Nova forma de voar

Avião do ‘Star Wars’, parceria da Latam com a Disney, é de certa forma frustrante

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

19 de outubro de 2019 | 03h00

Avião do Star Wars, o Stormtrooper Plane, parceria da Latam com a Disney, é de certa forma frustrante. Ele faz São Paulo-Flórida, óbvio, terra de mais patetas por jarda quadrada, e celebra o recente filme da franquia, Star Wars Galaxy’s Edge

Pato Donald estilizado com a máscara de um stormtrooper, fuzileiro da tropa estrelar, está pintado na fuselagem. Mas o co-piloto é o peludão Chewbacca?

Chewie, como é conhecido o alienígena da raça Wookiee, oriundo do planeta Kashyyyk, era co-piloto da nave Millenniun Falcon, pilotada por Hans Solo, algo só possível com a gravidade zero, pois sobras daquela quantidade enorme de pelos em seus 2m15 de altura entrariam nos comandos, dariam curtos, travariam botões, especialmente na primavera interestrelar se ele, como meus gatos, troca-os. 

Sem contar que Solo deve tomar antialérgico antes de assumir os comandos da aeronave.

O interior do Stormtrooper Plane é como o de qualquer avião que faz voos internacionais. Sua tripulação segue o padrão da empresa aérea que, no seu lançamento em 2016, na fusão da Tam com a chilena Lan, soltou a campanha: “Latam e suas filiais passam a oferecer uma nova forma de viajar nos seus seis mercados domésticos”. Perde uma grande oportunidade de inovar a experiência entediante, exaustiva e tensa de voos de longas distâncias. 

Poderia contatar Harrison “Hans Solo” Ford para gravar a voz do piloto original do voo: “Aqui é o comandante Solo falando. Senhoras e senhores, bem-vindos ao voo partindo do aeroporto internacional de Guarulhos com destino ao aeroporto internacional de Miami. Nosso tempo de voo é de aproximadamente sete horas. O uso de aparelhos eletrônicos está permitido enquanto a aeronave estiver em solo. Exceto o dos sabres de luz a laser.”

“Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Caso esteja acompanhado de alguém que necessite de sua ajuda, ou de um ser de outro planeta, coloque sua máscara primeiro para em seguida ajuda-lo. Robôs androides não precisam de máscaras.”

“Queremos lembrar que seus assentos são flutuantes, em caso de pouso na água retire-o e leve-o para fora da aeronave. Se for no espaço, não têm muita utilidade. Durante a decolagem seus assentos deverão estar na posição vertical, com as mesas fechadas e travadas. Desejamos a todos um bom voo.”

Então, a chefe do comissariado, um clone da rainha Leia Organa, com o penteado e a roupa tão icônicas, faria uma demonstração das normas de segurança: máscaras descerão automaticamente, assento flutuante, encostos na vertical, apertar cintos, portas de emergência...” Garanto que os passageiros, dessa vez, prestariam a atenção. 

Seria de arrepiar se a voz metálica e abafada de Darth Veder aparecesse nos alto-falantes: “Tri-pu-la-ção, portas no automático. Decolagem autorizada”. E sua música, The Imperial March, assim como a trilha de John Williams, tocassem na decolagem e no pouso.

O robô androide C-3PO, fluente em muitas línguas, ajudaria no serviço de bordo, cujas bandejas estariam encaixadas sobre os braços estendidos do minirrobô R2-D2. A sobremesa poderia ser um pudim miniatura no formato do gangster molenga e guloso, Jabba the Hutt.

Sobre o robô esférico BB-8, um cesto de lixo ajudaria a tripulação toda de collant colorido e interestrelar e recolhê-lo. Se bem que esse figurino é de outra franquia, Star Trek. Que também renderia um bom divertimento num voo dedicado aos fãs da série, pilotado por James Kirk, e com um chefe de cabine sósia de Dr. Spock, de ascendência vulcana.

Spock, também fluente em muitas línguas, foi embaixador da Federação Unida dos Planetas. Poderia ajudar passageiros brazucas a preencher os formulários de imigração das rigorosas autoridades da Federação dos Estados Unidos da América

Quem sabe Spock, que contribuiu para o fim da animosidade entre a Federação e o Império Klingon, possa também encerrar a animosidade da Federação Americana contra os descendentes do Império Asteca, e ajudar no combate ao preconceito, especialmente contra cidadãos de orelhas fora do padrão, e na valorização da diversidade galáctica.

O mesmo Harrison Ford poderia empresar sua voz para voos da franquia Indiana Jones, todo dedicado a fãs de arqueologia. Em que o chefe da cabine daria instruções de chicote, e os tripulantes fantasiados de egípcios andariam de lado, como um pinturas sem perspectiva.

Uma bola gigante passaria no meio do corredor recolhendo o lixo. 

A trilha também de John Williams, 51 vezes indicado ao Oscar, seria executada na decolagem e no pouso.

Eu levaria meus filhos, sem pestanejar, ao voo da franquia Madagascar. Pilotada pelos desbocados pinguins, digo, por pilotos profissionais, lógico, dublados como nos desenhos por Tom McGrath e Chris Miller, o impagável co-piloto Kowalski.

Sacha Baron Cohen seria a voz do chefe da cabine, como a do lêmure do desenho. E, antes do apagar as luzes, todos dançariam I Like To Move It, música que anima os bichos de Madagascar. Claro que tudo sem afetar a segurança dos passageiros. 

Esse poderia ser o começo de uma nova era, que atinge em cheio o bolso do turista e se aproveita da infantilização de um público ávido por entretenimento, franquias, super-heróis, que confunde realidade com ficção. Imagine quando a Marvel, braço da Disney, se interessar pelo business. 

Problemas teríamos para segurar o descontrole emocional de Hulk e no voo de terraplistas.

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