Alessandro Garofalo/Reuters
Alessandro Garofalo/Reuters

Nova ordem em Milão

Distante da mesmice das muitas mostras de NY, a temporada italiana questiona o mundo com elegância

LILIAN PACCE, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2013 | 02h13

MILÃO - A temporada toda em Milão gira em torno de uma nova elegância, de buscar uma nova forma de se vestir num mundo cheio de questionamentos e mudanças de paradigma. Não por acaso ela aconteceu na semana de eleições da Itália e época de renúncia do papa Bento XVI, tudo muito simbólico. E como sempre, cabe a Miuccia Prada a melhor síntese do que deve vir por aí, para o outono-inverno 2013/2014.

Na Prada a proposta é "elegância crua", segundo definição de Miuccia. Isso significa silhueta com ares dos anos 40 e 50, tecidos superexclusivos ou materiais raros como um leve crocodilo em casacos ou um valioso pekan. Mas aqui começam as (pequenas) transgressões porque, afinal, não há moda sem sexo na Prada. Os ombros ficam de fora, com a manga meio caída ou o decote meio torto, como se ela estivesse a um passo de tirar a roupa. As lãs vêm sem acabamento e o couro traz marcas de desgaste do tempo - viva a decadência, ou a tradição... O cabelo é impecável, mas molhado e maquiagem, quase borrada. Os saltos altos, com tiras de veludo, cetim ou couro metalizado, se contrapõem a uma grosseira sola de borracha. É esse mix sofisticado e safado ao mesmo tempo que dá tanta força pra coleção, que começa com delicados vichys em tons pastel pra chegar aos pretos bordados, acinturados, e de preferência, com uma tira de outro tecido quebrando a silhueta e a simetria.

Já a Dolce & Gabbana, como bem observou a editora de moda Suzy Menkes, trata de estilos distintos, como Igreja e Estado. Uma Igreja rica e opulenta com mosaicos bizantinos e motivos religiosos reproduzidos em estampas e bordados, muito ouro, mas também uma alfaiataria precisa, digna de um 'capo' da máfia siciliana (que é a origem da marca) ou da nova leva de políticos eleita esta semana. Com mais de 70 looks na passarela (isto é, o dobro do habitual) esta é uma das coleções mais fortes da marca, com final glamouroso de total looks em vermelho e muito brilho.

A Fendi também sinaliza frescor nesta coleção, mesmo que sua pièce de resistance sejam as roupas de pele. Karl Lagerfeld é o estilista à frente da marca e, é bom lembrar, foi ele quem criou a logomarca dos dois 'F' como referência a Fendi e Fur (pele). Num jogo de palavras, ele avisa que "fur is in the air" (sim, em vez de 'love is in the air') e trabalha as peles mais sofisticadas em roupas e acessórios com cores fluo em construções inovadoras e complexas, além de criar materiais tão perfeitos que confundem o olhar: "É o nosso feather-leather-fur", diz se referindo ao efeito de pluma-couro-pele, difícil de ser identificado. E conclui: "Moda é sobre ilusão". As bolsas, outro pilar da marca das irmãs Fendi, acompanham o espírito jovem da coleção, com bichinhos-monstrinhos de vison que devem virar objeto de desejo. Tudo isso com cabelo moicano e uma leve atitude punk.

Sim, o punk é assunto da moda este ano graças à exposição sobre o tema que será aberta em maio no Museu Metropolitan de NY. E foi o movimento punk que inspirou fortes coleções de Gianni Versace nos anos 90, como a que a atriz Elizabeth Hurley eternizou usando o longo preto vazado, preso apenas por dezenas de alfinetes. E é esta época que sua irmã Donatella, responsável pela marca desde sua morte, procura resgatar. Mas o impacto não vai além das peças justas de vinil preto, vermelho e amarelo com cara de sexy shop do Baixo Augusta, e acessórios de spikes e tachas. Felizmente os vestidos de noite bem construídos com insinuantes decotes  garantem a sensualidade que se espera da marca.

Já Roberto Cavalli surpreende com uma mulher recatada mesmo quando usa um vestido curto. Aqui, mais uma vez, o preciosismo mora na pesquisa e tratamento dos materiais, incluindo a técnica manual de pintura aplicada nas roupas e bolsas. Um interessante approach da marca que vai surpreender a sua cliente mais acostumada com roupas insinuantes e estampas de onças e outros bichos do que com suaves pinceladas. 

Pouco suave e muito severa é a Marni, que tem Consuelo Castiglioni à frente do estilo e agora faz parte do grupo Diesel, de Renzo Rosso. Aqui também os motivos geométricos clássicos da marca desaparecem para dar lugar a árvores secas, iguais às do fundo da passarela. Mas é no couro preto que ela passa seu recado de austeridade, guardando um segredo pra seu bel prazer: os forros são de delicado veludo de seda. 

Esta sofisticação contida é a proposta da Bottega Veneta. O estilista Tomas Maier também desafia o olhar com sua lã tratada de mil maneiras diferentes, ganhando aspecto de outros tecidos (como diz KL, tudo ilusão, um jogo de parece mas não é). Uma mulher classuda, talvez séria demais, com ares de diva de cinema, meio Rita Hayworth, e saias pelo joelho. 

Enfim, para um mercado em crise, os italianos mostram que buscaram com afinco a medida certa entre criatividade e necessidade, oferecendo peças luxuosas de forte apelo comercial e aspiracional, longe da mesmice da maioria dos desfiles apresentados em Nova York. Agora vamos a Paris!

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