Notas desconfiadas

Como previsto, Dilma Rousseff bateu José Serra, com 12 pontos de diferença, e, mesmo que não tenha tido a vitória que imaginou, esta se explica pelo motivo trivial, o sucesso socioeconômico do governo Lula. O resto, como diria o adversário, é trololó. Mesmo assim, é recomendável que a nova presidente (presidenta? Alguém aí usa "gerenta"?) não se iluda com pesquisas de popularidade e, como Lula, parta do princípio de que estamos "quase lá", de que o povo está felizinho da silva. O único momento de vida real que apareceu nos seis meses de campanha foi só na última noite, no debate da TV Globo, em que o público perguntou com um senso crítico raro entre jornalistas sobre problemas graves de segurança, saúde e corrupção. Aprovação de governo nada mais é do que "minha vida melhorou um pouco nos últimos anos".

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2010 | 00h00

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É claro que há a propaganda oficial, feita de discursos oportunistas e pesquisas enviesadas, e o brasileiro em geral é muito suscetível a ela. Mas o denominador final é a situação concreta, cotidiana. Por exemplo: os políticos brasileiros gostam de dizer, como Dilma disse, que "Lula criou 14 milhões de empregos". Lula não criou nada, ou melhor, o governo é responsável por uma parte menor dessa geração de empregos dos últimos oito anos. Se o número é esse, foi gerado pela sociedade produtiva, pela economia de mercado. O fato, no entanto, é que o desemprego está abaixo de 7% do PIB e, por mais que a informalidade e a baixa qualidade sejam amazônicas, o que as pessoas veem no dia a dia são as oportunidades aparecendo. E, mesmo que a classe média não seja exatamente aquilo que diz o Ipea, a maioria está consumindo bem mais. Volto a afirmar: estamos vivendo o vigor do capitalismo. Quem diria.

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Dilma não é um poste. Sua imagem de boa gestora foi trabalhada para contrapor à de Serra, e em fevereiro de 2007 já ficou claro, ao menos para mim, que ela era a sucessora idealizada por Lula. Na entrevista coletiva depois da eleição, mostrou não só que tem maior familiaridade com os assuntos do que ele, mas também que sabe os defeitos de seu governo. Além de reafirmar o compromisso com câmbio flutuante, metas de inflação e superávit fiscal - aquilo que o PT tanto renegou até Lula ser eleito - , defendeu a liberdade de imprensa plena, o critério do mérito na máquina pública, a crítica ao apedrejamento da iraniana, etc. Obviamente falou tudo isso para agradar, pois vem tomando aulas do estilo "Zelig" de seu padrinho. Mas parece ter mais preparo e respeito ao cargo. No entanto, não tem um décimo de seu carisma e jogo de cintura.

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Quem é Dilma Rousseff? Ainda uma incógnita, não apenas porque treinada nos últimos anos para dizer - com Lula de ventríloquo - o que a faria ser eleita, mas também por seu currículo de burocrata, com passado guerrilheiro e depois brizolista, a passagem para o PT há pouco mais de uma década, o fato de nunca ter se candidatado, a rejeição ao modelo estatizante de Pinguelli Rosa para o setor energético e, agora, a confiança exagerada no modelo de partilha para a Petrobrás, etc. E sobretudo por suas ligações obscuras, por sua entourage suspeita. Por mais que Serra tenha se queimado com as revelações recentes sobre Paulo Preto, no loteamento do Dersa, e sobre licitações carimbadas, no caso do metrô, o que a turma chefiada por sua amiga Erenice Guerra fez na Casa Civil transcende qualquer comparação.

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Todo governante que assume, democraticamente eleito, merece um voto de confiança, um crédito, que nos EUA costuma ser os cem primeiros dias de governo. Mas também cabe um voto de desconfiança, ainda mais quando se trata de uma continuidade premiada. É difícil, enfim, confiar que Dilma vá cumprir a palavra de austeridade que tem transmitido. Escrevi no começo do governo Lula que o PT tinha um projeto de poder, mais que um projeto de país, e isso ficou tão cristalino ao longo dos dois mandatos que a frase "os políticos são todos iguais" se tornou uma platitude irrestrita. O loteamento do Estado tem sido uma constante desde as capitanias hereditárias e da família Orleans e Bragança; no caso atual, porém, vem justificada porque faria bem aos pobres, aos quais o Estado protegeria mais que prejudicaria. Mentira. Ou Dilma combate a fisiologia ou, como sabe, ela mina seu governo. Chega de Erenices!

