Nova peça de Domingos de Oliveira pode virar filme

Direto do palco para o set de filmagens. Foi assim com o filme Amores, do cineasta, ator e dramaturgo Domingos de Oliveira, que nasceu como peça de teatro e ficou um ano em cartaz, antes de ganhar as telas do cinema. Se tudo der certo, o mesmo vai ocorrer com Separações, peça escrita e dirigida por ele, em temporada no Teatro Planetário, no bairro da Gávea, no Rio, o mesmo que abrigou a temporada de Amores.A nova peça narra o processo de separação entre Cabral (Domingos), um diretor de teatro de 60 anos, e sua mulher Glorinha (Priscilla Rozenbaum), 30 anos mais jovem. Aparentemente, o pivô da separação é o arquiteto de 35 anos Diogo (Fábio Junqueira), um aspirante a escritor. Quem conhece a obra de Domingos, no teatro ou no cinema, sabe que suas melhores realizações têm um forte viés autobiográfico, como a peça No Fundo do Lago Escuro, encenada em São Paulo pelo Grupo Tapa, Todas As Mulheres do Mundo, filme protagonizado por Leila Diniz, ou mesmo Amores."Cabral é um boêmio, diretor de teatro com todas as dificuldades do personagem de Amores, muito parecido comigo", diz Domingos. "Na verdade sou eu", admite. "Mas é a peça em que mais usei a imaginação, porque eu e Priscilla nunca nos separamos, mesmo tendo vivido todo tipo de problema". Parceira na autoria de Amores, Priscilla não divide a criação do texto de Separações. "Ela foi uma grande colaboradora, uma vez que conversamos muito sobre o tema, imaginando como seria nossa separação, mas desta vez escrevi sozinho".Ricardo Kosovscki interpreta um jovem diretor teatral, o primeiro namorado de Glorinha. "Cabral diz que ele ainda não é um diretor: tem talento e pose só", comenta Domingos. "Mas admite que o rapaz vai acabar tornando-se um diretor porque tem bom coração e quem tem bom coração tem tudo".Talvez Cabral sinta ciúmes de Ricardo. Jovem e talentoso o rapaz tem duas namoradas: a esotérica Maribel (Nanda Rocha) e Júlia (Maria Ribeiro), filha de Cabral, uma menina impulsiva e radical, que defende a infidelidade e a poligamia. "O estopim da separação é uma namorada paulistana que surge na vida de Cabral - carioca faz besteira quando vai a São Paulo -, que não aparece em cena."Suzana Saldanha completa o elenco no papel de Laura, amiga e confidente de Cabral. "É uma mulher independente, que vive muito bem sozinha". Para construir a estrutura da peça, dividida em quatro atos, Domingos inspirou-se num estudo publicado em livro, sobre pacientes terminais. A partir de centenas de entrevistas, os médicos descobriram que todos passam pelas mesmas fases, desde a descoberta da doença até a morte: negação, negociação, revolta e aceitação."Isso não está acontecendo comigo, deve haver algum engano, o exame está errado" é o pensamento típico da primeira fase. "Na etapa seguinte - a negociação - vêm as promessas", observa Domingos. Todo casal conhece o equivalente na relação amorosa para frases do tipo: se eu ficar bom, nunca mais vou fumar ou beber ou prometo ser organizado e gentil com os vizinhos. Depois vem o pior. "É o momento da revolta contra si mesmo, contra tudo e todos". A fase seguinte é a da aceitação."Eu colocaria ainda uma quinta fase, o estado de graça, o momento da passagem". Cabral e Glorinha conseguem atingir esse estado? "Dizem que quando um casal se separa não volta mais, porque algo se quebra no amor", observa. "Eu não acredito nisso; conheço vários casais que voltaram, só que em um outro nível de relação". Segundo Domingos, quem nunca mais fala com o ex-companheiro depois da separação comete uma ofensa contra a natureza e acaba se dando mal. "Os que um dia se amarram, devem tornar-se amigos, porque senão a vida fica por demais trágica", argumenta.A generosidade para falar do afeto talvez seja uma das características mais fortes na obra de Domingos, que já mereceu a alcunha de Woody Allen brasileiro. Uma coisa ele certamente tem em comum com o cineasta americano: talento de frasista. "Um homem só é fiel patologicamente; os sadios são todos galinhas", diz uma personagem. "A verdadeira liberdade de um homem não é seguir seus instintos; é seguir suas escolhas", diz Cabral em outro momento."Essa é uma frase da maturidade", afirma Domingos. Esta última, parece reforçar a declaração jocosa que o cineasta deu à reportagem na ocasião do lançamento de "Amores" no Festival de Gramado: "Minha obra pode ser medíocre, mas tenho certeza de que minha filosofia de vida é genial". Domingos não nega seu desejo de repetir o caminho do palco para às telas com "Separações". E chega a utilizar o jargão cinematográfico para falar das diversas ambientações da peça: "Tem 26 locações diferentes"."É uma experiência única poder ensaiar um filme durante um ano, na presença do público", diz. "Mas não existe a menor possibilidade de eu fazer cinema se tiver de mandar currículo para banqueiro, estou fora", radicaliza. Ele afirma só ter filmado "Amores" porque sua amiga Eva Mariani bancou do próprio bolso a produção inicial, suficiente para "colocar o filme na lata". Filme rodado, ficou mais fácil conseguir o apoio do Bradesco para a finalização."O governo se exime de sua obrigação com uma lei de incentivo perversa e imoral, que transfere para a competência de empresários preocupados com lucros o investimento na arte", argumenta. "Ninguém vai colocar dinheiro no meu filme porque ele é bom; vai colocar se eu compactuar com aceitar dinheiro que passa por debaixo do pano, todo mundo sabe disso", afirma. Segundo ele, a lei não é boa porque tira a dignidade do artista, transforma-o num pedinte."Adoro fazer cinema, é uma coisa que faço com muita facilidade, mas o cinema é uma festa para a qual não fui convidado", diz. "Ainda assim, acho que "Separações" vai acabar virando filme, porque a peça pede isso, mas terei de conseguir formas alternativas de produção".

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