Imagem Humberto Werneck
Colunista
Humberto Werneck
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Nossa Arca de Noé

Nem preciso dizer o quanto nos excitava o minueto erótico da cachorrada no quintal

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

03 de março de 2020 | 03h00

O primeiro bicho que tivemos lá em casa, que me lembre, foi um vira-lata esperto, o Tópi, de pelo liso e pintas grandes. Mas antes de ingressar no prontuário canino da família, peço licença para voltar à população alada de que me ocupei uma semana atrás, vasta ao ponto de não ter cabido no generoso espaço que me é reservado nesta página. Faltou falar de nossa coabitação com o papagaio – ou papagaios, provavelmente, pois não haveria louro longevo o bastante para ter atravessado décadas naquele poleiro, entretendo sucessivamente os 10 filhos da dona Wanda e do dr. Hugo, mais o primo João Carlos, que conosco viveu desde menino. 

Papagaios, portanto – todos eles trazidos por meu pai de suas expedições passarinheiras, a maioria delas, na minha infância ao menos, ambientadas numa lonjura farta em onças e serpentes, que chamava de “sertão” (corruptela de “desertão”, arriscava o dr. Hugo, tomando liberdades com a etimologia, segundo a qual é obscura a origem da palavra). Nossos papagaios vinham já falantes, o que explicaria o fato de um deles ter em seu vocabulário inconveniências do tipo “fedaputa”, que nenhum de nós, naquela casa impermeavelmente católica, tinha coragem de dizer em voz alta. 

Um dos louros, o Enéas, aprendeu ali a arremedar a Marisa, a cozinheira que chegou adolescente e que hoje, mãe de filhos criados, há muito pilotando fogão próprio, consideramos parte da família. Embora sem maiores pretensões didáticas, foi a Marisa, canora a mais não poder, quem lhe ensinou a cantar, com a fisionomia inexpressiva dos papagaios, uma canção aborrecida que me dá a impressão de ter sido composta expressamente para aquele intérprete: “Comprei um quilo de farinha/ pra fazer farofa,/ pra fazer farofa,/ pra fazer farofa fa...”. 

Além de cantar, o Enéas aprendeu a esganiçar, induzindo a patroa a erro: “Dona Wanda, telefone!”. Arremedava também a vovó Eponina, cujo quintal confinava com o nosso e que, quando tinha uma comunicação a fazer, costumava chegar-se ao muro e chamar a filha. O papagaio era um ser sensível, ou dado a fricotes, pois certa vez despencou do poleiro tão logo a mamãe ligou o liquidificador na cozinha, ao lado. Nada grave; no minuto seguinte, ainda no chão, olha o Enéas outra vez alardeando a compra de um quilo de farinha pra fazer farofa, como se nada houvesse acontecido.

*

Mas voltemos à fauna canina de nossa casa, da qual, como ficou dito, o primeiro integrante foi o Tópi – plebeu e destemido, capaz de encarar congêneres graúdos que, encontrando aberto o portão da rua, subiam, em busca de comida, pela comprida passagem de carro que desembocava na garagem. Depois dele veio a Dala, da raça doberman, dona de pedigree lustroso como seu pelo castanho, presente de nossa parenta rica, a tia Helô, que vivia a rodar mundo com o tio Conde, seu endinheirado marido espanhol. 

Um dia, estavam para chegar lá em casa o tio Doca, irmão do meu avô materno, e a mulher dele, tia Dalila – e só então, entre mil preparativos para receber os hóspedes, a mamãe se deu conta de que o apelido conjugal da tia era... Dala. É uma pena que já não me lembre do nome alternativo que a dona Wanda, temerosa de situações constrangedoras, quis impingir aos filhos para a eventualidade de ser indispensável referir-se à xará quadrúpede da nossa tia-avó.

Houve um tempo em que se tornou costumeiro o ritual de alguém levar seu cão à nossa casa, para trâmites reprodutivos. Nem preciso dizer o quanto nos excitava o minueto erótico da cachorrada no quintal. Décadas mais tarde, um ex-vizinho, hoje escritor conhecido e reconhecido, contou que, quando menino, adorava pendurar-se no escuro da janela do apartamento onde morava com os pais, para dali fruir os engates caninos. Numa noitada paulistana em que o assunto veio à baila, o escriba, já maduro e razoavelmente embriagado, se pôs a tartamudear, nostálgico, como se de novo tivesse a cena sob os olhos: “Cachorro transando... cachorro transando...”.

Na casa ao lado, do tio João Antônio e da tia Yedda, houve pelo menos um cão inesquecível, o Duque, inesquecível pelos latidos que picotavam as noites dos moradores e, ai de nós, vizinhos. Preocupado com o incômodo causado pelo xodó dos 11 filhos, o tio foi um dia ver o que se passava, e constatou que o bicho gania de fome crônica. Chamou seus meninos às falas, ordenando que alimentassem o faminto – cujo nome, decretou, dali por diante ficaria sendo Faquir. 

Os ladridos do ex-Duque não eram os únicos ruídos que, de madrugada, saltavam o muro entre nossas casas. Vinha de lá também o pio agourento de um ou mais mutuns, ave de certo porte que o primo Roberto resolveu um dia preservar da extinção. Nesse caso, ao menos era boa a causa: no correr os anos, sem dar um pio, o discreto Roberto Azeredo veio a se notabilizar por seu bem-sucedido esforço de preservação não só dos mutuns como diversas outras aves.

*

Naquelas duas casas da rua Padre Severino, em Belo Horizonte, que já não existem, só não tiveram sorte os coelhos – ao contrário da tartaruga Tutinha e do mico Micolau, que fizeram a alegria de suas donas, as irmãs mais novas, e de todo o nosso clã. Que dupla mais disparatada! Se a Tutinha era devagar, como é próprio dos quelônios, o Micolau se alvoroçava todo ao menor pretexto, tendo um dia avançado nas pernas de uma prima, sabe-se lá com qual desiderato, arruinando as suas meias novas. 

No capítulo coelhos, que jamais passou do singular, foi a muito custo que o Rodrigo, o Otávio e eu, os chamados Três Mais Velhos, conseguimos dobrar o nosso pai, no início inflexível – só na Páscoa, e ainda assim de chocolate –, não sem antes prometer que cuidaríamos da ronronante criatura, sem dar trabalho a mais ninguém, e que não permitiríamos sua entrada em casa. Durou até a madrugada em que a mamãe acordou alarmada com ruídos estranhos sob a cama. Depois de verificar o que se passava, o dr. Hugo foi ao quarto dos três filhos, arrancou suas cobertas e exigiu que expulsassem o invasor, o qual no mesmo dia teve de ganhar novo endereço.

Não chegou a tanto o tio João Antônio, mas também nos seus domínios foi breve a passagem de um coelhinho. Breve e infausta: um dos primos, depois de dar-lhe um banho no capricho, envolveu-o numa toalha e, para acelerar o processo de secagem, fez o que via fazer a lavadeira – torceu, torceu, vigorosamente torceu aquele embrulho, dando à história o merencório desfecho que você pode imaginar.

Tudo o que sabemos sobre:
Humberto Werneck

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.