Nova diplomacia para divulgar a produção brasileira no exterior

Ancine promove sessões de longas-metragens nacionais para curadores dos principais festivais do mundo

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2013 | 02h10

A Ancine, a agência reguladora do cinema nacional, criou um programa para mostrar filmes brasileiros aos curadores de festivais internacionais. Denominado Encontros com o Cinema Brasileiro, o programa, parceria entre os ministérios da Cultura e das Relações Exteriores, visa a solucionar um problema, a atual falta de visibilidade do cinema brasileiro no exterior, em especial nos grandes festivais de cinema. O que acontece?

Parte do problema se deve à falta de divulgação adequada, como indica a iniciativa da Ancine. Outra parte tem a ver com a natureza da produção brasileira, ao menos como ela é percebida no exterior. Dirigentes dos principais festivais, ao serem questionados sobre a ausência brasileira em seus eventos, verbalizam um diagnóstico que coincide com o de muitos críticos de cinema patrícios. A produção brasileira estaria dividida entre filmes televisivos, que cortejam de forma muito direta o mercado, e filmes que, por reação, se colocam de maneira esteticamente muito fechada em relação ao público. A cinematografia brasileira iria do 8 ao 80. Ou produtos descartáveis, para ver e esquecer, ou obras muito fechadas, com escassa possibilidade de diálogo fora do círculo de amigos do cineasta e sua família. Nem uns nem outros interessam aos festivais.

Mas é claro que, olhando de perto, o cinema brasileiro fornece esse tipo de filme de ambição artística porém sem menosprezo pelo público. A cada ano temos exemplos desses títulos e nos perguntamos por que os festivais não se interessam por eles. Talvez falte mesmo uma aproximação maior. Uma diplomacia do cinema mais eficaz.

Como aquela que existia, de maneira informal, na época ainda mais famosa do cinema brasileiro no Exterior, a do Cinema Novo, que floresceu ao longo da década de 1960 e era presença frequente não apenas nos grandes festivais de cinema do mundo, mas nos textos dos críticos mais influentes do planeta. Em outras palavras, diferentemente de hoje, o cinema brasileiro existia para o exterior e nomes como os de Glauber Rocha, Paulo Cesar Saraceni, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Leon Hirszman, Cacá Diegues e Joaquim Pedro de Andrade eram moeda corrente no mundo do cinema internacional.

Hoje, os nomes mais conhecidos do cinema brasileiro, fora do País, são os de Walter Salles, Fernando Meirelles e José Padilha. Não por acaso, os três conduzem carreiras internacionais e não têm mais filmado no Brasil.

No tempo do Cinema Novo a aproximação fez-se pelo campo da amizade e da afinidade política e estética com críticos e diretores europeus. Esse relacionamento era estratégico. Significava franquear a porta de entrada da Europa para o cinema brasileiro. Também dava visibilidade aos filmes no próprio Brasil, cuja mentalidade é bastante suscetível ao que dizem de nós lá fora. É assim até hoje.

Pode-se acompanhar retrospectivamente a importância que os cineastas davam à presença brasileira nas mostras e festivais, bem como às matérias publicadas em revistas de prestígio como os Cahiers du Cinéma ou Positif. Pode-se ler quanto era precioso esse intercâmbio, por exemplo, através da correspondência ativa e passiva de Glauber Rocha reunida por Ivana Bentes em Cartas ao Mundo (Cia das Letras). Já o crítico Alexandre Figueirôa analisou esse intercâmbio em seu livro Cinema Novo: A Onda do jovem cinema e sua recepção na França (Papirus), mostrando como as afinidades entre diretores e críticos brasileiros e seus confrades franceses facilitaram a repercussão dos filmes no continente europeu, na França em particular.

Em época menos ideológica, a tendência é que afinidades eletivas desse tipo não surtam efeito. Desse modo, políticas mais afirmativas, como as da Ancine, devem se desenvolver em torno da qualidade estética de filmes que possam também sensibilizar o público estrangeiro.

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