Wilton Junior/AE
Wilton Junior/AE

Nova batalha para a guardiã da liberdade

Vinte anos após fim do apartheid, Nadine Gordimer volta-se contra a censura

Stephen Moss, The Guardian, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

Vinte anos depois de trabalhar para o fim do apartheid, a escritora Nadine Gordimer se lança num novo combate, desta vez contra planos do governo sul-africano para amordaçar a imprensa. Ela explica a razão disso a Stephen Moss.

"De onde você tira toda essa energia?" Foi o que perguntei à laureada com o Nobel de Literatura e eterna combatente pela liberdade. Esta é uma questão que poderia ser considerada de mau gosto e ou discriminatória e me perguntei como a escritora de 86 anos, reputada por seu rigor intelectual que beira a ferocidade, reagiria. Felizmente, ela não se ofendeu. "Você tem que reunir forças e fazer o que tem que fazer", garantiu,

E, no momento, o que ela acha que tem que fazer é oposição às propostas draconianas do governo sul-africano para reprimir a mídia. Uma nova lei de proteção da informação, que também cria um tribunal especial para julgar questões ligadas à mídia é vista pelos críticos como a maior ameaça à liberdade da imprensa desde a era do apartheid.

Se for sancionada, dará poderes ao governo para proibir a publicação de qualquer material que ele considere prejudicial "à sobrevivência e segurança do Estado". A expressão, que é muito abrangente, vai permitir ao governo encerrar discussões de assuntos que possam causar embaraço para os que estão no poder. Foi essa proposta que levou Gordimer a vestir sua armadura mais uma vez e entrar na batalha contra um governo que, segundo ela, está disposto a reverter os ganhos democráticos das duas últimas décadas.

Com seu colega escritor Andre Brink, Nadine elaborou uma petição que contou com a assinatura de figuras de destaque, como o premiado romancista J.M. Coetzee, o acadêmico e escritor Njabulo Ndebele, e o ator e dramaturgo John Kani. O documento foi entregue oficialmente ao presidente Jacob Zuma e a escritora espera que outros autores venham se juntar à Ordem dos Advogados e organizações de mídia sul-africanas para se criar uma oposição coordenada às propostas governamentais.

Não é uma ironia que, quase 20 anos depois da queda do apartheid, ela tenha agora que lutar contra um governo que substituiu o antigo e odioso sistema? "É mais do que irônico", diz ela.

"Muitas pessoas morreram lutando pela liberdade e vemos que a liberdade conquistada a esse preço hoje está novamente sob ameaça. Todos os escritores estão ameaçados pela censura e é essa a realidade espreitando atrás do chamado "tribunal de mídia". Estamos protestando contra a criação de um tribunal como esse, que naturalmente significa "uma polícia da palavra", não só em nosso próprio nome. Escrever pressupõe uma interação com os leitores. Se o trabalho e a liberdade do escritor estão em risco, a liberdade de cada leitor sul-africano também está ameaçada. Nosso protesto é um movimento dos sul-africanos para todos os sul-africanos, em que nos comprometemos a lutar em favor de um país livre: pela liberdade de expressão de pensamento, de diálogo e do medo da verdade sobre nós próprios."

Perguntei a Nadine se algum dia ela imaginou que teria de voltar à luta em defesa de direitos democráticos fundamentais. "Jamais pensei que teria que combatê-lo (o governo) novamente. Mas este projeto nos leva de volta a alguns aspectos do apartheid. As novas propostas ameaçam a base da liberdade democrática. A liberdade de expressão, ao lado do voto, são a base da democracia. São a essência dela."

Então, indaguei, se ela se desespera ao pensar que um governo, uma nova maneira de vida organizada, possa retornar aos velhos e nocivos hábitos, temendo uma abertura e querendo assegurar os privilégios? Ela responde: "Não perdi as esperanças. A vida é muito incerta. Tudo o que você consegue fazer é manter suas convicções do que é certo. Elas não mudam. Hoje, penso da mesma maneira que há 20 anos."

Segundo Nadine, se o governo persistir nas suas propostas os mais atingidos serão os jornalistas. Mas, para ela, todos os escritores criativos também sofrerão um ataque insidioso à sua liberdade. Primeiro porque eles quase sempre se baseiam em fatos divulgados pela imprensa, mas também porque seu espaço intelectual será limitado, a sua imaginação escravizada.

Novas regras. "E também estamos sendo ameaçados pela negação da liberdade da palavra, que é nossa forma de expressão para narrar a vida da população da África do Sul. Os jornalistas nos fornecem os fatos, mas na poesia, no teatro, no romance, aprofundamos as complexidades e isso poderá ser restringido pelas forças do governo. Nossa meta é investigar a vida e "esse objetivo estará comprometido por essas novas regras".

