NOSTALGIA NOVENTISTA

Entre a 1ª geração de fãs dos anos 90 e uma nova leva de seguidores, o Cake promete brilhar no Lollapalooza

BOLÍVAR TORRES , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2013 | 02h12

Se você foi adolescente na segunda metade dos anos 90, certamente se lembra de uma banda californiana assombrando as rádios e festinhas de sua cidade. Na época, o rock independente ainda não havia se difundido pela internet, e aquela música exibia uma sonoridade diferente do que se costumava ouvir nos meios tradicionais por aqui: não se encaixava nem no mainstream nem no experimental. Seu vocalista separava as sílabas como num rap, e os solos estranhos de um trompete dialogava, em quase todas as faixas, com riffs marotos de guitarra. Não satisfeitos em abalarem as paradas com um cover excêntrico de I Will Survive, o hino gay de Gloria Gaynor, ainda rechearam as letras com muitos palavrões (devidamente editados na versão radiofônica, é claro). Apesar do estranhamento - ou por causa dele - o som atípico do Cake marcou uma geração.

A presença do líder John McCrea e sua gangue na abertura do Lollapalooza, dia 29, será responsável por trazer um pouco de nostalgia ao público de trintões e quarentões do festival. Mas não só: vale lembrar que depois de um hiato de seis anos sem gravar, o grupo voltou em 2011 com um álbum autoproduzido, Showroom of compassion, conseguindo atrair também fãs mais jovens. Alguns deles sequer nascidos quando a banda ensaiou seus primeiros passos, em 1991.

"Sempre que lançamos um novo disco e partimos em turnê, notamos que o nosso público está cada vez mais misto: há os mais velhos que nos acompanham desde o início e uma garotada que nos descobriu agora", conta McCrea, em entrevista por telefone. "Outro dia vimos gente muita jovem na plateia, talvez até jovem demais..." McCrea ri com aquele desprendimento cool que caracteriza seus vocais, e logo se corrige: "Não, estou brincando. Tinham idade suficiente... Mas gosto da ideia que nossa música tenha um espírito inclusivo. Outras bandas preferem ser mais exclusivas, voltam-se para apenas um alvo específico. Nós não."

O que leva Cake a unir gerações tão diferentes? Sem dúvida, sua diversidade musical. Desde o primeiro álbum, a banda criou um 'melting pot' sonoro, cosmopolita como sua Sacramento natal, no qual o universo Mariachi convive em harmonia com o folclore persa e a tradição pop americana. As canções cruzam com naturalidade ritmos como ska, rock, disco, country e hip hop. "Sou do tipo de pessoa que se entedia muito fácil, não consigo ficar escutando o mesmo tipo de rock o tempo todo", admite o cantor. "Não consigo sequer escutar um álbum inteiro da mesma banda, preciso fazer mixtapes com bandas diferentes. É a maneira que eu experimento música e isso acaba se refletindo nas nossas composições."

Assim como suas mixtapes, McCrea vai pulando rapidamente de um assunto a outro. A conversa flui entre composição, política e indústria musical, sem que em nenhum momento o entrevistado assuma pose de rockstar. Em um instante fala sobre sua admiração por Tom Zé ("um raro exemplo de compositor capaz de combinar inovação com melodias para cantar no chuveiro", segundo McCrae) e logo em seguida já está divagando sobre a situação do meio ambiente, um dos temas que mais preocupam a banda nos últimos anos (seu último álbum foi gravado num estúdio abastecido inteiramente com energia solar e durante cada show alguém no público recebe uma árvore para plantar).

Contudo, não há assunto que mais fascine McCrae do que independência artística. O lema da banda sempre foi "Faça você mesmo", produzindo seus próprios álbuns, desenhando suas próprias capas e camisetas e dirigindo seus próprios clipes - uma filosofia que continuou adotando mesmo depois de passar para uma grande gravadora.

Graças a esse espírito, o Cake teve o privilégio de fugir das limitações estéticas impostas pela indústria. "Como conseguimos nossos primeiros sucessos com um disco independente, os executivos foram espertos o suficiente para não irem ao estúdio nos incomodar. Nesse sentido, tínhamos mais liberdade do que a maioria das outras bandas. Mas isso não significa que nunca tivemos problemas..."

Desde que abriram seu próprio selo, porém, a busca pela autonomia se radicalizou. "Foi a razão para ficarmos tanto tempo sem gravar", justifica. "Agora, além de compor, temos que responder milhares de e-mails, pensar em distribuição... Hoje somos artistas, mas também homens de negócios. Num mundo perfeito, eu não faria isso, mas a verdade é que não confiamos em nenhuma outra pessoa para tocar os rumos da banda."

Na estrada há mais de vinte anos, McCrea diz que sempre torceu por longevidade, mas admite que nem sempre acreditou que chegaria tão longe. "Nesse meio tempo, vimos tantas bandas estourando, ficarem gigantes e um minuto depois desaparecerem da face da terra... E bandas talentosas, com pessoas batalhadoras. É interessante esse apetite da indústria, que faz as pessoas consumirem e jogarem fora uma banda com tanta rapidez. No cenário atual, onde quem ganha são os sites e não os artistas, um número enorme de músicos americanos tiveram que abandonar a profissão. Quem sabe em breve não seremos nós?"

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