Nova montagem de "Os Lusíadas" dispensa emoção

Pela terceira vez em sua carreira, a ex-atriz e empresária Ruth Escobar leva ao palco Os Lusíadas, poema épico de Luís Vaz de Camões (1524-1580) que desempenha na língua portuguesa o mesmo papel da Divina Comédia, de Dante Alighieri, na italiana. A primeira versão teatral do poema lusitano capitaneada por Ruth Escobar data de 1972. Adaptada por Carlos Queiroz Telles, batizada A Viagem, teve direção de Celso Nunes. A segunda, estreada no início deste ano, na Sala Estação das Artes, na Praça Júlio Prestes, levou a chancela de Iacov Hillel, que dirigiu texto assinado por José Rubens Siqueira. A terceira, em cartaz agora no mesmo espaço, foi teatralizada por Walderez Cardoso Gomes e dirigida por Márcio Aurélio.A adaptadora e o encenador dessa última produção escolheram uma linha narrativa, mais que dramática. Os feitos dos portugueses comandados por Vasco da Gama, cantados por Camões na tradição rapsódica iniciada por Homero na Ilíada e Odisséia, são apresentados aqui sob forma de mural. Na maior parte das cenas, o elenco ilustra, em vez de representar, as ações dos navegantes lusos.Estes Lusíadas não aprofundam episódios isolados do poema original. Sua meta é a abrangência. Ao longo de 80 minutos, Cardoso Gomes e Aurélio condensam o escrito camoniano. Claro que, para desagrado dos puristas, isso não se faz sem a adoção de inumeráveis cortes, elipses e atalhos. Mas a trama da peça ilustra com plena clareza o percurso da epopéia. Ao fim de Os Lusíadas, o espectador, mesmo que nunca tenha lido uma estrofe camoniana, sairá da sala com boa noção dos passos da obra e seu entrecho.A diretora de arte Daniela Thomas, responsável por cenários e figurinos, imprimiu em tudo limpeza, despojamento. O espaço, dividido em dois planos pintados de branco, lembra um tombadilho. Não são usados bancos, mesas, cadeiras ou outros acessórios. Talvez esta seja a primeira vez em que Os Lusíadas chegam à cena sem panos crus, pendentes do urdimento, figurando as velas das naus. Composto por cinco pranchas separadas, o tablado principal, durante a cena da tempestade, funciona com notável eficiência. Nos trajes dos marinheiros Daniela adotou a forma de escafandros de astronautas, estabelecendo ligação entre feitos portugueses da Renascença com a exploração do espaço. Aproximação simpática, mas discutível em tempos de redução do alcance e das verbas dos programas espaciais. Nos demais trajes, soube sintetizar com poucos elementos civilizações inteiras. Usando com habilidade essa moldura, Márcio Aurélio desenhou uma montagem ritualística, que remete às linhas do formalismo e retoma pesquisas datadas do início do século 20. Encenador requintado, Aurélio adotou nesta superprodução o rigoroso desenho de cena que emprega quando trabalha com espaços e trupes menores. Não há dúvida de que elaborou uma bela obra. A luz, também concebida pelo diretor, interage da mais eficiente forma com a cenografia de Daniela. A música composta por Magda Pucci contribui para a obtenção de climas com uma mistura inteligente de sons étnicos e contemporâneos.A beleza da montagem não se transforma, porém, em emoção. O diretor parece ter adotado, desde Pólvora e Poesia, de Alcides Nogueira, em meados deste ano, uma estética que evita o emocional. Busca narrar as histórias com frieza, despojamento distante. Em Pólvora e Poesia, o recurso privou o espetáculo de empatia com o espectador. O mesmo ocorre em Lusíadas. A encenação distancia a platéia. E talvez seja essa a intenção. Tal atitude propicia a reflexão, a observação crítica dos fatos narrados.O elenco é encabeçado por Eduardo Conde, que vive Vasco da Gama, o almirante da viagem às Índias e o Velho do Restelo, que não profetiza boas coisas para os portugueses que embarcam. A interpretação rígida de Conde impede o ator de estabelecer uma ponte com o espectador. Seu Vasco da Gama é uma figura estranha, hirta, pela qual não se sente temor ou respeito. Mais próximo de se comunicar com quem o vê fica o ótimo João Carlos Andreazza, que vive o Escrivão, porta-voz da palavra de Camões. O cast é completado por 30 atores que funcionam como performers e bailarinos. Executam coreografias, fazem movimentos de massa, formam imagens de grupo.A montagem insinua uma crítica ao colonialismo, mas não o condena explicitamente, já que é um dos esteios, parte da razão de ser da epopéia camoniana. Se a intenção do encenador era esfriar Os Lusíadas, tornar mais evidente o tempo que nos separa da era camoniana, atingiu com perfeição o escopo, ainda que isso dificulte a empatia com os personagens que vivem o drama das descobertas. Esse teatro, elaborado, requintado, racional, abre mão de instrumentos poderosos, próprios do palco, em nome da eficiência. Não resta dúvida, chega à meta. Mas, no processo, suprime a cumplicidade. Como se Márcio Aurélio dissesse à platéia que a era da diversão acabou e chegou a hora de se pensar a sério, pois não há mais tempo a perder. Isso, sem dúvida é verdadeiro. Justifica, porém, um teatro que abre mão de parte de seus instrumentos mais persuasivos?Os Lusíadas. De Camões. Adaptação Valderez Cardoso Gomes. Direção Márcio Aurélio. Duração: 90 minutos. De quarta a sexta, às 20h30; sábado, às 18 horas e 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 30,00 e R$ 40,00. Sala Estação das Artes. Praça Júlio Prestes, s/n.º, tel. 3361-2379. Até 23/12. Patrocínio: Petrobrás.

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