No ensaio A Writer"s Freedom (A liberdade de um escritor), publicado em 1976, no auge do apartheid, reproduzido no seu livro recente Telling Times, ela explicou porque a liberdade - da moda e conformidade como também da interferência governamental - é algo vital. "Qualquer governo, qualquer sociedade - qualquer ideia de uma futura sociedade que tenha respeito pelos seus escritores deve dar a eles a maior liberdade possível para escreverem sobre o que quiserem, usando a forma e a linguagem que preferirem e com base na sua descoberta pessoal da verdade." No fim desse texto, ela cita Turgenev: "Sem liberdade no sentido mais amplo do termo... um verdadeiro artista é inconcebível; sem esse ar, é impossível respirar."

Sob o apartheid, diversos livros de Nadine Gordimer foram interditados - A World of Strangers, de 1958 (Um mundo de estranhos) proibido durante 12 anos, The Late Bourgeois World (1966) por 10 anos, e vários outros romances durante períodos mais curtos. Mas ela não se intimidou e permaneceu na África do Sul enquanto muitos dos seus contemporâneos partiram. "O exílio é uma coisa terrível, mesmo no conforto", disse ela certa vez. Nadine teve um papel de destaque no movimento de oposição à censura e ajudou a criar o Congresso dos Escritores Sul-Africanos, mas sempre rejeitou o rótulo de "escritora política". "Você serve melhor sua causa falando aquele pouco de verdade que descobriu, e da maneira como você a entende", afirmou em 2003.

Os propagandistas do governo acreditam ter o monopólio da verdade; os escritores reconhecem a própria falibilidade - não se trata "da verdade", mas "da verdade como você a vê".

Clima. As restrições à criação dos escritores não é o que ela mais teme, mas a possibilidade de elas estimularem um clima em que eles não poderão mais exprimir uma "visão particular" das coisas, como ela já tinha afirmado em ensaio de 1976. Num mundo em que o governo decide o que pode ser publicado, que tipo de material ameaça o interesse nacional, os autores precisam assumir posições; eles são obrigados a se tornar políticos. A escrita se transforma em arma e deixa de ser uma aventura intelectual.

Nadine Gordimer enfatiza que sua petição obteve o apoio de escritores que refletem todas as camadas da população: brancos, negros, indianos, indivíduos de língua inglesa e africâner. Está consciente do perigo de o governo começar a retratá-la como uma escritora branca rica sem contato com as novas realidades políticas do seu país.

Aliás, ela já foi catalogada dessa maneira em 2001, quando seu romance July"s People, publicado em 1981, que narrava uma guerra civil imaginária na África do Sul, foi chamado de racista e proibido por um departamento estadual de educação. "Nosso protesto não tem nada a ver com raça ou cor", garante ela.

Quando lhe perguntei se essas medidas poderiam ter como objetivo ocultar a corrupção das autoridades, ela me respondeu que gosta de escolher as palavras com atenção. "Preciso ser cuidadosa com o que afirmo. Existe muita corrupção no alto escalão e está claro que essas leis que acabam de ser propostas significam uma proteção para as pessoas que temem ser expostas."

O que a choca também é o uso da expressão "segurança do Estado", que para ela é uma espécie de ambivalência orwelliana. "O governo diz que essas novas regras têm por base a proteção da informação que pode colocar em risco a segurança do Estado. Mas não temos nenhuma intenção de pôr em risco a segurança do Estado. Amordaçar a liberdade de expressão, sim, é uma ameaça à segurança do Estado, e como escritores e cidadãos queremos demonstrar essa verdade." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

QUEM É

NADINE GORDIMER

ESCRITORA

Ganhadora do Nobel de 1991, a sul-africana, filha de imigrante judeu e mãe inglesa e nascida em 1923, escreveu seu primeiro conto aos 9 anos. Seis anos depois, ele foi publicado em uma revista. Nadine, que é mãe de dois filhos, não chegou a completar nenhum curso superior.

PARA ENTENDER

O apartheid foi um regime de segregação racial que vigorou na África do Sul entre 1948 e 1994, período em que o Partido Nacional se sucedeu no governo. Assim, o controle das leis era da minoria branca.

A segregação por raça começou no período colonial, mas o apartheid como regime foi oficialmente instituído na eleição de 1948, que dividiu a população sul-africana em grupos raciais: "negros", "brancos", "de cor" e "indianos".

Isso obrigou a uma mudança forçada de endereços para que não houvesse "misturas". Em 1958, os negros perderam sua cidadania, tornando-se membros de tribos autônomas chamadas de bantusões.

A segregação provocou uma onda de revoltas até que, em 1990, começaram negociações para as eleições multirraciais de 1994, vencidas pelo Congresso Nacional Africano, partido de Nelson Mandela. Mesmo assim, ainda há vestígios de segregação social.

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