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Nossa vida política...

“Ainda que frequentemente contando com homens de inteligência superior, nossa vida política é, em seu jogo diário, de um nível mental espantosamente medíocre. Mental... e moral. Há uma cansativa tristeza, um tédio infinito nesse joguinho miúdo de combinações através das quais se resolve o destino da pátria.”

Milton Hatoum, O Estado de S. Paulo

20 de maio de 2016 | 02h00

Escritas em 1949, essas frases de Rubem Braga se ajustam ao nosso tempo ou a qualquer período republicano. O título do artigo também vem a calhar: A Pantomima. Trata-se de uma crítica “ao longo governo de Getúlio Vargas, essa ditadura da mediocridade”.

Nossa democracia caricata tem algo da ditadura da mediocridade. O que vemos hoje? A mesma pantomima, o mesmo jogo diário, de um nível mental e moral espantosamente medíocre. E ainda: “A mesma inflação de subestadistas de bitola estreita nesse deserto de convicções”.

As duas décadas da última ditadura agravaram esse nível mental e moral espantosamente medíocre dos políticos. Luiza Erundina tem razão: o Congresso Nacional piorou muito, talvez seja o pior desde a volta da democracia. Vale lembrar que a maioria dos senadores e centenas de deputados tem alguma pendência judicial. Fizeram sua carreira política na obscuridade, pactuaram com o ex-chefão da Câmara, um “delinquente” que acaba de indicar dois aliados para ocupar postos importantes do governo interino. A deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP) está certíssima em pedir a suspensão de benefícios ao réu. Quando o STF irá prendê-lo? E quando afastará o presidente do Senado?

O atual ministério (que nada tem de notável) é a mais perfeita tradução de uma estrutura arcaica e viciada. Aliados de anteontem são opositores de hoje. Todos varões. E quase todos barões, velhos e jovens abençoados por pastores midiáticos e ultraconservadores. Políticos indiciados pela Lava Jato ganharam uma bênção depois da posse em ministérios: o foro privilegiado. Esta e outras aberrações só vão ser abolidas com uma verdadeira reforma política, que parece uma quimera.

Mesmo com a proteção divina, nenhum presidente pode governar com 28 partidos que lutam vorazmente por cargos e verbas. Por ironia, um dos homens fortes do ministério interino foi um dos mais fortes do governo Lula. É a vedete do mercado todo poderoso, deus dos novos tempos. Um deus cruel, nada misericordioso, que nesse tempo de profícua religiosidade lembra um pouco o poema de Drummond: “Deus, como entendê-lo? / Ele também não entende suas criaturas, / condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte”.

E, sem apelação, o Ministério da Cultura morreu. O presidente interino Michel Temer deveria refletir sobre essa fala de Mário de Andrade dirigida aos formandos do Conservatório Dramático e Musical, em 1935: “De uma proteção à cultura todos desconfiam porque ainda não se percebeu em nossa terra que a cultura é tão necessária quanto o pão, e que uma fome consolada jamais equilibrou nenhum ser e nem felicitou qualquer país. [...] E essa é a nossa mais dolorosa imoralidade cultural”.

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(Citado por Carlos Augusto Calil no livro ‘Me Esqueci de Mim, Sou Um Departamento de Cultura’, de Mário de Andrade. Imprensa Oficial/S. Paulo – Prefeitura de S. Paulo/Cultura. Organizadores Carlos Augusto Calil e Flávio Rodrigo Penteado)

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