Nova York exibe imagens do pop Andy Warhol

Para Andy Warhol (1928-1987), um dos pioneiros da pop arte nos anos 60, a câmera fotográfica servia tanto como um caderno de esboços quanto um diário, e a fotografia tornou-se parte inseparável do seu trabalho. Calcula-se que ele tenha deixado em seus arquivos entre 60 mil e 100 mil fotos. Centenas delas formam a exposição Andy Warhol: Photography, que o International Center of Photography (ICP), em Nova York, exibe até 18 de março.Andy Warhol: Photography é considerada a maior mostra já realizada para explorar a relação de Warhol com essa mídia. Reúne cerca de 300 imagens, entre as que ele usou para base de suas pinturas ? a maioria tiradas de jornais e revistas ?, retratos feitos por ele com máquinas Polaroid, exemplos de suas fotos literalmente costuradas e imagens de outros fotógrafos tendo ele como retratado. Além desse farto material, há pinturas, impressões e filmes criados pelo artista americano, demonstrando a ligação dessas obras com a fotografia.Na soma de todas, pode-se concluir que Warhol não era um gênio em nenhuma das técnicas que usou. Mas, como ninguém, ele conhecia a função, o contexto e o valor cultural de cada uma e, dessa forma, sabia como atrair o olhar do público. Mais que isso, o uso que ele deu à fotografia 40 anos atrás abriu muitos caminhos para a arte contemporânea atual, inclusive para a digital.Close-ups e morte ? A exposição, que é disposta por temas, começa com 13 fotos do próprio Warhol tiradas por outras pessoas em diferentes épocas. A primeira, datada por volta de 1940, é um retrato feito em photobooth (cabine fotográfica) do ainda Andrew Warhola, o menino filho de imigrantes checos que se tornaria Andy Warhol. Ao lado, uma cópia ampliada para publicação em revista foi alterada em 1971 pelo fotógrafo Robert Mapplethorpe, que a cobriu quase toda de spray azul.A única foto originalmente em cor nesse grupo tem o título Andy Warhol em Pose de Greta Garbo e foi produzida entre 1951 e 1954. Nela ? como numa das mais famosas da atriz à qual se refere ?, um jovem de olhar ao mesmo tempo irônico e tímido segura o rosto com as duas mãos e apoia-se num muro coberto de amores-perfeitos.Na seção seguinte, Warhol as Icon for the Camera, vê-se como, ao longo dos anos, ele ficou pronto para close-ups semelhantes aos das estrelas de Hollywood que admirava nas revistas, desde a infância: usando maquiagem para esconder a pele esburacada, reduzindo o nariz com cirurgia plástica, injetando colagem para esconder as rugas e escondendo a calvície com perucas louro-platinadas, sua marca mais conhecida. Em quatro auto-retratos com câmera Polaroid feitos entre 1981 e 1984, de torso nu ou vestindo camisa e gravata, ele usa perucas femininas e seu rosto maquiado lembra o de uma drag queen.No mesmo grupo encontra-se a foto publicada no jornal Daily News que mostra Warhol, semiconsciente, sendo colocado numa ambulância ferido a tiros, em 3 de junho de 1968, por Valerie Solanis (episódio que inspirou o filme Um Tiro para Andy Warhol, dirigido por Mary Harron). Pouco acima dessa cena, num retrato em preto-e-branco feito por Richard Avedon em 1969, depara-se apenas com o peito e o abdome de Warhol recortados por cicatrizes das cirurgias a que foi submetido depois do atentado.A partir de 1963, quando suas pinturas sobre temas da cultura popular começavam a ganhar fama, Warhol decidiu explorar também um assunto bem menos agradável, a morte. Transformou em telas monocromáticas fotos distribuídas por agências de notícias como a de um acidente de carro com cinco mortos, a do choque de duas ambulâncias com o corpo de uma pessoa dependurado na janela de um dos veículos, de jovens criminosos procurados pela polícia, e da cadeira elétrica usada para executar o casal Julius e Ethel Rosenberg, acusado de espionagem atômica em 1953.Na série Flash, produzida entre 1963 e 1968, ele relembra o assassinato do presidente John Kennedy em 11 impressões monocromáticas sobre tela, feitas a partir de fotos e textos publicados pela imprensa. A série Jackie, de 1964, faz parte dessa mesma temática. É composta por oito silk-screens com imagens de Jacqueline, a ex-primeira-dama americana. Mostra desde ela sorrindo para pessoas nas ruas de Dallas, antes do crime, até seu rosto coberto pelo véu de viúva no funeral. As fotos que Warhol usou para compor as séries são vistas em revistas, numa vitrine ao centro da galeria onde estão os quadros.Desde criança, Warhol colecionou fotografias feitas para publicidade de estrelas de cinema, principalmente de Marilyn Monroe, Greta Garbo e Elizabeth Taylor. Esse material serviu de base para muitos dos retratos de celebridades que ele produziu em silk-screen e lhe deram fama e muito dinheiro. Com aquele processo ? uma técnica comercial para impressão de imagens através de uma tela fina sobre papel ou tela de pintura ?, ele duplicava a imagem original de forma rápida, barata e precisa, em diferentes tamanhos e padrões cobertos por cores fortes. Reprodução/Silk-screen da série Jackie, de 1964, sobre o assassinato de Kennedy: expressões da ex-primeira-dama Jacqueline a partir