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Notas de um bolsista

O contraste entre filantropia e caridade até hoje martela a minha cabeça

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 03h00

“O Brasil tem ricos, mas não tem filantropos”, disse-me, em 1963, Richard Moneygrand, num seminário sobre o Brasil realizado no Departamento de Relações Sociais em Harvard. 

“Vocês fazem a boa e confortável caridade, culpam e responsabilizam o Estado, salvando e inocentando os ricos.” Afirmou o jovem pesquisador que viria a ser meu mentor e amigo. 

O contraste entre filantropia e caridade até hoje martela a minha cabeça. Sobretudo neste clima de fim de mundo em que vivemos. Ao irracionalismo dominante, uma epidêmica corrupção e a crise climática, soma-se o imprevisto de uma pandemia. Inesperadamente, um bichinho invisível contamina o planeta e paralisa um suposto triunfo do capitalismo. 

Enquanto espero o altruísmo nacional, rememoro sobre como o inesperado da filantropia me levou de Niterói a Harvard. Uso, pedindo vênia, o meu trajeto na esperança de que essa experiência faça como o vírus: que contagie os muitos ricos no gosto de criar bolsas de estudo – essas bolsas que jamais despencam. E sem as quais não se humaniza o primitivismo das ganâncias financeiras.

*

Fui o primeiro da minha família a sair do País, quando David Maybury-Lewis me convidou para estudar em Harvard devido ao trabalho de campo que realizei entre os nativos apinajés, em 1962. Entrei como “estudante especial” e foi o meu inesperado desempenho que me tornou candidato ao doutoramento – o tal Ph.D. 

Harvard, porém, era longe e uma outra complicação era o fato de ser antropólogo e funcionário público. O pesquisador era livre, mas o funcionário tinha de ter uma licença para estudar numa escola que era a mais antiga e respeitada dos Estados Unidos. Um contato com Darcy Ribeiro, chefe da Casa Civil de Jango Goulart, licenciou-me, driblando um estúpido paradoxo burocrático. As passagens para minha mulher e filho foram pagas com o meu parco salário do museu, enquanto a Comissão Fulbright – eis outro inesperado – bancou o meu bilhete. 

Minha estada e a dispendiosa matrícula em Harvard foram patrocinadas pelo projeto dirigido por Maybury-Lewis. A bolsa era pequena, mas com ela eu tinha mais folga do que com o meu salário de professor-assistente num Brasil politicamente polarizado, o qual – eu estava convencido – iria realizar a sua revolução socialista.

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Sou um eterno devedor do brasileiríssimo Conselho Nacional de Pesquisa, mas não teria terminado o meu doutorado não fosse uma bolsa da Fundação Ford. Em 1968, pedi timidamente 500 dólares para o semestre e, por algum engano, recebi essa quantia mensalmente. Além de inesperados, os milagres também chegam na forma de mal-entendidos. 

Quando focalizei o protagonismo político das relações sociais na política nacional, Thomas Skidmore, um pioneiro brasilianista, convidou-me para ser professor-visitante na Universidade de Wisconsin, em Madison, graças à generosidade da Tinker Foundation. Naquele ano de 1979, meus filhos aprenderam inglês, tive dinheiro no banco e, de quebra, comprei uma máquina de escrever elétrica.

A filantrópica Tinker me recordou um outro auxílio agraciado pelo Milton Fund da Harvard, o qual possibilitou um verão tranquilo a um jovem doutorando com mulher e três filhinhos, além de uma sobra gasta num gravador no qual ele registrou inúmeros textos do povo apinajé, colecionando um material que, tem ele fé, seja preservado já que o Museu Nacional se acabou num incêndio.

Bolsas do Conselho de Pesquisas em Ciências Sociais dos Estados Unidos e da Fundação Gulbenkian ajudaram numa pesquisa em Portugal. E a fundação Guggenheim foi fundamental quando tentei compreender o que o carnaval dizia do Brasil. 

Sem esses estipêndios obtidos competitivamente, sem essas criaturas cuja consciência de reciprocidade fez com que seus imensos ganhos retornassem na forma de educação e vida intelectual às universidades nas quais aprenderem seus ofícios, uma multidão de pessoas permaneceria vítima da ignorância, esse mal ao qual a Humanidade foi condenada. 

A caridade é gloriosa – afinal, ela é um empréstimo que os ricos fazem a Deus. A filantropia é mais modesta: ela contempla o mundo e tenta enxugar as suas lágrimas. 

*É HISTORIADOR E ANTROPÓLOGO SOCIAL, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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