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Notas de uma magra trincheira

As manifestações, cujo término eu espero que seja o voto contra tudo isso que aí está nas eleições, têm arcabouços bem marcados. Não estamos mais diante de um movimento milenarista embandeirado nas chamadas "grandes ideias" que carimbaram o século 19 e pariram pogroms, holocausto, duas guerras mundiais e ditaduras no século 20, mas diante de um protesto pelo bom senso. Assistimos a uma convocação em rede para propor um novo estilo de governar.

ROBERTO DAMATTA, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2013 | 02h21

O verdadeiro significado de um mundo em rede não é o seu lado formal, como enfatizam alguns dos seus teóricos, mas é o que as redes circulam como drama sem o teste dos preconceitos. Sobretudo dos tabus teóricos, segundo os quais uma coisa deve vir depois da outra. Mentira. O movimento mostra como coisas aparentemente pequenas servem de texto para grandes causas. A realidade de um mundo conectado não é a rede, é a impossibilidade de profetizar o futuro ao lado da certeza de que a política exige honradez para ser praticada. A rede somente revela que suportar a vida continua a ser - como dizia Freud - o primeiro dever dos vivos.

O que o povo quer é ônibus confiável e barato, se possível, gratuito; menos corrupção, segurança, saúde e educação. Ora, esse é o programa dos partidos no poder e, no entanto, é essa demanda que forma o centro das manifestações.

O que há de novo? Primeiro, como observa Elio Gaspari, a ausência dos famosos, dos santos e dos que sabem tudo. As passeatas, que se alastram como um carnaval cívico, não são englobadas por nenhuma organização poderosa: governo, partido político, sindicato, MST, movimento estudantil ou algum grupo cósmico religioso clamando pelo fim do preconceito de gênero, do sofrimento ou do pecado. O que temos visto é a reunião na rua (não num palácio, universidade, assembleia e fórum político) de milhares de miniprotestos, os quais, mesmo quando escritos em linguagem pitoresca, falam de coisas práticas e são apresentados individualmente.

Há uma recusa significativa aos partidos políticos, justamente porque eles são o sinal do imobilismo e do enriquecimento em nome da mudança. O movimento traz à tona lugares-comuns esquecidos pelos políticos no poder (e hoje, com a tal coalizão, só há uma minoria fora dele). A manifestação não é um manifesto contra a democracia liberal, mas ao estilo de como essa democracia tem se concretizado no Brasil. Ela denuncia a ausência de encontro da sociedade com o governo. Governo que, no Brasil de Lula e Dilma, tem sido muito mais um instrumento de aristocratização do que de resolução de problemas o próprio sucesso que o sistema tem apresentando como o do poder de compra e da estabilidade monetária.

O bom senso não tem partido. Ele é uma simples conta de chegar entre meios e fins. Não se impede uma guerra com missas, do mesmo modo que não bastam leis, políticas públicas de redistribuição de renda e instituições, pois é preciso honestidade e motivação para fazê-las funcionar e, assim, torná-las um instrumento da sociedade como um todo. Não adianta uma Constituição inspirada na gloriosa França da Bastilha sem franceses para colocá-la em prática! Por isso, o bom senso faz parte das rotinas democráticas, conforme viu Tocqueville. Segurança, educação, transporte confiável e cumprimento de promessas feitas pelo próprio governo petista que está - eis um ponto implicitamente lembrado pelos manifestantes - no poder e governa o Brasil. Não há mais como eleger um bode expiatório para incompetências (inflação, desmantelamento da Petrobrás), escândalos, mensalão sem desfecho; obras superfaturadas de toda ordem, bem como os elos espúrios e entre grandes empresários e políticos. De PECs que visam claramente a castrar o poder de apuração do povo, ampliando a zona cinzenta de uma intolerável impunidade, etc., etc., etc...

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Quando uma coisa tão básica como a rua sai de sua função normal de trânsito entre o lar e o trabalho, percebemos a gravidade do problema. Ao lado da passeata, houve vandalismo. Mas, pergunto eu com meus companheiros de trincheiras magras, Jorge Moreno e Luiz Werneck Vianna, quem atirou a primeira pedra? Quem disse que o "bicho ia pegar?" Quem errou ao mudar a data do Bolsa-Família, levando milhares aos balcões da Caixa Econômica Federal no bojo do boato de que o benefício ia acabar ou, pelo contrário - e isso não pode ser suprimido -, ia ser dado em dobro? A quem interessa impedir a criação de novos partidos e tem feito tudo para que eles sejam legalmente sufocados?

O que ocorreu com o 1,3 milhão de votos no sentido de impedir a posse do atual presidente do Senado? Como lembra Jorge Moreno, 1.2 milhão saiu às ruas, mas quem jogou os votos legais na lata do lixo?

Quem vandaliza? Eis o que não pode calar se quisermos ter um mínimo de sinceridade quando, antes de dormir, nos olhamos no espelho. Quem, afinal de contas, tem, como perguntou outro dia Dora Kramer, a faca e o queijo na mão?

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Queridos leitores: certo de que o Brasil vai melhorar, volto a escrever na primeira quarta-feira de agosto.

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