Nostalgia de um futebol menos mercantilizado

Análise: Luiz Zanin Oricchio

15 de abril de 2013 | 14h17

Por que, no mundo do futebol hiper profissional, o futebol de várzea continua a nos seduzir?

Talvez porque nos remeta, nas sombras do nosso inconsciente coletivo esportivo, a uma época de amadorismo romântico que, na prática, nem a própria várzea ainda mantém.

O termo, talvez seja caso de recordar, remete ao jogo praticado nas várzeas dos rios, em especial do Tietê e do Tamanduateí. Lugares desabitados, um tanto insalubres, onde se delineavam os campos nos quais a moçada se divertia.

Esses campos foram se multiplicando pela cidade à medida que o esporte se tornava popular. Jogava-se bola em qualquer canto e não apenas nas várzeas. Onde houvesse um terreno baldio, montavam-se traves improvisadas, arranjava-se uma bola e o futebol era praticado. Em falta de campo, jogava-se nas ruas, nas praias, no fundo das casas, onde fosse possível. Essa versatilidade refletia a paixão brasileira pelo jogo da bola.

A nostalgia da várzea, penso, recapitula em nossas cabeças a página mais bonita da aclimatação do chamado esporte bretão no Brasil. Trazido por um filho de ingleses, Charles Miller, o futebol, de início, foi esporte de elite. Negros não jogavam. Brancos pobres também não tinham acesso aos clubes fechados onde era praticado.

Porém, o fascínio exercido pelo futebol logo começou a se exercer sobre o povo brasileiro - de todas as classes e raças. E, como em sua essência é um esporte democrático, pois não precisa de grandes recursos para ser jogado, logo começou a ser praticado por todos e em toda parte.

Os excluídos da primeira fase do futebol, incluíram-se e começaram a jogar. Ocuparam campos, colocaram traves, fundaram clubes nos bairros. O povo humilde apropriou-se do esporte que o encantava. E seu meio de expressão eram os campos de várzea, instalados nas periferias (físicas ou simbólicas) das cidades. Nesses campinhos precários, depois engolidos pela especulação imobiliária, e não nos campos bem delineados da elite, nasceu a mágica escola brasileira de futebol - hoje em franca dissolução.

Além disso, as paixões humanas encenadas num jogo de futebol estão presentes tanto num campo de terra onde se afrontam dois bairros rivais quanto numa bilionária final de Champions League.

Como dizia Nelson Rodrigues - o brasileiro que com mais lucidez enxergou a essência do jogo - "a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeareana".

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