Nova edição traz texto integral

Italo Calvino (1923-1985), em seu posfácio da nova edição de As Aventuras de Pinóquio publicada pela Cosac Naify (escrito originalmente há 30 anos para o jornal italiano La Reppublica), lembra que a influência do livro de Carlo Collodi deveria ser estudada em todos os escritores de língua italiana por se oferecer a uma permanente desmontagem e remontagem, resistindo às mais diversas interpretações. De fato, Pinóquio já foi lido pelos italianos até mesmo como uma parábola cristã - nunca esquecendo que o boneco nasce das mãos de um carpinteiro, o que o aproxima de Jesus e José, tendo Collodi recorrido aos evangelhos apócrifos para mostrar que até um menino santo pode ser um traquinas.

O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2011 | 03h09

Nas ilustrações do livro original, Enrico Mazzanti fantasiou Pinóquio quase como um personagem da commedia dell'arte, mas, na edição atual com tradução de Ivo Barroso, os desenhos de Alex Cerveny revelam um boneco que se humaniza também graças dos traços meticulosos de um criador tão empenhado em seu ofício que foi atrás das técnicas usadas na época de Collodi para ser mais fiel ao mestre.

Cerveny conta que, inicialmente, tinha imaginado as aventuras de Pinóquio como uma fantasia policromática - do tipo da animação assinada por Disney em 1940 - o que é compreensível, pois também os criadores de Shrek usaram o clássico desenho como referência (Pinóquio aparece como "convidado especial" em três filmes do ogro). "Fiquei rabiscando, mas não estava seguro quando apresentei as aquarelas aos editores do livro", conta Cerveny, paulista de 48 anos e um dos principais desenhistas da geração que começou a expor nos anos 1980.

Cerveny, que já assinou trabalhos memoráveis como o do livro infantil Vejam como Eu Sei Escrever, do poeta José Paulo Paes (1928-1988), concluiu, com a ajuda dos editores, que o monocromatismo se adaptava melhor à jornada desse herói, marcado pelo desejo hedonista de brincar e que é obrigado a se tornar responsável para virar gente. A técnica do cliché verre, praticada por alguns pintores franceses do século 19 (notadamente Corot), lhe pareceu a mais adequada. Nela, o artista desenha com uma agulha sobre uma superfície transparente preparada (o vidro com fuligem, no caso), imprimindo o resultado mais ou menos como nos antigos processos fotográficos. "Tem até um componente metafórico nessa história, porque é o tipo de técnica que não permite erros, não tem volta", conta Cerveny, aludindo ao caráter do mentiroso boneco de madeira criado por Gepeto. / A.G.F.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.