"Nova História" fala de personagens e mitos do Brasil

A edição deste mês da Nova História traz um instigante artigo, País sem Nome, de Laura de Mello e Souza, em que a historiadora mostra as indefinições dos portugueses, que mantinham seus olhos fixos no Oriente, e não sabiam muito bem o quê fazer com o território que viria a ser o Brasil. A incertezas não diziam respeito apenas à finalidade destas terras, mas também ao nome. Por um breve período, a denominação escolhida por Pero Vaz de Caminha em suas cartas era a de Vera Cruz. No entanto, apareceram outros tantos nomes em mapas e documentos, tais como Terra dos Papagaios, Santa Cruz e Brasil, consagrado oficialmente em 1516. Por trás dessa polêmica, uma disputa entre humanistas religiosos e comerciantes que apostavam no expansionismo português. Anos mais tarde, um viajante francês registra, por meio de suas aquarelas, o cotidiano do Rio de Janeiro. O crítico de arte Rodrigo Naves demonstra como Jean-Baptiste Debret colocou em xeque a concepção gloriosa da História francesa do período ao retratar a vida dos escravos. Naves faz um contraponto entre o quadro O Juramento dos Horácios, de Jacques Louis David, no qual estão presentes os ideais neoclássicos - uma pintura histórica, guerreira, de formalização rigorosa e triunfante - fortemente influenciada pelos ideais da Revolução Francesa e as aquarelas de Debret. Ao chegar no Brasil, Debret se depara com uma realidade muito diferente da francesa e desenha a precariedade dessa nova vida, principalmente os hábitos dos escravos. As fugas dos escravos no fim do século 19, principalmente no Espírito Santo, são tema de Geraldo Antonio Soares. O autor mostra como o soldado Quintiliano Bento Rodrigues escapou da casa dos senhores, por conta dos maus tratos, e conseguiu entrar para a polícia. Na contramão, soldados se refugiavam em quilombos. Entre as razões, o recrutamento forçado, um soldo pífio, castigos físicos e assim por diante. A situação dos "médicos de mulheres" também era bem complicada no período. Não, não pelos maus tratos ou algo do gênero, mas pela dificuldade de examinar as mulheres. Um ginecologista não podia se aproximar do corpo feminino. A profissão de parteiro era uma novidade no século 19, até então só as parteiras podiam tocar nas mulheres: os médicos tiveram de enfrentar o pudor e a resistência da sociedade. A autora Rita de Cássia Marques mostra a evolução desse relacionamento e as mudanças comportamentais produzidas por ele.

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