Arquivo Pessoal
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Notas da solidão

Cesar Mariano faz seu maior número solo ao vasculhar as memórias para lançá-las em livro e em shows

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2011 | 00h00

O piano sempre esteve ali desafiador, misterioso, de dar arrepios. Quando o inquilino caladão Johnny Alf chegou para tocá-lo, as paredes tremeram. Wilson Simonal e Elis Regina, mais tarde, deitaram e sambaram sobre seus timbres. Aos 54 anos de carreira, vivendo nos Estados Unidos com a família, Cesar Camargo Mariano tem cem histórias para cada tecla de seu instrumento. Memórias que lança agora no livro Solo, com três shows no Sesc Vila Mariana, de sexta a domingo, e uma exposição de desenhos, tudo interligado. As músicas e as ilustrações foram criados enquanto revivia um passado que, pela primeira vez, decide contar de próprio punho.

Quer dizer que, aos 14 anos, pegaram você para dublê de Nat King Cole em um comercial de TV?

Um pouco antes de Nat King Cole vir ao Brasil, trazido pela TV Record para uma série de concertos, eu estava com minha mãe em uma festinha de aniversário. Comecei a tocar piano e um diretor da agência de publicidade que estava fazendo a campanha sobre a vinda de Nat ao Brasil veio falar comigo e me convidou para eu fazer uns comerciais. Eu fiquei quase dois meses indo todos os dias na Record. Eles pintaram meus braços e minhas mãos de preto e eu ficava tocando como Nat King Cole para alguém falar "adivinhem quem vai chegar?". E o barato é que eu não aparecia, não diziam meu nome, não diziam que eu era um garoto de 15 anos, não diziam nada. Quando Nat chegou ao Othon Palace, ligou a televisão e me viu no comercial. Contaram que eu era um garoto e ele quis me conhecer. Não consegui vê-lo, a segurança dele me barrou.

E em um belo dia, ainda garoto, chega um homem de mala e cuia para morar na sua casa...

Johnny Alf. Ele chegou para passar uns dia e ficou oito anos. Ele foi uma referência silenciosa, até porque nunca foi de falar muito. Ele estava vivendo ali, sentava ao piano, escrevia, compunha, lia sobre cinema, mas não tinha a postura de professor. Às vezes eu sentava ao piano e ele não dava a menor bola.

Chegou a pensar que ele poderia não ir com a sua cara?

Sim, isso naquela cabeça de moleque. Poxa, eu sentava ao piano e ele saía para a cozinha! A impressão que tenho hoje é de que ele fazia isso para me desafiar, para eu sempre fazer melhor amanhã. E quando chegava amanhã, eu tocava e ele também não ouvia (risos). Eu tinha sempre que melhorar.

Engraçado que você, arranjador, produtor renomado, acompanhante de grandes artistas, surge na turma dos músicos de jazz que não gostava nada de cantores...

A gente chamava pejorativamente cantor de "canário". "Canário aqui não tem vez." E então eu sou apresentado à Claudette Soares, que era chamada de "a princesinha do baião". E pensar que era uma daquelas que começava a cantar e eu desligava o rádio. Ela cantou Garota de Ipanema dando uma canja e eu caí pra trás.

Pode-se dizer que a paixão que levou você e Elis a se unirem surge de suas afinidades musicais?

Poxa, isso daria um bom papo com o analista (risos). Pode até ser... Mesmo porque a gente começou a namorar duas semanas depois de estrear o primeiro show que eu fiz com ela no Teatro da Praia. Acho que você tem razão.

Aliás, só para tirar a limpo: no começo de tudo, Elis coloca um bilhete em seu bolso durante uma festa dizendo que está interessada em você. Você vai para o banheiro sozinho e, desesperado, foge pela janela... É isso mesmo ou é lenda?

