Nova compreensão de um rico legado

Obra joga luz sobre o efeito profundo dos escritos de Jacques Derrida em muitos domínios do conhecimento

Sérgio Telles *,

20 de abril de 2013 | 02h10

Bem acolhida ao aparecer há dois anos na França, a biografia de Derrida escrita por Benoît Peeters recebe o mesmo tratamento nos Estados nidos e na Inglaterra, onde acaba de sair a tradução em língua inglesa.

Nascido na Argélia e vitimado aos 74 anos por um câncer de pâncreas em 2004, Jacques Derrida teve uma extraordinária trajetória intelectual. Radicado no mundo acadêmico francês, logo passou a ser convidado pelas melhores universidades norte-americanas, desenvolvendo intensa atividade letiva em ambos os lados do Atlântico. O franco reconhecimento internacional lhe deu o status de superstar e forte presença midiática.

Admiração e inveja me acompanharam durante a leitura da excelente biografia. Admiração pela vida rica, combativa, compartilhada com os grandes intelectos do mundo. Inveja pela potência criativa com a qual gerou uma caudalosa obra que marca o pós-estruturalismo e o pós-modernismo (mais de 60 livros), na qual expõe uma original abordagem filosófica cuja importância e envergadura, segundo Emmanuel Levinas, tem como paralelo apenas a obra de Kant.

A inovadora abordagem de Derrida suscitou admiração e inveja no establishment filosófico. Um exemplo foi o movimento empreendido em 1992 por filósofos americanos e ingleses numa tentativa fracassada de impedir que a Universidade de Cambridge lhe conferisse um título de doutor honoris causa, alegando que seu trabalho mais se aproximava de "truques e brincadeiras próprias do dadaísmo". Outro foi a carta enviada para Laurent Fabius, ministro de Indústria da França, por Ruth Marcus, colega de Derrida em Yale, protestando contra sua nomeação para a chefia do Colégio Internacional de Filosofia que estava então sendo criado, pois - dizia a missivista - isso seria uma "espécie de piada", fruto de uma "fraude intelectual". Reação do ministro: enviou a carta para Derrida, com um bilhete: "Nunca desça uma escada na frente dessa senhora".

De sua vida combativa, é importante mencionar sua oposição crítica ao estruturalismo, a Foucault e Lacan numa época em que eram todos intocáveis, bem como sua independência frente à intimidação stalinista e maoista que acuava a intelectualidade francesa nos anos 60 e 70. Com igual denodo, enfrentou polêmicas com os filósofos Willard Quine, John Searle e Richard Wolin e defendeu (uma missão impossível) o amigo Paul de Man, acusado de um passado colaboracionista nazista.

Ao expor minha própria admiração e inveja, acompanho Derrida em seu empenho em falar em primeira pessoa nos textos filosóficos, rompendo a tradição de mostrar o "ser" como pura máquina de engendrar pensamentos, desprovida de um corpo e suas pungentes necessidades físicas, mentais e emocionais.

Vários de seus textos filosóficos causaram estranheza pelo uso de uma linguagem literária e pelo caráter autobiográfico. Essa característica da escrita de Derrida decorre de sua proximidade com a literatura e a psicanálise.

A oposição maior a Derrida se deve àquilo que ficou identificado como sua marca registrada e que, paradoxalmente, teve uma imensa penetração em todos os estratos culturais, especialmente nos Estados Unidos - a desconstrução, uma estratégia de leitura que possibilita uma nova apreensão dos textos filosóficos clássicos e transformada em arma na luta por ele empreendida contra a metafísica que, em sua opinião, permeia desde sempre todo o pensamento ocidental, e àquilo que considerava como seus dois maiores pecados - a valorização excessiva da palavra falada (phoné, logos) em detrimento da palavra escrita e a ingênua crença na importância da presença, pressupostos que ignoram a impossibilidade de acesso direto ao ser e à verdade, na medida em que eles estarão para sempre mediados pela linguagem e esta produzirá incontornáveis e constitutivos efeitos de distorção, de diferimento, de adiamento.

Embora mencione a importância de Freud no pensamento de Derrida, Benoît Peeters não lhe dá, a meu ver, o devido realce. O mesmo acontece em outros textos sobre a obra de Derrida. Talvez, devido às complexidades da teoria freudiana, não fique tão patente para esses autores como para um psicanalista quanto os procedimentos da desconstrução se aproximam da atenção flutuante praticada pelo psicanalista na escuta da fala do analisando ou como muitas das concepções fundamentais de Derrida (desconstrução, différance, suplemento, hymen, pharmacon, indecidível, etc.) deixam transparecer a grande intimidade com o conceito freudiano de inconsciente.

Derrida é o primeiro a reconhecer sua dívida para com Freud. Disse ele: "(...) desde a Gramatologia e Freud e a Cena da Escritura, todos os meus textos tem inscrito aquilo que chamarei de implicação psicanalítica". Geoffrey Bennigton, profundo conhecedor da obra de Derrida disse: "As relações de Derrida com Freud são de origem, estão na origem, desde o início; sem Freud, não teria havido, não há Derrida". É por esse motivo que René Major, psicanalista francês, diz que a desconstrução é um desdobramento natural da psicanálise.

Derrida retribuiu a Freud de várias formas, uma delas fazendo uma apaixonada e ininterrupta defesa da psicanálise, algo de inestimável valor num momento em que ela é atacada pelo cientificismo obscurantista que atualmente domina diversas áreas do saber.

* Sérgio Telles é escritor e psicanalista.

Tudo o que sabemos sobre:
Sabático

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.