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Pioneiro do jornalismo em quadrinhos, Joe Sacco detalha, em Notas Sobre Gaza, dois massacres ocorridos em 1956

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

 

Um breve relatório da ONU, datado de 13 de novembro de 1956, dava conta de rumores de atrocidades na Faixa de Gaza. Questionada, a então ministra de Assuntos Exteriores de Israel, Golda Meir, confirmou o registro de "algumas baixas" entre palestinos após uma tentativa de pilhagem. Era situação resolvida, afirmou.

Teria sido também esquecida se, quase meio século depois, uma citação àquele relatório da ONU em um livro de Noam Chomsky não tivesse chamado a atenção do maltês naturalizado americano Joe Sacco. Cartunista autodidata e jornalista por formação, pioneiro do chamado jornalismo em quadrinhos, Sacco resolveu investigar o caso a fundo. Era algo que já havia feito com passagens mais recentes da história na graphic novel Gorazde, sobre a Bósnia, e em Palestina, pela qual ganhou, em 1996, um American Book Award.

 

 

Ao revirar arquivos e entrevistar mais de 100 pessoas envolvidas, Sacco descobriu que os rumores se referiam a dois massacres ocorridos nas cidades de Khan Younis e Rafah, em 3 e 12 de novembro de 1956, quando foram mortos a tiros, respectivamente, 275 e 111 civis palestinos.

Eram crimes que poderiam passar despercebidos em meio ao intermináveis conflitos no Oriente Médio, mas que, em Notas Sobre Gaza, lançada no ano passado em língua inglesa e que sai neste semestre pela Quadrinhos na Cia., ganha contornos tão humanos quanto difíceis de acreditar. Em conversa por telefone com o Estado, de Portland, onde vive, Sacco falou sobre o trabalho que lhe tomou sete anos entre pesquisa e realização. Veja trechos a seguir.

 

No livro, vários palestinos dizem que o que aconteceu em 1956 não era importante. Por que tinha tanta certeza de que era?

Os massacres em si eram importantes. Na história do conflito entre palestinos e israelenses, os dois incidentes estão entre os maiores com morte de civis. O de Khan Younis teve o maior número de mortes de civis num único dia em solo palestino. Se os sobreviventes estavam vivos, por que não falar com eles em vez de apenas confiar nos poucos parágrafos do relatório da ONU, que não esclarecem o que houve? Mas ainda há outro lado. Os incidentes fazem parte de um continuum de ataques. As pessoas mais novas, especialmente, perguntavam: "Por que quer saber dessas histórias velhas com tudo o que está acontecendo?" O ponto é que, como jovem no Oriente Médio, você não digere o que aconteceu porque há sempre algo novo sendo enfiado goela abaixo. É triste alguém pensar que não vale a pena olhar para trás.

Mas, entre os mais velhos, havia interesse em falar das guerras de 1948 e 1967.

Sim, isso é verdade. Também acontecia de eles confundirem períodos. Houve tanta coisa difícil na história deles que às vezes eles não sabiam mais dizer o que aconteceu e quando.

 

Leia aqui a continuação da entrevista com o jornalista Joe Sacco

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