Nova geração dos palcos busca linguagem única

Qual é a cara da nova dramaturgia paulista? Quais as suas características comuns? Quem são os autores da atual geração e o que eles pensam? Existe, de fato, uma nova dramaturgia? Essas são as indagações recorrentes àqueles que refletem sobre a produção teatral dos últimos tempos. Para responder a elas, ninguém melhor do que os próprios autores.A reportagem ouviu 13 desses novos dramaturgos da última década e constatou que, a despeito da diversidade temática e de tratamentos diferentes utilizados para retratar o seu tempo, uma marca une-os inexoravelmente: a busca de uma possível linguagem única, que seja acessível às mais diferentes platéias. Esse "estender a mão ao público", nas palavras de um deles, Samir Yazbek, não significa perder de vista o caminho da auto-expressão. A seguir, os melhores trechos dos depoimentos desses nomes que renovam os palcos de São Paulo.Para a maioria dos dramaturgos da geração atual, desenvolver a criação de um texto hoje significa mais do que meramente escrever: demanda envolvimento com um grupo e, não raro, uma transformação do autor em ator, diretor e até produtor de seus trabalhos. Para Cláudia Schapira, de 36 anos, autora indicada para o Prêmio Shell deste ano pela peça Bartolomeu, o Que Será Que Nele Deu?, em cartaz no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, o trabalho em grupo é fundamental. "Buscamos sempre o intercâmbio. Escrevi e atuei em Bartolomeu, enquanto Georgete Fadel dirigiu; a próxima eu vou dirigir e ela vai atuar?, adianta a dramaturga. ?A feitura do texto acaba sendo coletiva também. Bartolomeu começou com o relato de todos do grupo, que são co-autores da peça." É dessa mesma forma que Hugo Possolo, de 37 anos, cria suas peças, em parceria com o seu grupo, os Parlapatões, Patifes e Paspalhões. "Os parâmetros para a elaboração de meus textos passam por critérios coletivos", afirma Possolo. "É o sentido ético do grupo que se traduz em cena, contra o ideal romântico do autor enclausurado e suas vontades pessoais." Assim também enxerga a divisão de trabalho no meio artístico. "A atividade artística não precisa ser setorizada. Não tem de se submeter à segmentação de mercado que forma profissionais específicos para se enquadrar nele", defende.O dramaturgo e jornalista Mário Viana, de 41 anos, tornou-se parceiro, na dramaturgia, dos trabalhos recentes dos Parlapatões, como Mistérios Gozosos, Um Chopes, Dois Pastel e uma Porção de Bobagem e Pantagruel (estréia prevista para este semestre). As peças foram desenvolvidas na sala de ensaios, com constante troca do palco para o computador e vice-versa. Viana é notório premiado em concursos de dramaturgia. Nos últimos três anos, teve quatro peças premiadas, mas nenhuma delas teve a chance de ir ao palco. "Tecnicamente, o dramaturgo avança com a montagem de suas peças", reinvindica. Uma dessas peças premiadas, o musical Flechadas do Teu Olhar, terá leitura dramática hoje, às 20h30, no Teatro Maria Della Costa, com direção de Zé Renato. No mês passado, Viana manteve em cartaz no Tusp sua colagem de textos literários Verdades Canalhas, com direção de Hugo Possolo.O diretor e dramaturgo da Companhia do Latão (A Comédia do Trabalho), Sérgio de Carvalho, de 34 anos, endossa a importância do grupo no fazer teatral. "Toda boa dramaturgia é feita em grupo. Mesmo quem acredita estar escrevendo sozinho dialoga com a tradição dramatúrgica que lhe precede", assegura. Portanto, para a Companhia do Latão, o entrecruzamento entre funções é essencial. "Como nossas peças são sempre desenvolvidas a partir de estudos pré-determinados, todos os integrantes da companhia ajudam a alinhavar o texto", assegura. "A sala de ensaio interfere diretamente no texto", ratifica o ator, diretor e autor de Perpétua, Opus Profundum e Antiga (estréia em setembro, com direção de Leonardo Medeiros), Dionísio Neto, de 29 anos. Ele afirma não separar o escrever do encenar. "Escrevo para atores e os ouço muito nas mudanças de texto. Na maioria das vezes, eles têm razão."Já Fernando Bonassi, de 39 anos, que assinou a dramaturgia de Apocalipse 1,11, direção de Antônio Araújo, radicaliza a questão. "Para mim, teatro é para ser feito mesmo a várias mãos. Eu mesmo só aprendi a técnica teatral depois de passar pelo processo com o Teatro da Vertigem. De lá para cá, só escrevi teatro com outras pessoas, principalmente Victor Navas", conta. "A linguagem em que coloco minha individualidade mesmo é a literatura", assegura o dramaturgo e escritor.A despeito da grande variedade temática, que vai da violência à espiritualidade, é consenso entre os dramaturgos querer retratar o seu tempo, enaltecendo o papel social do artista. Mas o fato de os temas não convergirem na atualidade para as questões coletivas, de tonalidade política, como ocorreu nos anos 70, não desobriga o dramaturgo, no entanto, de pensar "um teatro onde uma pessoa comum se reconheça", de