Notas falsas de um moedeiro que fez de Judas seu modelo

Notas falsas de um moedeiro que fez de Judas seu modelo

Andrew Lloyd Webber é, de fato, o Midas do musical. Tudo o que ele toca vira uma nota preta, mas, aos 62 anos, completados no último dia 22, ele tem espalhado mais notas falsas que verdadeiras pelos palcos. Não era assim no começo de sua carreira. Então um jovem músico com boa formação (o pai foi diretor do London College of Music), tinha um parceiro intelectualmente preparado, Tim Rice, que também trocaria o espírito crítico por uma gorda conta bancária. Os dois se encontraram em 1968, quando escreveram o musical Joseph and the Amazing Technicolor Dreamcoat, nada memorável mas um teste preparatório para o primeiro grande sucesso da dupla, Jesus Cristo Superstar (1970), que vendeu 2,5milhões de discos antes mesmo de ser encenado, uma tradição que Webber e Rice manteriam - a de gravar antes de produzir o musical.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

Webber e Tim Rice sempre foram fascinados pela figura de Judas, o que talvez explique a troca de talento de ambos por 30 moedas. Sem Judas, que provocou o martírio de Cristo, não existiria o cristianismo nem o musical da dupla. Ambicioso, Jesus Cristo Superstar tenta descobrir a motivação psicológica de Judas para trair o Redentor. O traidor, no musical, é uma figura trágica e ao mesmo tempo patética, cuja atração pelo líder religioso ia além do que podiam suportar as autoridades da Igreja na época, que orquestraram a onda de protestos contra o musical. Mesmo Evita (1976), que trata igualmente da traição - de ideais políticos, manifestada numa valsa entre a ex-proletária Eva Perón e o ex-burguês Che Guevara (um encontro imaginário, claro) - era mais revolucionário e desafiador do que qualquer musical escrito posteriormente por Webber.

Burgês. Aconteceu com a dupla mais ou menos o que se passou com Pedro Almodóvar: à medida que crescia o sucesso, cediam à tentação do gosto burguês e pasteurizavam suas obras com uma dosagem mínima de transgressão e crítica social, tentando conquistar a classe média com uma xarope contraindicado para diabéticos. O Fantasma da Ópera é um exemplo dessa melosa receita com canções de apelo kitsch e letras de uma miséria sintática gritante.

A ressurreição de personagens religiosos (Jesus) ou líderes (Evita), tinha um caráter revisionista nos primeiros musicais de Webber, mostrando como a construção da história (ele estudou a matéria em Oxford) quase sempre resulta de um esforço artificial para construir mitos - e não é sem razão que ele e Rice transformaram Jesus em heroi da contracultura. Judas, invejoso, diz que Israel, na época do nascimento do Nazareno, não tinha comunicação de massa. Escarnece do Messias ao colocá-lo no mesmo nível de um pop star que ignora os apelos dos fãs, falando em nome de Webber e Rice. Webber trocou de letrista em Cats (1981), mas nem Trevor Nunn e tampouco a poesia de T. S. Eliott o salvaram da decadência.

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