Nova montagem da peça 'Calabar' traz tortura e traição

Na voz de Elis Regina, ou do próprio Chico Buarque, Tatuagem parece mais uma daquelas canções arrebatadoras de amor e dor-de-cotovelo do compositor carioca. O que pouca gente sabe é que quero ficar no teu corpo feito tatuagem, que é pra te dar coragem pra seguir viagem, quando a noite vem... são versos originalmente criados para acompanhar uma cena de tortura e execução.Clássicos da MPB como Tatuagem, Bárbara, Tira as Mãos de Mim, Ana de Amsterdã, Fado Tropical e Não Existe Pecado ao Sul do Equador fazem parte de Calabar, peça de Chico Buarque e do cineasta Ruy Guerra, escrita em 1973, mas encenada apenas em 1980. Agora, 28 anos depois, ela é revisitada pelas mãos do diretor Heron Coelho, de 30 anos. ?Apesar de jovem, ser pop não é minha ?transa?. Sou retrô, sou antigo?, diz Coelho. Calabar, que estréia hoje, às 21 horas, no Espaço Décimo Andar da Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista, região central de São Paulo, conta a história do mameluco (filho de índio com branco) Domingos Fernandes Calabar, um aliado da Coroa Portuguesa na luta contra a invasão holandesa no nordeste brasileiro (1630), que, por motivos obscuros, mudou de lado e passou a defender os invasores. AtualidadeCoelho, que adaptou, cortou e reorganizou as cenas do texto original (por isso o título de seu espetáculo é Calabar - Breviário), afirma que a questão central do espetáculo é a forma como entendemos uma traição. ?Um traidor para uns pode ser um herói para outros?, diz. Para o diretor, Calabar também pode servir como metáfora para a situação política brasileira atual. ?O Brasil é um país deprimido. Acreditamos em três tipos de presidente, em três rótulos que não deram certo. A gente teve o mártir (Collor), o intelectual (Fernando Henrique Cardoso) e o messias (Lula). Nada funcionou.? Além das conotações políticas, Calabar também pode ser entendido como uma alegoria sobre o próprio teatro. ?Tem tudo a ver com as dificuldades de se viver de teatro em São Paulo?, completou.

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