acordo com Marta Góes, de 48 anos, autora de Um Porto para Elizabeth Bishop, que cumpriu bem-sucedida temporada em São Paulo até o mês passado e agora está em cartaz no Rio. Quando seu filho de 23 anos saiu empolgado do teatro ao assistir à A Vida É Cheia de Som e Fúria, do grupo curitibano Cia. Sutil, a autora e jornalista entendeu que o mundo do filho tinha sido legitimado pelo palco. "O teatro é uma moldura de poder extraordinário", diz Marta, que já teve montadas peças cômicas sobre temas contemporâneos, na década de 80, como Prepare seus Pés para o Verão e A Moça Que Falou Assim, de 98.Se ao teatro cabe falar ao seu tempo, permitindo que gerações se reconheçam nele, o desafio reside em "como fazer isso", como lembra o dramaturgo Samir Yazbek, de 33 anos, premiado com o Shell 2000 pela peça O Fingidor. "O grande desafio é ter o que dizer, ser capaz de mergulhar nos infernos pessoais e coletivos, apresentar todo um espectro de contradições e estender uma mão a quem está na platéia, para guiá-la nesta viagem, dando a ela um sentido", reflete o autor que acaba de escrever um novo texto, Terra Prometida, com estréia marcada para sexta-feira no Teatro Sesc Anchieta.O coro é engrossado pelo dramaturgo Pedro Vicente, de 34 anos, autor de Banheiro, PromisQuidade e Disk Ofensa. "Em meus textos, procuro buscar uma aproximação entre os problemas pessoais e as forças sociais incontroláveis", diz. "Interessam-me os efeitos ainda misteriosos da superinformação, da pulverização de valores, dos exageros de conduta e discrepâncias absurdas encaradas como situações normais", exemplifica.A mesma inquietação faz com que a Companhia do Latão centre seu foco em questões sociais prementes, com olhos voltados para a difícil e injusta situação social brasileira. "Agora estamos estudando a forma como a sociedade brasileira mascara, através da sociabilidade, seus conflitos sociais", adianta o diretor Sérgio de Carvalho. "O dramaturgo, assim como todo artista, tem de pensar em si mesmo como uma força social útil", diz. "Seu papel é travar uma luta simbólica contra o pensamento dominante", acredita.Segundo Fernando Bonassi, interessa "aprofundar a questão dos rituais de violência e como isso se dá de maneira específica no Brasil". "Portanto, não me interessa fazer com que a platéia se reconheça em minhas peças, mas, pelo contrário, que fique muito incomodada", dispara. "O que quero mesmo é que não dê para comer pizza depois de ver uma peça minha."A libertação de grilhões sociais, morais e mentais também é um tema recorrente. "Faço teatro como um missionário", diz Hugo Possolo. "Quero mostrar, principalmente àqueles que vivem na mesma época que eu, que a liberdade é possível", proclama.Para Alberto Guzik, de 57 anos, autor de Um Deus Cruel, essa questão também é primordial. "Não acredito mais em uma libertação pela via ideológica, seja ela qual for", defende o autor e jornalista. "Mas a arte pode libertar. Tem esse poder e esse destino. Por isso é abençoada por uns e tão perigosa para outros", acredita.Voz dissonante, no entanto, é a do dramaturgo e músico Léo Lama, de 32 anos, autor de Dores de Amores e Vampira (sua última peça a entrar em cartaz) e filho de Plínio Marcos. "Não me interessa o agora, mas sim o ser humano na sua busca ancestral e inabalável por épocas e datas, a busca de sua essência humana", defende. Afora a exceção, os dramaturgos mostram grande preocupação com o papel social que exercem.Para Dionísio Neto, falta incentivo governamental que estimule autores a escrever seus textos. Neto também diz ressentir-se da ausência de editoras interessadas em publicar textos de dramaturgos dos anos 90. Pedro Vicente também crê que a dramaturgia deveria ser estimulada pela "criação de um programa subsidiado pelo governo (sem compromisso com o mercado) e voltado exclusivamente para a produção e montagem de textos inéditos de autores brasileiros." Mas, para Aimar Labaki, de 40 anos, dramaturgo, crítico e jornalista cultural, autor de Vermouth, Pirata na Linha e da recente MotorBoy, em cartaz no Teatro Popular do Sesi, "o que falta não é incentivo, mas uma política cultural séria". "É um absurdo que uma lei de incentivo transfira o dinheiro público para as indústrias financiarem sua comunicação", dispara.O dramaturgo e jornalista Avelino Alves, de 41 anos, destaca a importância dos concursos de dramaturgia, ao possibilitarem a divulgação de novos nomes. A peça Não me Abandones no Inverno, de sua autoria, estreou na Jornada Sesc de Teatro, depois de alcançar o segundo lugar no 1.º Concurso Estadual de Dramaturgia do Sesi, em 95. Este ano, conquistou o primeiro lugar no Concurso de Dramaturgia Carlos Carvalho, do Rio Grande do Sul, com a peça Pequenas Tragédias. Mas o prêmio em dinheiro não é tudo para um gênero que só existe quando sai do papel para o palco.

Agencia Estado,

03 de setembro de 2001 | 12h54

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