Nova versão de "Cântico dos Cânticos" ganha mais poesia

É um livro em que amor e sexo estão juntos como em poucas criações da humanidade. Uma mulher canta a paixão por seu amado, e sua beleza também é louvada. Atribuído inicialmente ao rei Salomão, hoje acredita-se que ele foi escrito posteriormente. Mas o fato é que se trata de uma obra sagrada, tanto para os judeus quanto para os cristãos. E, mais que nunca, para os amantes da poesia (uma generalização normalmente piegas, mas que aqui pode ser usada com menor pudor). O Cântico dos Cânticos de Salomão ganha agora uma versão em português em que suas características poéticas estão em primeiro lugar. O autor do trabalho é o professor de língua e literatura grega da Universidade de São Paulo Antonio Medina Rodrigues, que verteu do grego o poema, normalmente lido na forma de prosa nas traduções da Bíblia disponíveis no mercado brasileiro."Essas traduções prosificadas visam sobretudo o conteúdo; a minha tradução dá cobertura à acentuação métrica e a figuras de linguagem, cuidando, na medida do possível, da dimensão poética do texto", explica Rodrigues. O que ele afirma pode ser assim ilustrado: tome-se um trecho do Cântico dos Cânticos em uma versão infeliz disponível na Internet - "A tua estatura é semelhante à palmeira/ e os teus seios são semelhantes aos cachos de uvas." Na versão de Rodrigues, há mais poesia e mais lógica: "Tua altura lembra a da palmeira,/ Onde os seios teus são cachos."Mas nem sempre foi possível chegar a soluções totalmente satisfatórias, segundo Rodrigues. Por isso, diz que sua tradução está disponível para os que queiram avançar a partir dela ou apenas corrigi-la. "Certos climas não permitem uma tradução; procurei, sim, não deixar nenhum verso de pé quebrado e manter uma suavidade na linguagem que não fosse a minha", conta. "Se o poema ficasse muito bonito, não ficaria bem; se ficasse feio, seria pior ainda." A fonte do Cântico dos Cânticos de Rodrigues não é a mesma das Bíblias religiosas. As versões correntes são traduzidas do hebraico, língua em que o poema foi originalmente registrado pela primeira vez. Como indica o crítico literário Nelson Ascher na introdução à obra, pouco se sabe de sua história: "Não sabemos quem escreveu esses poemas, nem quando. Não sabemos se eles são produto de alguma tradição popular e seguiram existindo por séculos antes de chegarem à primeira forma escrita ou se foram compostos diretamente em pergaminho ou papiro ou qualquer coisa semelhante. Tampouco sabemos se cumpriam alguma função específica", escreve. Sabe-se apenas que foram escritos entre os séculos 10 a.C. e 9 a.C. e que foram incorporados ao cânone das escrituras hebraicas por volta do século 1 d.C. "São várias vozes do mundo que cantam, justapostas, num mosaico harmônico, respeitando uma álgebra que não há na literatura moderna", afirma Rodrigues.O professor de grego, que já traduziu comédias de Aristófanes, não buscou o Cântico dos Cânticos hebraico por alguns motivos. O primeiro deles é que não domina a língua. Outro é que a idéia de fazer uma tradução da tradução lhe seduziu. A versão grega tem uma história particular. Foi realizada por volta no século 3 a.C., por um grupo de 70 (ou 72, não se tem certeza) rabinos, e daí o nome Septuaginta. Seu objetivo era dar acesso ao texto aos judeus que já não tinham como língua o hebraico. "Não se sabe exatamente o método de trabalho, se todos discutiam e definiam o texto em conjunto ou se um ou dois faziam a edição final", diz Rodrigues. O poema passou, de uma forma ou de outra, a integrar a tradição da literatura grega. O trabalho de Rodrigues levou cerca de dois anos e meio. A criação, explica, foi mais complicada do que imaginava inicialmente. "A lírica do Cântico é direta e simples, que inicialmente parecia facilitar o trabalho; no entanto, ela tem um pensamento exotérico que encerra um grande significado religioso", explica. Rodrigues afirma que corria dois riscos, se não tomasse cuidado: transformar a obra num poema erótico simplesmente ou, pior ainda, explicitar o seu segredo - "Dessacralizar o poema por preguiça", nas suas palavras. Mas não bastou seguir regras, foi preciso também usar a imaginação, pois, diz, "não há gramática que ensine a pinçar o sagrado". Para isso, disse ter buscado inspiração na moderna fala brasileira, porque, acredita, a linguagem acadêmica não seria suficiente. "As traduções de Haroldo de Campos de textos bíblicos de certa forma inspiraram meu trabalho, embora talvez eu não tenha o mesmo ponto de chegada, porque não busco uma linguagem que seja necessariamente nova", diz. Embora o interesse do Cântico dos Cânticos de Rodrigues seja sobretudo literário, uma vez que não provém da versão canônica, o autor acredita que ele será celebrado pelos religiosos. É o caso, por exemplo, do rabino Henry Sobel, que assina a orelha da edição. Mais importante que isso, no entanto, para o autor, é o caráter civilizador da obra, num mundo em que o culto ao físico praticamente restringiria a liberdade de o espírito participar do "momento amatório": "Hoje o amor é uma pura relação social, sem a metafísica que havia em Salomão."Cântico dos Cânticos de Salomão - Edição bilíngüe. Tradução: Antonio Medina Rodrigues. Labortexto (tel. 0--11 3664-7500), 90 págs. R$ 14.

Agencia Estado,

22 de dezembro de 2000 | 17h02

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