, procurando o modo mais eficiente de dizê-la e, por essa razão, confiando em uma forma dramática legada pelo passado.A prova da utilidade da arte é dada, em certa medida, pela resistência dos seus instrumentos ao assalto da insânia destrutiva. Pelo menos nessa peça, os dois interlocutores se constituem, como nos bons dramas do século 19, através dos argumentos e das transformações que provocam um no outro. Para o torturador, que imagina ter-se tornado impermeável ao sofrimento alheio, o confronto guarda uma surpresa. E ao homem que acredita ter perdido tudo, ao artista que acha que a arte não poderá dar conta do terrível, o embate restitui um bem precioso soterrado nos escombros da guerra. Um oferece ao outro o motivo da transformação. Dessa forma, a restauração de um novo patamar de crença é, por si só, a prova dos noves da potência da comunicação artística. Pelo método direto, com a simples técnica de só aceitar dramaticamente a alteração provocada pela contra-argumentação, impõe-se uma idéia que não é exatamente nova, mas que merece ser relembrada. O Ágora é um teatrinho de bolso, onde não há folga para ao ocultamento de elementos cenográficos. O forte da casa é mesmo o trabalho dos intérpretes e a escolha de bons textos que possam sustentar-se sem o auxílio do aparato espetacular. É uma simplicidade que põe à prova os intérpretes e a concepção do espetáculo. Terror - Ariela Goldmann dirige a peça com um especial cuidado pela atmosfera melancólica que deve ser criada pelos intérpretes. Para os dois personagens, o terror é um fato do passado, experiência gravada na carne e na memória. São duas figuras lassas, com o registro vocal suave da lamúria. O espetáculo enfatiza, assim, a ressonância, a mágoa, o ritmo lento dos desistentes. Todo o trabalho é delicado, entrecortado por silêncios e o golpe teatral que altera qualitativamente a situação tem um crescendo suave para não quebrar bruscamente a verossimilhança. Dan Stulbach, como o imigrante polonês, e Jairo Mattos, no papel do policial, têm ambos uma definição corporal precisa dos papéis e um perfeito controle sobre as pequenas alterações dramáticas da narrativa. Nada parece demais ou de menos na concepção dos intérpretes, mas a clareza de algumas frases do personagem do policial é turvada pela postura encurvada de Jairo Mattos, talvez pelo cuidado de não deixar explícita a violência. Mas trata-se de um detalhe que diz respeito ao volume vocal da interpretação e não ao desenho. É teatro para quem gosta de presenciar uma história bem contada, por gente que tem o que dizer e cujo alvo é o coração do espectador.

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