Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

'Nossa elite não é sofisticada', diz estilista Reinaldo Lourenço

Estilista fala sobre sua nova coleção, inspirada no clima de Miami

Maria Rita Alonso, Especial para o Estado

21 de abril de 2019 | 03h00

Nunca diga nunca é uma máxima que se aplica perfeitamente bem à dinâmica da moda, na qual o que é brega hoje pode virar muito cool amanhã. Quem diria, por exemplo, que Reinaldo Lourenço, o estilista mais chique do Brasil, faria uma coleção toda inspirada em Miami? Pois ele fez e apresentará nesta segunda, 22, no Farol Santander, em seu desfile que marca a abertura da 47.ª edição do São Paulo Fashion Week – que vai até dia 26.

Fachadas de edifícios art déco estão estampadas em saias-envelope, enquanto longos de seda magníficos ganham nuances em degradê, lembrando o pôr do sol. Peças de alfaiataria em puro linho e a camisaria chiquérrima de algodão contrastam com a sensualidade do couro e dos vestidos moldados por argolas de metal.

Poucos estilistas nacionais conseguem desdobrar um conceito criativo em linhas paralelas usando materiais tão diferentes e refinados e atraindo estilos tão diversos de clientes. É raro ver um ateliê capaz de produzir moda com esse nível de sofisticação (a equipe de costura está ali há anos).

Detalhista, agitado e exigente, Reinaldo recebeu o Estado nos momentos finais dos preparativos para o desfile. “A moda hoje é produto. Nos anos 1980 e 90, a gente tinha mais chance de mostrar o talento artístico. Hoje as pessoas querem uma roupa que elas possam usar”, diz ele, que desenhou 280 modelos para esta temporada, e colocará 50 deles na passarela.

Sempre afiado, ele analisou a relevância dos desfiles e o uso ostensivo de logos. “Nossa elite se preocupa muito com grifes”, dispara. Lembrou ainda das modelos famosas e de outras épocas, revirando registros fotográficos e looks dos desfiles passados, catalogados recentemente por um pesquisador. Guardadas em uma sala do ateliê repousam, enfim, preciosidades da moda nacional.

Entrevista com Reinaldo Lourenço

Seu desfile marca a abertura desta edição da SPFW. Desfiles ainda são relevantes?

São sim! E isso não mudará tão cedo. O desfile é o ponto de partida de uma coleção, é a possibilidade de exibir a roupa em movimento. Há 20 anos, dizem que a alta-costura vai acabar. E ela não acabou, só se renovou. 

O que veremos de diferente amanhã no seu desfile?

O desfile será no Farol Santander, o antigo prédio do Banespa, que é lindo e tem tudo a ver com a coleção por ter uma arquitetura art déco. Vamos montar a passarela no hall, transformando o espaço no “Hotel Lourenço”. Serão 450 lugares estofados com sobras de tecidos de coleções passadas, em parceria com a Breton.

Sua nova coleção é inspirada em Miami. Como se deu o processo criativo?

Há 30 anos, não visitava Miami. Na verdade, tinha o maior preconceito. Mas, recentemente, fui até lá fazer um desfile e, quando olhei para a praia, senti uma energia tão leve. A luz de Miami é linda! Fui na Ocean Drive e fiquei desesperado, pensando: “Por que nunca vi isso com esses olhos?”.

A idade nos deixa menos preconceituosos?

Acho que me deixa mais aberto.

De que maneira esse encantamento pela cidade foi transferido para as roupas?

Como vou sempre a Paris e faço muita pesquisa de moda em antiquários famosos, decidi percorrer os brechós de Miami e descobri coisas maravilhosas, com uma outra estética. Lá tive várias ideias. Sempre gostei de degradê, por exemplo, e aí me deu vontade de usar esse recurso novamente, de investir nessa mistura meio mágica de cores. 

A moda está fora de moda?

Não está em seu melhor momento. As pessoas não têm mais a preocupação de usar o que é moda, o que é tendência. Elas usam o que gostam. E o Brasil nunca foi fashion na essência da palavra. Nossa elite, em geral, não é sofisticada. Ela se preocupa muito com grifes. 

Por que você não coloca logotipos nas bolsas que vende?

Não gosto, não consigo usar nada com logo estampado. Tenho vergonha. Existem outros jeitos de imprimir uma marca. 

Uma roupa tem que ser pensada para ser especial. Já existe muita roupa no mundo, as pessoas não aguentam mais tanta roupa. A gente tem de fazer uma moda que realmente traga algo novo, que encante.

Seguindo a lógica de peças especiais e duráveis, você aposta na moda sustentável?

Sou a favor de ter menos e melhores, mesmo porque a pessoa fica com mais estilo. Usando mais a mesma peça, ela reforça a imagem pessoal. Eu, como consumidor, prefiro investir em uma peça de qualidade a ter 10 mil coisas no armário. O fast fashion é insustentável. 

Quem são seus heróis na moda?

Gosto dos clássicos, tipo Chanel nos anos 1930, Saint Laurent nos anos 1970, Balenciaga e Dior nos anos 1950. Rei Kawakubo também admiro.

Você é um dos estilistas mais longevos do Brasil. Como se manter nesse mundo efêmero?

É preciso se informar. Eu viajo bastante, tenho um filho que mora fora e a curiosidade pelo novo está em mim. Ser jovem não significa ter um olhar jovem, isso vai da pessoa. A Marie Rucki, minha professora de estilismo, tem 80 anos e mantém um olhar muito jovem sobre tudo.

O que falta para o mercado de moda nacional evoluir?

Temos de melhorar nossa economia, diminuir essa taxa de desemprego assustadora. Os grandes mercados que consomem moda, como a China e a Índia, estão crescendo. No Brasil, só uma pequena elite pode consumir; isso é triste

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