de fotos publicadas na imprensa A série de dez retratos de Marilyn Monroe é vista ao lado de 42 fotografias dela pertencentes à coleção de Warhol. Ele começou a produzir a série assim que soube do suicídio da atriz, em agosto de 1962. Usou como base das reproduções uma foto de publicidade do filme Torrentes de Paixão, de 1953, dirigido por Henry Hathaway e no qual ela fez seu único papel antipático, o de uma mulher que planeja a morte do marido.Outra grande fonte de imagens para os silk-screens de Warhol foi a photomaton, cabine fotográfica automática para fazer instantâneos geralmente usados em documentos de identidade. Na década de 1960, ele costumava levar as pessoas que retrataria a alguma dessas máquinas espalhadas por Nova York. Deixava que elas, sozinhas, posassem diante da câmera. Holly Solomon, hoje dona de uma conhecida galeria de arte nova-iorquina, conta que, em 1966, quando ainda era uma estudante de teatro, foi com ele a uma dessas cabines e ficou horas improvisando expressões faciais. Cada tira de quatro poses custava 25 centavos e a sessão toda custou US$ 50.A foto que Warhol escolheu resultou na série Portrait of Holly, composta por nove imagens, exibida na seção Early Celebrities Portraits. O mesmo método foi usado, entre 1964 e 1965, para o esboço da capa que a revista Time encomendou a Warhol sobre uma reportagem especial a respeito de adolescentes e sob o título Today?s Teenagers. O próprio artista também se meteu dentro de photomatons ao lado de celebridades como John Lennon, Salvador Dalí e Liza Minelli.Temendo que o uso de imagens de outros fotógrafos acabasse em problema por direitos autorais, Warhol fez os últimos retratos encomendados por celebridades a partir de instantâneos em formato grande tirados com a câmera Polaroid SX-70 Big Shot. Numa seleção com pelo menos cem dessas fotos, encontram-se personagens tão diversos quanto os escritores William Burroughs e Truman Capote, os cantores Paul Anka e Diana Ross, os atores Arnold Schwarzenneger e Divine, o bailarino Nureyev, o ex-presidente Jimmy Carter, uma mulher anônima com seu cachorro idem e freqüentadores da discoteca Studio 54.Havia uma rotina para as sessões fotográficas dos retratos encomendados a Warhol ou para as capas da revista Interview, que ele fundou em 1969. Para ?quebrar o gelo?, começava-se com um almoço ou uma visita do retratado à Factory, o estúdio do artista com vista para a Union Square, em Manhattan. Depois, a pessoa era penteada e maquiada, com uma grossa camada de base branca para garantir o visual sem imperfeições. Warhol ou algum assistente clicava então com a Polaroid dezenas de poses, das quais apenas uma era escolhida para o retrato final. A seqüência da sessão com a atriz Jane Fonda exemplifica essa rotina na mostra.Objeto do desejo ? A homossexualidade sempre foi um fator importante na identidade artística de Warhol. Durante toda a sua carreira, ele fez muitos desenhos, fotos e filmes nos quais o homem é visto como objeto do desejo. No período entre 1970 e 1980, sempre que algum homem ? sem importar a idade ou tendência sexual ? visitava a Factory, Warhol pedia que ele tirasse as calças para fotografar sua genitália.Andy Warhol: Photography menciona esse período, mas expõe apenas fotos de alguns modelos masculinos nus do filme Thirteen Most Beautiful Boys, que Warhol fez em 1965. Entre elas há quatro fotos Polaroid do pintor negro Jean-Michel Basquiat (rosto, ombro esquerdo, perna direita e região pélvica coberta por tapa-sexo branco) tiradas em 1983. Ao lado, em tamanho natural, num silk-screen de fundo preto e imagem branca feito no ano seguinte, o Basquiat de Warhol lembra o Davi de Michelângelo.Além de fotos e pinturas, a exposição apresenta projeções em vídeo de alguns dos primeiros filmes de Andy Warhol ? Sleep (que documenta o sono de um homem durante seis horas) e Kiss (uma série de casais se beijando), ambos de 1963 ? e de seus Screen Tests silenciosos. Estes últimos, realizados entre 1963 e 1965, não eram feitos realmente como testes para filmes e sim com o objetivo de conseguir imagens com as margens negras e os buracos do celulóide para emoldurar retratos em silk-screen. O retratado era instruído a apenas olhar para a câmera, o mais imóvel possível, por três minutos ? o equivalente a cem pés de filme de 35 milímetros. Entre os que passaram por esses testes estavam o poeta beatnik Allen Ginsberg, os artistas pop Roy Lichtenstein, Claes Oldenburg e James Rosenquist, o ator Dennis Hopper, a escritora Susan Sontag e o roqueiro Lou Reed.Andy Warhol: Photography é acompanhada por um catálogo (Edition Stemmle, 1999) com o mesmo título e que, em 400 páginas, traz 110 fotos em cor, mais 300 ilustrações em preto-e-branco e oito ensaios sobre Warhol. A exposição foi preparada por Christoph Heinrich, curador de arte contemporânea do museu alemão Hamburg Kunsthalle, no qual estreou no ano passado. Em seguida, passou pelo Andy Warhol Museum, na cidade americana de Pittsburgh, onde o artista nasceu. A apresentação no ICP é a terceira e última dessa mostra especial.

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