Nosso amor aos livros

NOVA JERSEY - Meu escritório fica em minha casa, e ultimamente meu filho de 6 anos começou a me visitar ali, explorando o quarto abarrotado e tirando livros das minhas estantes. Ele caminha pelo quarto apertando um volume contra o peito, ou se aboleta em minha poltrona segurando outro firmemente nos braços. Ele só está começando, da maneira mais rudimentar, a aprender a ler, e fica frustrado por não conseguir ler mais do que consegue. Acredito que ele procura compensar isso tentando extrair o conteúdo espiritual e intelectual dos livros de sua forma física. Povos primitivos encarnavam seus medos em estátuas, às quais rogavam para ser tratados com benevolência. Meu filho encarna seu amor em livros, aos quais suplica que permitam que ele penetre neles.

Lee Siegel, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h10

Às vezes, meu filho pressiona os lábios contra os livros ou cheira suas páginas. É cômico, tocante e absurdo. Em geral, eu me fecho no escritório, mas, na semana passada deixei a porta aberta. Ele acabou aparecendo, tirou da estante um velho exemplar empoeirado do Paraíso Perdido, de Milton, e começou a cheirá-lo. Desta vez, em lugar de prender o riso, eu o cheirei também. Numa encarnação anterior, aquele havia sido um livro de biblioteca. A biblioteca se desfizera dele muitos anos atrás, e eu o comprei num sebo. O cheiro pungente de livro velho, mofado, me remeteu à minha juventude em bibliotecas, onde me abrigava das tempestades da vida. Bibliotecas públicas não podem impedir que o mal do mundo atravesse suas portas, mas podem oferecer um santuário dos assuntos ordinários do mundo.

Quando eu era garoto, a biblioteca era um reino transformador. Era o lugar onde os dados concretos das circunstâncias materiais não podiam com o próprio privilégio rarefeito do local, que era o de habitar qualquer época, experiência ou vida que nos atraísse. A própria materialidade das cadeiras de madeira castanha, cuja superfície suavemente polida fazia nosso traseiro deslizar de um lado para outro, era uma refração cômica da promessa oferecida pelos livros que descansavam nas estantes, livros nos quais se podia deslizar para uma nova vida, após outra, e herdar um tesouro diferente de experiência, embutido em cada um.

Foi na biblioteca pública de minha cidade, e, depois, nas bibliotecas das escolas públicas e universidades que frequentei, que descobri a alquimia da biografia. Comecei com lendas dos esportes - Lou Gehrig, Babe Ruth, Jim Thorpe - e progredi para figuras históricas e literárias. Depois disso vieram livros sobre lugares. E, por último, as ficções e os poemas - todas as histórias criadas provam que algo de grande, duradouro e glorioso pode vir do nada.

Se eu fosse um certo tipo de escritor francês, diria que tomar emprestado e devolver um livro de biblioteca, só para ele ser emprestado e devolvido vezes sem conta, ad infinitum, tinha em si um instinto vital, uma liberdade de desejar não limitada pela rotina mundana de vender, comprar e conservar. Mas tendo nascido no Bronx, vou dizer de outra maneira: para garotos sem dinheiro, as bibliotecas públicas lhes confere momentos de graça.

Eu costumava ficar observando longamente os cartões de biblioteca que antes eram carimbados e enfiados em envelopes no interior da contracapa de um livro. Adorava olhar as datas. À medida que os anos passavam, a tinta ia mudando, e também a fonte em que apareciam. As datas nunca ficavam em linhas verticais precisas. Algumas ficavam inclinadas para um lado ou para o outro, algumas pairavam muito acima da data anterior, enquanto outras eram carimbadas sobre outra data - por erro ou pressa - de modo que mal se conseguia distinguir uma da outra. Eu gostava de imaginar como fora o "19 Março, 1952", como fora diferente do "18 Dezembro, 1968". Estaria chovendo naquele dia de março? Fazendo sol? Os alunos estariam gritando slogans fora da biblioteca naquele dia de dezembro? Quem a havia carimbado? Quem havia carregado o livro nos braços ou na bolsa escolar, pelo sol ou pela neve, para qual destino?

Daria para dizer que a biblioteca pública é tanto a essência de um livro quanto a essência da própria vida. Como um livro, os conteúdos da biblioteca pública pertencem a cada um, à sua própria maneira, mas não pertencem a ninguém. E como a vida, os livros que circulam - eu gosto da palavra, tirada do funcionamento do coração e dos pulmões - deixam cada pessoa que os lê a apenas um grau de separação de uma outra pessoa que também os lê. Percebe-se, numa biblioteca pública, onde livros são emprestados, experimentados e devolvidos, como o conhecimento está estreitamente relacionado ao cuidado e à preservação do que o amor e o desejo tornaram precioso.

Fiquei sentado por longo tempo com meu filho e seu Milton naquela poltrona gasta, mergulhado em minhas memórias daqueles primeiros encontros inocentes com livros de biblioteca. Eu o segurava com firmeza e ele agarrava seu livro, enquanto o sol se punha e o dia escurecia. Depois de alguns instantes, meu filho adormeceu e eu delicadamente retirei o livro de seus braços e li para mim alguns versos de Milton:

"Ah, por que deveria toda a humanidade,

Pelo erro de um homem, ser condenada,

Se não é culpada?"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.