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Nostalgia

Doutor, o homem da 'ciclopédia' tá na porta.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2013 | 02h11

Ouvia a sola de borracha dos sapatos Vulcabrás cruzando apressados o corredor para a sala de visitas, onde o homem já estava instalado no sofá meio puído. O nome a gente não lembrava, afinal, mais do que um Francisco ou um João, ele era o homem da Britannica. Meu corpo franzino ficava tenso. Por que a chegada do homem plantava gotinhas de suor na testa do meu pai?

Porque o valor das 24 prestações era assustador para um médico funcionário público que tivera cinco filhos. Porque o vendedor não ia embora nunca sem arrancar a assinatura do meu pai, vencido por seu horror a confronto, envergonhado por não ganhar melhor. O ritual se repetia a cada três ou quatro anos, quando o homem voltava para nos convencer de que a família precisava de uma Britannica zero quilômetro. Nunca tivemos a nova edição de um carro, meu pai comprou seu primeiro automóvel aos 70 anos. Mas a nossa Britannica, de tempos em tempos, era zero quilômetro e a estante ocupava lugar de destaque maior do que o da cristaleira.

Quando uma edição comemorativa trouxe como bônus a réplica da primeira Enciclopédia Britannica, só faltou vestirmos roupa melhor para abrir a caixa. Eram apenas três volumes que haviam sido publicados em série, entre 1768 e 1771, como Um Novo e Completo Dicionário de Artes e Ciências. O nervosismo com a nova dívida contraída foi combatido com longas sessões de assombro diante da clareza da cultura científica estampada nas páginas artificialmente amareladas. "Leia o verbete Brasil, com 's'!", dizia o meu pai, mantendo a TV desligada. Eu obedecia, não porque estivesse fascinada com o inglês arcaico, descrevendo a colônia "de onde sua majestade portuguesa tira uma renda muito considerável". Se o orçamento da casa tinha de ser apertado para acomodar uma coleção de livros que raramente resolviam minhas dúvidas nos trabalhos de escola, havia ali um valor transcendente, estampado na expressão paterna e era preciso demonstrar apreço pela aquisição.

Acabo de me dar conta, pela primeira vez, de que a réplica da Britannica do século 18 repousa hoje próxima a uma cristaleira na minha sala de jantar. Faço refeições olhando para ela. Continuo não consultando a enciclopédia.

O prefácio começa assim:

"Utilidade deve ser a principal intenção de toda publicação. Onde esta intenção não aparece com clareza, nem os livros nem os autores terão o menor direito à aprovação da espécie humana".

O princípio, expresso por autores impregnados do Iluminismo, reunidos para compilar o conhecimento humano naquele século, não me perturba. Não abro mão da presença dos volumes que perderam a função utilitária. Mas não a sua relevância. Se a sua noção do proveitoso abraça mais do que um abridor de garrafas ou um caixa automático, o leitor há de entender por que a enciclopédia continua lá.

Esta semana assisti, pela enésima vez, a Maridos e Esposas, de Woody Allen. A reação angustiada de Gabe, vivido pelo diretor, me chamou mais atenção do que de costume: "Mudança é igual à morte", proclama ele, ao ouvir Mia Farrow se queixar da mesmice do casamento, quando, na verdade, está mais do que pronta para cair fora. Mudança não é igual à morte, naturalmente, mas o protesto do personagem Gabe soa cada vez mais sensato. Ele não defende a volta a um tempo em que não existia penicilina. Mas mudança pode ser a morte do que nos é caro. E a morte do que nos é caro, a despeito de ser ou não inevitável, só pode ser enfrentada com luto.

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