Nova roupagem do respeitável senhor

Depois de uma detalhada reforma, o Municipal do Rio resgata sua nobreza original

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2010 | 00h00

 

Para o público saudoso, a reabertura do Municipal hoje, depois de 18 meses de portas cerradas para obras, é um reencontro com um ícone do Rio. Para os bailarinos do teatro, que encenam até o dia 9 o espetáculo Carmen, com música de Bizet e coreografia de Roland Petit, na fase de testes que antecede a retomada definitiva do teatro de suas atividades, pisar no principal palco do Rio significa voltar para casa. "Está todo mundo com a emoção à flor da pele. É um momento muito especial", contou Hélio Bejani, diretor da companhia de balé, na segunda-feira, em meio aos ensaios.

 

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A arquiteta Regina Mattos também se comove com a renovação do Municipal, agora com telhado e sistemas hidráulico e elétrico em dia, além de pinturas limpas, vitrais recuperados e os ornamentos dourados muito mais dourados. Ela participou da última reforma, datada dos anos 80, como arquiteta da instituição. Hoje diretora do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, Regina acompanhou a obra que se encerra como fiscal (o teatro é tombado nos níveis federal, estadual e municipal, portanto tudo teve de ser vistoriado o tempo todo, a fim de que se respeite o projeto original, de 1909).

"Cada vez que entro é emocionante. Depois desse tempo todo fechado, ver o teatro com esse aspecto tão maravilhoso é incrível", diz Regina, paulista de Ribeirão Preto que veio para o Rio há 22 anos justamente para trabalhar no Municipal. Doutorada em restauro de monumentos históricos em Roma, ela coordenou a parte de restauração da obra anterior e afirma que nada do que foi feito então se compara às últimas intervenções.

"Naquela época a obra foi muito menor, a verba era outra. Limpamos os lustres, os mármores e a fachada e restauramos a sala de espetáculos, mas não se tinha noção dos problemas do telhado, por exemplo, e não havia as exigências de acessibilidade (para cadeirantes)". Dessa vez, os banheiros foram adaptados. Três novos foram construídos para atender à demanda do público, que vivia reclamando das filas nos intervalos dos concertos.

Absurdos. A falta de manutenção ao longo do século 20 provocou situações absurdas: o telhado de cobre era tão falho que a chuva caía direto em algumas pinturas. Cinquenta e sete mil quilos de cobre foram utilizados para substituir a cobertura antiga. Os canos de ferro dos banheiros estavam tão malconservados que os vasos sanitários entupiam facilmente. "Durante os espetáculos, funcionários da limpeza tinham que jogar baldes d"água para poder limpar os vasos", conta a diretora, Carla Camurati, que assumiu em 2007 e logo pediu socorro ao governo do Estado para dar início à recuperação do telhado.

Ela pretende fazer uma exposição com fotos anteriores à obra para deixar claras as melhorias. Na sala de concertos, as fileiras foram desalinhadas, para que a pessoa da frente não atrapalhe a visão de quem está atrás. O espaçamento entre uma e outra aumentou, de modo que é possível buscar a cadeira sem incomodar ninguém. Quem se detiver nas pinturas da sala, rotundas e foyers, verá que as cores usadas pelos artistas há um século, antes esmaecidas, estão vivas.

Na lateral do teatro que dá para a Rua Treze de Maio, a área degradada, que servia de mictório aos mal-educados, ganhará um jardim caprichado, concebido pelo artista plástico Jean Paul Ganem. É a primeira vez que o Municipal expande seus domínios, em 101 anos. Ali fica uma das saídas do restaurante Assyrio, localizado no subsolo do teatro, cuja restauração ainda está sendo finalizada.

Até o dia 26, o Municipal funcionará em esquema de soft opening, com ingressos mais baratos, já que a hora é de testar os novos sistemas. A grande festa de reabertura está marcada para o dia 27. A programação já anunciada para o ano todo inclui as óperas Il Trovatore, de Verdi, em maio, e Romeu e Julieta, de Charles Gounod, em setembro.

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