Notáveis leituras de Debussy E Ravel

Foi tão empolgante a execução do "Allegro molto e con brio", primeiro movimento da Sonata no. 4, opus 7 de Beethoven, que parte do infelizmente pequeno público presente à Sala São Paulo na gelada noite de segunda-feira, dia 9, não resistiu e aplaudiu o pianista francês Jean-Efflam Bavouzet. Aplausos tão espontâneos como estes não atrapalham ninguém. E Bavouzet, conhecido em gravações por suas excepcionais leituras de Debussy para o selo inglês Chandos, prosseguiu numa execução antológica, sobretudo do "Largo" central, provando que é um beethoveniano de primeira. O "Allegro" inicial mostrou de fato, na expressão de um contemporâneo de Beethoven, o chamado "fogo heroico" - ou seja, uma incrível energia concentrada no acorde perfeito de abertura, na repetição regular da mesma nota, nos rendilhados em direção a grandes ondas interrompidas por longos acordes fortíssimo e seu eco pianíssimo.

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2010 | 00h00

Bavouzet com certeza assumirá a batuta em algum momento de sua carreira, no futuro. Quando uma de suas mãos está desocupada, a outra trata instintivamente de desenhar no ar os próximos passos da melodia ou realçar um detalhe que virá em seguida. Ele é muito teatral - e esta é uma qualidade quando se toca Beethoven, o compositor que injetou doses de dramaticidade até então inéditas na música.

A Sonata opus 7 foi composta em 1796; e a sonata mais aguardada da primeira parte, a "Patética", opus 13, é de 1798 (levou o nome porque a palavra estava na moda, pois Schiller publicara três anos antes seu ensaio Sobre o Patético). Obras, portanto, de juventude. Ainda assim, de modo genial, Beethoven estica ao máximo o arco dinâmico do pianíssimo ao fortíssimo, com bruscas mudanças, antecipando o "pathos" romântico que dominaria a primeira metade do século 19.

Muvuca. A interpretação de Bavouzet, que se anunciava espetacular, foi pontilhada de incidentes extramusicais além da conta - tosses altíssimas, toque de celular, barulhão de portas, cadeiras rangendo e uma reprimenda indignada dos ditos "conhecedores" em cima dos incautos que de novo tentavam aplaudir ao término do "Grave - Allegro di molto e con brio" inicial. Isso corta o barato de quem está ali pela primeira vez e descobre que gosta da música.

Após o intervalo, Bavouzet mostrou sua notável leitura de Debussy e Ravel, cujas integrais para piano deram-lhe fama. Se em Beethoven o arco dinâmico extremamente esticado começava a explorar o timbre do então recém-consolidado piano, um século depois o timbre já era, ao lado da imprecisão harmônica, a pedra de toque da criação musical. É verdade que Nocturne, Ballade e Tarantelle Styrienne são obras de juventude de Debussy; mas nelas já se sente o fino trato do instrumento, que às vezes nos faz esquecer sua natureza percussiva. O melhor, porém, Bavouzet reservou para o final da noite: os conhecíssimos La puerta del vino, Ondine e Feux d"artifice, prelúdios do Livro II de Debussy; e, sobretudo, o maravilhoso Ravel de Une barque sur l"océan, Les oiseaux tristes e Alborada del gracioso. COTAÇÃO: ÓTIMOF

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