(Risos) É isso mesmo (risos). Imagine, eu levei uma cacetada, um susto incrível. Fiquei com vergonha de voltar para a sala e fugi pela janela do banheiro. Entrei no carro e desapareci. E aí ela ficou preocupada, falou: "Perdi o pianista e o futuro namorado". A gente tinha uma gravação do primeiro disco que fiz com ela e, por coincidência, para arrasar mais os corações, a primeira música que íamos gravar era Atrás da Porta (de Chico Buarque). Essa gravação estava marcada para a quarta-feira, às 14h. E a história do bilhete foi na segunda, dois dias antes. Eu sumi, desapareci.

E o que foi aquilo?

Ah, não sei rapaz, timidez, pavor. Mas na quarta foi muito engraçado. Apareci para gravar como estava marcado e já estava lá o pianista Antonio Adolfo, já escalado para tocar no meu lugar. Ele lembra disso até hoje. Depois que sumi ela foi ao Antônio e falou: "Olha, acho que pedi o pianista, o cara ficou louco e sumiu." E eu cheguei lá com aquela cara (risos).

E o que você fez nos dois dias em que esteve sumido?

Fiquei dentro do carro, parado, um dia e meio pensando. Eu era casado, cara!

O assunto entre vocês era música o tempo todo?

Até hoje é assim, com minha atual família. A gente só fala nisso aqui em casa. Olha, a maior surpresa que tive na minha vida - caramba, infelizmente isso não está no livro, eu vou escrever outro - foi quando um grande amigo meu, Dick Farney, chegou um dia pra mim e falou: "Parei". Eu falei: "Parou? Não vai mais tocar naquela casa?" E ele: "Não, parei na vida, não aguento mais tocar. O piano pra mim virou uma máquina de escrever. Eu vou me aposentar". Ele continuou falando e eu continuei chorando. Não acreditava naquilo. Parar de tocar! Não consigo me ver sem música.

Como vocês reagiam ao surgimento da Jovem Guarda?

Existia uma grande preocupação de achar lugar pra todo mundo. Agora, se vamos tocar com o Roberto Carlos? Não, não sei tocar aquilo, não faz parte do meu mundo. Vão chamar o Roberto para o programa O Fino da Bossa? Não, ele não faz parte daquele universo. As pessoas pensavam que era briga, mas não era, nem preconceito. Botar Beatles no meio disso não funciona, não rende. E isso não era contra ninguém, a gente só queria garantir espaço para todo mundo. Se a televisão resolveu cancelar certos programas para investir mais dinheiro em outros programas, a gente brigava porque tem que ter lugar para todo mundo. Então sai Roberto e Elis para entrar Chitãozinho e Xororó? Como sai? Os meios de divulgação não querem mais os que estavam lá porque tem alguém novo que vende mais? É isso que deixava a gente puto. Você está sendo burro, se aquele cara continua vendendo e esse que apareceu vende bem, coloca os dois para vender.

E como você compõe?

É um trabalho solitário. Tão solitário que às vezes dá até desespero por não ter alguém ao seu lado para conversar sobre aquilo que está fazendo. Uma vez o Tom Jobim entrou na casa do Villa-Lobos e havia lá panela de pressão fazendo barulho, aspirador de pó, papagaio, crianças, e o Villa compondo ao lado do piano. Jobim quis saber como ele conseguia se concentrar ali e ele respondeu que o ouvido de dentro não tem nada a ver com o ouvido de fora. É isso. Não tem como dividir isso com ninguém. Eu tenho um respeito muito grande por essa solidão. Você nem ninguém no mundo vai conseguir fazer com que eu sente para tocar piano de bermuda. Eu tomo banho, arrumo o cabelo, coloco calça, roupa certinha e vou tocar piano.

Mesmo em casa?

Sim, mesmo na minha casa. Parece loucura, mas é respeito, como se eu estivesse indo celebrar alguma coisa, algo enlevado. É quando você vai expor seu interior. Rapaz, quando eu estava escrevendo este livro de memórias, percebi que era assim também. O sentimento era o mesmo, a sensação era a mesma. Eu tinha que fazer uma viagem lá pra trás. Foi difícil, emocional, dolorido, tão forte quanto sentar e compor.

SOLO - MEMÓRIAS DE CESAR CAMARGO MARIANO

Editora: Leya (496 págs., R$ 54,90, nas lojas, a partir de 5/9).

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