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A desconfiança ganhou mais um apoio na mesma entrevista, quando, ensaiadamente, Lula citou a vontade de ver renascer a CPMF - mais uma de suas imitações do tucanato - e Dilma em seguida botou a culpa nos governadores, que de fato a querem de volta. Durante a campanha, disse que era a favor da redução da carga tributária; nem assumiu o governo e, para variar, vai fazer o contrário do prometido? Ela também afirmou que pretende descer para 2% ao ano a taxa de juros oficial (da taxa real, 4% a 11% ao mês, ninguém fala nada), provavelmente preocupada com a desvalorização do dólar, mas esquece o chamado "custo Brasil", como se o BNDES tivesse dinheiro para zerá-lo. E ela mandou muito mal quando afirmou que suas prioridades seriam segurança e saúde pois "a educação já está encaminhada". Encaminhada para onde? Na mesma semana, o Brasil apareceu em lugar vergonhoso no IDH que inclui a questão (capital) da desigualdade regional, sobretudo por causa do item educação...

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É por isso tudo que discordo dos analistas que dizem que o "lulismo" é um marco na história brasileira equivalente ao getulismo, um padrão do qual os futuros governantes terão dificuldade em escapar. Acho que a história olhará para estes últimos 15 ou 20 anos como uma etapa quase contínua, de consolidação da democracia, estabilidade econômica, avanços sociais - em suma, de uma social-democracia à moda da casa. Mas grandes oportunidades se perderam, porque reformas não foram feitas, e pelo jeito o novo salto não virá tão cedo. Cabe à sociedade gerar outras lideranças, menos presas ao espírito dos anos 60, e parar de se contentar apenas com melhoras lentas e nem sempre consistentes, que não mexem na estrutura oligárquica do poder. O maior vencedor, mais uma vez, foi o conservadorismo.

América, América. A política é injusta. Veja um presidente como Barack Obama, que enfrentou preconceitos e se elegeu por seus méritos de formação e discurso, por ter abandonado o beco populista dos ditos "liberais". Ele cumpriu uma parte relevante de suas promessas, como na reforma da saúde, na regulamentação financeira, na saída do Iraque, na retomada científica. Mas enfrentou e enfrenta uma crise econômica séria; ajudou a evitar a recessão, mas não o aumento do desemprego.

É claro que cometeu erros, inclusive de retórica, pois já não comove seus eleitores nem convence seus opositores; e sem corte de gastos públicos não há solução a longo prazo. Mas Obama está sobretudo pagando o preço da má fase econômica e das próprias expectativas que seu fenômeno criou. Por mais personalista que seja nossa era de mídia e celebridades, um homem sozinho jamais muda o destino de uma nação. Se tudo vai bem, até políticos inferiores se tornam populares. Maquiavel sabia das coisas.

Cadernos do cinema. Arnaldo Jabor levou tudo que lhe é mais caro para A Suprema Felicidade, numa curiosa mistura: o cinema de Fellini, os standards americanos e a malandragem carioca. A mistura nem sempre flui bem, mas ninguém pode acusá-lo de não ter sido fiel a si mesmo. Só Jabor faria aquilo, com um tom que às vezes parece delirante, em outros não passa de simples crônica memorialística. Um filme tão desabrido, no entanto, deu margem para que fosse criticado justamente por esse registro: houve quem dissesse que Jabor nem deveria fazer cinema, por ressentimentos pessoais ou políticos. A crítica no Brasil continua na Idade da Pedra, dividida em tribos inimigas.

Gostei de cenas isoladas, de alguns achados, inclusive os assumidamente kitsch, como a bela menina virgem dançando para os clientes, a morte "grandguignol" da prostituta na varanda, as tomadas do céu estrelado. E gostei de algumas atuações, sobretudo a de Marco Nanini, como o avô boêmio, que diz que quando muito se pode ser alegre, não feliz, e que a vida gosta de quem gosta dela. Mas há irregularidade nas atuações, algumas muito exageradas, muito dramáticas para um filme que se pretende leve; não vemos o mesmo cuidado de produção do cinema brasileiro recente, o que em parte pode explicar o público reduzido; e algumas cenas, como a do casarão mal assombrado, são longas demais e mal encaixadas. Faltou Jabor encontrar o "correlato objetivo" de sua viagem ao passado, para que também nos vejamos ali.

Por que não me ufano. A saga da reforma continua. Outro capítulo bizarro é o das novas tomadas. Como se sabe, as autoridades definiram um novo desenho, feito de três furos esféricos, e a partir de agora todo mundo vai precisar adotá-lo. Acontece que você vai às lojas procurar adaptadores para ligar os aparelhos que já tem às novas tomadas e quase não encontra. No caso dos adaptadores para 20 amperes, ideais para aparelhos como forno de micro-ondas e lava-roupas, você simplesmente não os encontra em lugar nenhum. Isso sem falar que ninguém sabe se o furo central deve ficar acima ou abaixo dos outros dois. E por que não adotaram uma tomada universal ou, ao menos, adotada em diversos países, em vez de criar uma "original"?

Imagino que seja pela mesma razão que fazem acordos ortográficos que não ajudam em nada a aproximar os povos do mesmo idioma. Para vender. Só pode ser.

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