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Ignácio de Loyola Brandão
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Nosso bairro é um recanto especial

No ginásio e científico, em Araraquara, a hora do recreio estabelecia as classes sociais. Os coxinhas (então a palavra significava mesmo coxinha de galinha) iam direto ao misto quente do Hanai, a classe média buscava o cachorro quente do Oguri e remediados, como eu, consolavam-se com o pão com molho de tomate do Chafih. Os que iam a São Paulo voltavam falando de um hot-dog muito chique e diferente vendido na Augusta, rua dos playboys.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2016 | 02h00

Assim que cheguei aqui, corri ao Hot-Dog, lanchonete vizinha ao cine Paulista, esquina da Oscar Freire. O cinema que foi depredado pelos playboys quando exibiu Ao Balanço das Horas (Rock Around The Clock), com Bill Halley e seus cometas. Hot-Dog. Deliciei-me, achei linda a caixinha listada de vermelho que vinha com batatas fritas, secas. O Paulista também tinha as poltronas com listas em preto e branco. De qualquer modo, fiquei com essa história de cachorro quente na cabeça; até hoje, gosto e não perco festa infantil quando sei que tem mini hot-dog.

Assim, quando a noticia bombou, salivei. Roberta Sudbrack abriu o Suddog, espaço de cachorro quente na Vila Madalena. Estupefação. Afinal, uma das chefs mais sofisticadas do Brasil faz cachorro quente? Aquela Roberta que, chamada por Ruth Cardoso, deu requinte à cozinha do Planalto? A chefe que tem um restaurante excepcional no Jardim Botânico, Rio de janeiro? Pois é, já está fazendo na Vila Madalena, na Rua Girassol, junto a loja Uma.

Não me espantei. Conhecendo Roberta e sua vida e tendo inclusive escrito um caderno especial para o livro dela Eu Sou do Camarão Ensopadinho com Chuchu, posso dizer que essa mulher está fazendo um aceno ao seu início. Sabem como ela começou? Conto. Em Brasília, décadas passadas, pessoas comentavam, entusiasmadas: “Você já comeu o cachorro quente do Canil Quente & Cia?” Era um carrinho que ficava na entrada da 102 Sul, comandado por uma menina com olhos cor de mel. Mal sabiam que o cachorro quente da menina Roberta era apenas o começo. Intuitiva, ela se acumpliciava com os amigos: “Quer ganhar um hot-dog? Vá para os lados da universidade e estacione seu carro junto ao meu carrinho. Finja que é freguês”. As pessoas passavam, viam aquela fila, desciam para olhar, acabavam por experimentar o cachorro quente. Ficavam seduzidos.

Porque o pão, a Sudbrack convencia o padeiro a fazer à maneira dela; porque: “o pão é a alma do sanduíche”. A salsicha tinha sido escolhida no Rio Grande do Sul, terra dela, entre centenas que foram testadas e o molho vinha das panelas da avó Iracema, com quem ela vivia e que a criara. No auge, Roberta vendia 300 cachorros quentes por dia. Tudo de primeira, diferenciado. A batata que chegava ao freguês era fresca, crocante, comprada de madrugada no mercadão brasiliense. Nada de Ruffles plastificada.

Depois de uma temporada nos Estados Unidos, ela – a fim de sobreviver – começou fazer jantares em domicilio, até o dia em que, chamada por José Gregory, preparou um banquete para FHC, que encantou Ruth Cardoso. Vieram anos e anos no Planalto e, enfim, a abertura do próprio restaurante no Rio de Janeiro.

A Rua Girassol é quase vizinha e isso me lembra que, sobre comidas e sanduíches, por aqui estamos bem servidos. A cinquenta metros de casa, na João Moura, abriu-se uma portinhola com o letreiro, Underdog. Xi!!!, disseram, uma lanchonete que vai ser um pé sujo, confusão. Mordemos a língua, calamos a boca! Foi tudo diferente e percebemos pelo perfume intenso da carne que nos fascina quando passamos por ali. Começaram a vir jovens, as poucas mesas lotaram, um mundo de gente em pé, esperando e tomando cervejas artesanais. Tentei ir várias vezes, fracassei. Um dia, mal percebi que estavam colocando as mesas, corri, sentei-me, brinquei com a bela atendente cheia de piercings: ‘Gente da minha idade pode sentar aqui?” Ela sorriu: “quando quiser, chegue antes do meio dia ou pelas cinco e meia da tarde. Vale a pena”. O hambúrguer e as carnes ali não têm igual em questão de ponto, tempero, maciez, sabor. Qualquer dia, aposto que aquelas professoras universitárias aposentadas, que chamo de “as meninas da padaria”, estarão no Underdog. Este recanto João Moura, Artur de Azevedo, Lisboa, Cristiano Viana, nosso mundo, nosso bairro é uma delícia. O pão na chapa é na CPL; se viro a esquina, posso comer uma Vera Porchetta (dia desses falo dela), no bar Vianna. Bolo de banana com café é no pequenino Little Coffee Shop. O advogado Mariz de Oliveira vem enfrentar a Pasta e faggioli no Genova. Subindo um pouco, tem, na Oscar Freire, o Las Chicas, ao lado do Bonde Paulista, onde intelectuais da USP se reúnem aos domingos para comer pizza. E acreditam que, na Quitanda da chinesa Claudia, se faz compra de caderneta? Não somos Jardins, ainda que apenas a Rebouças nos separe. Mas é bem bom por aqui.

 

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