NOTÍCIA DE JORNAL INSPIROU TANOVIC

Ao conversar com o repórter do Estado, na sexta-feira à tarde, Danis Tanovic admitiu que estava cansado, mas feliz. Seu filme An Episode in the Life of an Iron Piker foi feito sem dinheiro, mas num estado de euforia, porque era a história que o diretor queria contar. Em Berlim, a resposta do público foi reconfortante - Tanovic não parou de dar entrevistas. Ele ainda não sabia que An Episode ia ganhar dois prêmios, o do júri e o de melhor ator. No fundo, os esperava, mas, como disse, "é melhor não contar com prêmios para não se decepcionar."

O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2013 | 02h07

Seu filme dá a impressão de ter sido feito num regime de urgência. É só impressão?

Li a história no final de 2011, num jornal. Procurei Zanif Mujic e sua mulher para confirmá-la e o que eles me contaram me bateu fundo. Não sabia o filme que queria fazer, mas, em janeiro do ano passado, minha produtora já buscava o dinheiro. Conseguimos o mínimo, mas bastou para que embarcasse-mos nessa aventura. Sem dinheiro, sem roteiro, sem, atores. O próprio Zanif e a mulher iam reconstituindo o que ocorreu com ele. Eu os seguia com minha câmera manual. Filmamos em fevereiro. Nove dias, apenas. Meu diretor de fotografia, que trabalhava de graça, quase surtou quando fomos selecionados. "O que Wong Kar-wai vai pensar do meu trabalho, com uma câmera tao pobre?" Respondi que não se preocupasse. Provavelmente Kar-wai estaria tão imerso no sofrimento humano que não ia estar preocupado com a técnica.

Seu filme é um exemplo do que ocorre com os roms (ciganos) em seu país?

Não diria que essa historia atinge só os roms. Ela é universal porque atinge os pobres de todo o mundo. Um jornalista me disse que o filme lhe fez lembrar de Ladrões de Bicicleta. Fiquei lisonjeado, porque é um dos meus filmes preferidos. Estive recentemente no Brasil, em São Paulo, e vi muitas melhorias em seu país. Muito mais do que vejo no meu. A Bósnia, infelizmente, parece não ter solução. Ninguém está muito empenhado em resolver os problemas, há muita corrupção.

Você mesmo diz que não sabia o filme que queria fazer. Ficou satisfeito com o resultado?

Não queria fazer um documentário tradicional, com os personagens falando para a câmera, mas também não queria uma ficção com atores profissionais. Nem teria dinheiro para isso. Zanif e a mulher me impressionaram tanto que achei que o melhor seria filmar com o casal. Eles reproduziam a história, eu armava o plano. A cena mais complicada de filmar foi o desmanche do carro, quando Zanif precisa do dinheiro para comprar os remédios. Nunca havia visto aquilo. Quando Zanif e o irmão começaram a martelar, fiquei com medo de perder a ação. Não era só o fato de não ter dinheiro para desmanchar outro carro. Havia ali um desespero que eu precisava captar para que o filme se pusesse de pé. Isso e a volta da luz no desfecho. A realidade me ditou a mise-en-scène. / L.C.M.

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